segunda-feira, dezembro 21, 2009

Média para sumir.

A doçura do olhar emurchecido do rosto. O lábil tremor do gesto no encontro das mãos.
Puxei-o pela mão direita. Parece que a mão direita do homem protege a gente, mulher.
Mais manhãs de agosto passaram-se. Mais manhãs de setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, abril, março, abril, maio, junho, julho.
E daí que os mal-entendidos eram subentendidos e os subentendidos, mal-entendidos?
Foi num dia de primavera que ela se revoltou. Sim, foi. Era quase noite, cores e luz em emulsão no ar, deu-se num largo mesquinho.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Um que você ama é onde você esconde.

Fora um encontro casual.
Sorriram, piscaram, enrubesceram. Aproximaram-se, cochicaram impronunciáveis resmungos, tocaram-se.
Amaram-se, uma noite para sempre, em frente à grande estante errática da sala. Arrastando-se por entre as páginas amareladas e memórias náufragas, hipnotizou-lhes o encantamento.
Lembranças, amuletos e retratos, bibelôs quebrados, brinquedos enferrujados. Objetos tristes entre livros cerrados.
Os resmungos sibilavam malícias nos seus tímpanos e a pútrida fumaça do ócio embrulhava-lhe as tripas.
Quando acordou, no dia seguinte (se é que pode-se dizer que dormiram), ela pareceu mais feliz, porém, estranha e confusa com aquela situação. Seu coração parecia derreter ao vê-lo dormindo. Com a barba ainda tímida, ele recebeu um beijo quente dela. Sorriu.

É o outro eu que eu te contei.

Tudo estava em silêncio.
Debaixo da bancada desordenada, na estante de instrumentos, entre os vasos esparsos, ela fuçou. Nada ali.
Enfim, a madrugada arregaçou suas anáguas e ela, cansada, tentou afogar sua frustração no pub sonolento. Sua última esperança, derradeiro refúgio.
A noite tinha sido agitada e ainda ecoavam distantes risos, cantos e confissões públicas, compartilhadas, solidárias. Os bêbados de sempre. Em busca, como ela.
Entrou no depósito desordenado - sem querer -. Barris emborcados, babas salivadas... Encontrou a saída. O relento ora doce ora azedo das fermentações.
Foi até o balcão do bar novamente. Afogou-se numa caneca de cerveja escura, para esquecer a busca, a saudade sonhada e o disfarce de liberdade.
Voltando a andar, se depara com sua casa favorita. Na verdade, um sobrado de paredes amarelas, janelas e portas azuis.
Aquele sobrado permanecia cheio de gritos e roncos sinfônicos, ela nomeava assim, mas sabia que eram gemidos. De qualquer forma, era decorado com muito esmero, tapetes, troféus, bibelôs por toda parte. Os donos dele, às vezes, recitavam uns para os outros juras de amor, vingança, conquista, opressão e morte.
Mas ela, continuara sua busca. Agora, no presente.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Ele levou minutos, levou a nenhum lugar.

Gostava de se vestir bem. Usava relógio de ouro. Sapatos sob medida. Antes de sair de casa, examinava-se no espelho. Parecia precocemente envelhecido, talvez porque bebesse demais com os amigos todos os dias. De qualquer maneira, sentia-se um vencedor. Mas não era feliz.
Freqüentemente, chegava em casa bêbado, de madrugada. Consumia-se em angústias que jamais confessara a alguém. Quando ficava deprimido, passava dias inteiros sem abrir a boca, imerso, alheio, indiferente. Rico e hipocondríaco, olhava-se toda manhã em busca de novas rugas e novos cabelos brancos, antes de sair para o trabalho no escritório.
A mulher que ele amava continuava solteira, morando com os pais; estava muito magra; sempre solitária... Pelo menos essas eram as notícias que seu irmão trazia sobre a moça.
Numa madrugada de domingo, acordou sobressaltado. A mão direita doía como se estivesse sob pressão de tenazes de aço. Imaginou que acabava de sofrer um derrame. Acendeu a luz, chamou a mulher - ele fora obrigado a casar com ela, para não se sentir só - e ela resmungou, irritada: ''Isso não é nada, é cisma tua. Tu estava dormindo sobre a mão, não é nada de mais. São três horas da madrugada, me deixa dormir, pelo amor de Deus''.
Cinco dias depois, recebeu mais uma visita do irmão dela, no escritório. O homem, abatido, trazia a notícia triste; ela morrera em seus braços, na madrugada do último domingo, às três da manhã. Antes de morrer, murmurava: ''Minha última vontade era apertar novamente a mão dele''.
Ouviu a notícia em silêncio. Mas assim que o outro saiu, começou a chorar como uma criança, porque percebeu naquele instante - naquele preciso e fugaz instante - tudo o que havia perdido pra sempre.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Charlie.

Ele era um homem civilizado. Ci-vi-li-za-do.
Uma pessoa de cuca limpa, com idéias abertas ou libertas.
Se sentou em um banco e ficou ali, até raiar o dia.
A festa continuava lá dentro. Ele despertou de uma longa letargia e foi embora.
Chovia muito naquele sábado de manhã.
Charlie não gostava nada de chuva. Nem de banho. Nem de cheiro de alho e barulho de moto.
No terraço, ele sentou, olhando a chuva cair, pesada, fria, molhada. O dia era daqueles compridos, daqueles que não acaba mais.
Como gota longa que escorre no vidro. Como uma lambida de gato.
Mais tarde, um raio de sol deslizou entre as nuvens.
Ele saiu do torpor e foi caminhar, sem pressa, na grama molhada.
Numa bromélia arreganhada tinha uma mosca. Uma mosca com patas e asas, como todas as moscas.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Anos de prata.

Eles se encontravam uma ou duas vezes por semana.
Paixão, ela reverberava. Fosforescências.
Ele dizia claramente. Não queria se casar, não queria se juntar. Não gostava de iludir. Cada qual em dividido, para se somarem no mais e no tudo. Assim ele dizia. Assim ele queria. Assim ela assentia.
Na esperança de esperar, ela esperava. Um dia, quem sabe? Eles se casariam.
Os encontros semanais. Resplandescências.
Durante muitos anos ela viveu feliz, à espera do que esperava. Consonâncias, as ressonâncias.
Uma vez, como tantas vezes, quando ele voltou de viagem, não telefonou. E não atendeu quando ela ligou. Dissonâncias? Reacreditada, ela se esperou. Palidecências.
De manhã, debaixo da porta dela, um envelope com a letra dele. Um bilhete. Obscurecência. Estava tudo acabado. Ele acabava de se casar.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Forma ao esquema de coisas.

Um é placidez dos lençóis. Outro é o estremecer da nudez. Um é a resposta da carícia na pele. Um é o segredo do oculto. Outro é a revelação do exposto. Um é o suspiro. Outro é o arquejo. Um é a espera. Outro é perigo. Um é o amor. Outro é a paixão. Ela quer os dois.

terça-feira, novembro 24, 2009

Simétrico.

Acariciando o queixo, desenhava com uma mão, assuntando com as tripas e respirando com o coração.
Horas a fio pesquisava, firmava o traço e os rabiscos soluçavam sobre o papel.
Tudo começou com um ponto. Um ponto solto, vermelho, solitário, no meio da folha. Depois, uma linha a percorrer o papel em arabescos barrocos. As curvas loucas, preenchenco o vazio, desenrolando-se e curvando-se novamente para todos os lados. Finalmente, as manchas pesadas espatifando-se e dissipando os intrincados ornamentos.
Os gatinhos sapecavam em suas pernas, de fome.
Esfregando pesadamente suas pantufas felpudas pelo piso gelado da sala, vai até a cozinha. Vazia e escura. Já era quase dia. Aproveita e bebe um pouco de uísque. Ele se empolga, senta na mesa e bebe duas garrafas. Em instantes, dormia um sono etílico.
O telefone toca e ele, após acordar assustado, sobe até o quarto para atendê-lo. Era engano. Fica por lá e continua a escrever.
Quando se deu por satisfeito, no quarto silencioso, um enorme sorriso iluminou o papel. A carta estava cerrada. Mandaria no dia seguinte. No mesmo envelope, o desenho que fizera.
Todas as cartas de amor são parecidas. Dizem as mesmas coisas, repetem as mesmas palavras, as mesmas superfícies e idênticos conteúdos.
Cartas de amor não dizem nada. Cartas de amor são palavras parasitas. Tal qual um vírus inanimado quando solto no ar, manifestam-se quando penduram seus mistérios no receptor.
E, quando encontram o único e adequado terreno, meu Deus, o que é essa avalanche? Meu Deus do céu, faça-me escravo desta química!
De que me importa o Deus do céu, quando se ama?

segunda-feira, novembro 23, 2009

Ré menor, opus 21.

- Tu sabe o que é uma borboleta?
- Mas... Claro que sei!
- O que é, então?
- Ora, é uma borboleta! Uma... butterfly, uma... mariposa, uma Schmetterling, uma papillon, certo?
- Muito certo. Mas como ainda podemos definir uma borboleta?
- Um ser, um inseto que voa!
- Correto. O que mais?
- Bem, as borboletas têm uma tromba de elefante por onde se alimentam, asas muito grandes e coloridas, muitos pés também.
- Mais alguma coisa?
- Elas vivem pouco tempo. Pobres borboletas...
- É?
- É, e também existem os caçadores de borboletas, com aquelas redes... dando ''pulinhos de primavera'', tipo os do Bob Esponja.
- Sei... Eles também parecem borboletas, né?
- Não! Eles são maus. Depois de pegar as coitadas, crucificam elas com dois alfinetes.
- Tá. E... o que mais tu sabe das borboletas?
- Eu sei também que existem muitos tipos de borboletas. Dizem que suas asas têm um pó que pode nos cegar.
- Interessante! E o que mais?
- Como? Mais? Por que cargas d'água tu quer saber o que eu sei das borboletas?
- Só para puxar assunto mesmo, hê.
- Ok...
- Então, mais alguma coisa?
- Tem ainda aqueles desenhos que fazemos quando crianças, com... papel dobrado e tinta no meio, sabe? Tem também as gravatas borboletas... aquele... tipo de macarrão, tem...
- Mas essas não têm graça. Prefiro as de verdade. Fala mais das outras.
- Bom, elas... voam meio torto, eu li uma vez. Parece que nunca sabem onde estão indo.
- Como se estivessem sem pressa?
- Sem pressa, não. Como se tivessem acabado de acordar, sabe? Tipo... procurando os chinelos debaixo da cama...
- Sei... Diga mais.
- Deixa eu pensar... Humm... Lembrei! Quando as borboletas pousam numa flor, suas asas ficam fechadas, assim como se estivessem rezando.
- Tu sabe muito sobre borboletas.
- Tu acha?
- Acho. Tem mais alguma coisa?
- Bem, tem aquela fase que vem antes, quando elas não são borboletas ainda, quando são uma larva. Mas disso eu não sei muito e tu me perguntou sobre borboletas, não larvas.
- É verdade. Mas, continua.
- Sobre borboletas?
- É, sobre borboletas.
- Mas eu não sei mais nada sobre borboletas.
- Nada?
- Nada.
- Está bem. Então me fale sobre nuvens.
- Nuvens?
- É, nuvens, como aquelas ali.
- Tá. Mas por que tu quer saber sobre nuvens?
- Assim, por nada.
- Nuvens são concentrações de água em estado gasoso, no céu.
- O que mais?
- Nuvens são como borboletas: parece que nunca sabem para que lado voar.
- É verdade. Mais algo?
- Não sei muita coisa sobre nuvens, desculpe.
- Então me fale sobre bigodes.
- Bigodes?
- É, bigodes ou, então, cílios. Tu prefere falar de bigodes ou cílios?
- Tanto faz.
- Diz o que tu sabe sobre cílios e bigodes, então.
- Mas o que tu quer saber sobre cílios e bigodes?
- São mais parecidos com borboletas ou com nuvens?
- Bigodes: com borboletas; e cílios, com nuvens.
- É mesmo. Continua...
- Tá bem, mas antes...
- Sim?
- Antes eu queria dizer que te amo.
- É?
- É.
- Eu também.
- Que bom. Continua sobre os cílios e bigodes, ou tu prefere falar agora sobre pulgas?
- Pulgas? Pode ser.

quinta-feira, novembro 19, 2009

P-p-p-party.

Chega tarde à festa e só surpreende pedaços de corpos, muitos pedaços, separados, disformes, atravacando seu caminho. Pernas, braços, olhos, muitos olhos dando reflexos multicoloridos ao ambiente escuro. Um dos olhos o reconhece e se encaminha para ele, vai aos pulos e se ajeita no bico do sapato... Com medo, John olha para ele: um dos olhos de Lucy, verde, verde, grande e úmido, como se ela acabasse de chorar. Mas seu olho está vivo, não traz marcas vermelhas deixadas pelas lágrimas. O verde, o branco e o círculo negro bem definidos, marcantes. O olho não está triste, embora sem o companheiro. Onde estará o outro, as outras partes de Lucy? Precisa encontrar-se com ela, salvá-la, salvar o resto do corpo. Mas a luz está turva, leitosa. Os olhos só se refletem nas paredes, nunca no chão de corpos divididos. Eles parecem buscar no alto outros olhos, piscam, mudam de direção, não páram num só espaço. O olho de Lucy ficou preso nos de John, e os de John, no de Lucy. O ambiente vai afogando o homem, luzes de olhos na parede, luzes vermelhas no palco fundo, sons aloucados e um bolo na garganta impede seu grito. Ele grita: ''Lucy-Lucy-Lucy'', mas o som repercute apenas dentro dele. Os rapazes do conjunto pop permanecem frenéticos, incansáveis, barulhentos. Cantam desesperadamente uma canção que ele não entende, quase uivos. E a luz vermelha vai apagando e acendendo, mudando de tonalidades: forte exageradamente, quase cegante, ou indistinta. Luz e sombras nos corpos deles, nas estranhas cabeleiras longas que sobem e descem, volteiam inquietas. À medida que a música fica mais louca, sente que nuas pernas, lisas e cabeludas, se movimentam dinamicamente, não no palco, mas ao seu lado. Só pernas, só o seu corpo no meio delas. Duas estão encostando ao seu corpo, se esfregando nas suas pernas em ritmo vertical e horizontal. Ele tem medo e desejo, muito desejo, muito medo. Suas mãos descem até elas, são as longas pernas de Lucy, tem certeza de que são. Já tinha um olho, agora, duas pernas, muitas esperanças. Logo outras partes reaparecerão e, como fazia com os brinquedos de criança, montará todo o corpo de Lucy, peça por peça. E Lucy renascerá em suas mãos, de suas mãos. O corpo de Lucy é sua geografia constante e nada desconhece dele. É terreno moldado em suas mãos e só ele sabe dos vales, montanhas e planícies daquele corpo. Ouve estrondos de palmas, vivas, barulho alegre, gritos. Uma mulher, maior que todos, mas com rosto de criança, aparece nua, canta e dança, possuída pelo demônio. Enquando ela canta, todos se calam. Depois novos gritos, palmas, vivas. A voz volta a imperar. Não consegue deter uma nota ou um verso, mas é música e a voz emite palavras estranhas, sons onomatopaicos e selvagens. Crescem os corpos ao fundo, mas não sabe distinguir fisionomias e sexos. Estão nus e os corpos vão sofrendo metamorfoses: surgem lisos como de moças ou adolescentes e vão criando pêlos enormes que crescem, crescem, até surgirem os corpos novamente lisos. A voz vai ficando triste, mais triste, mais choro que canto. Parece sinos desordenados, tristes, fortes. Lucy, Lucy, por que você inventou esta festa? Por que o convidou com tanto empenho? Onde estão as outras partes do seu corpo, onde? É tão confuso. Sente-se abafado, sem luz, neste fundo de poço imenso, cheio de fantasmas aloucados, e sem definição. Está confuso e não compreende as mãos surgindo, sem os braços enormes, nítidas. As mãos correm pelo corpo dele, tiram suas roupas, Lucy... Está excitado, muito excitado. As mãos, as pernas, o olho, um olho só, as mãos revisitando seu corpo muitas vezes, como uma amante saudosa. Ele tem partes do corpo dela, necessita uní-las com as demais, até recriar ela completa e mais velha. Lucy lhe disse muitas vezes que nasceu nas mãos dele, elas descobriram seu corpo. Agora elas vão montá-la e será divino vê-la nascer delas (novamente). Mas não excite-o assim, ele precisa concentrar nessas partes de tantos corpos para descobrir as que lhe faltam. Precisa, urgentemente, de seu corpo completo, reconstituído. Não quer que seu corpo se relaxe, depois do orgasmo provocado por suas pernas nas dele, suas mãos correm o corpo de John, seu olho hipnotizando-o. Sente um calor nos lábios, primeiro o vem uma doce repugnância. Olha e alegremente descobre os lábios dela, sua boca inteira, dentes, sorriso. Seus lábios queimam os dele, saem da boca e mordem o ombro dele, beijam seus braços, o rosto. Aos poucos, outras partes surgirão e será mais fácil reconstruí-la, Lucy. Não pode se excitar tanto. Se interromper seus desejos, não montará seu corpo, peça por peça, como na infância. Quer calma e ar puro para montá-la melhor ainda do que era antes. Tudo seria mais fácil se houvesse um ambiente aberto, flores, muitas flores, cantos de pássaros ou uma música de Bach, tocada baixinho. Mas esta maldita barulheira, esta alucinação, este poço escuro e triste e o sexo em desespero impedem de concentrar-se na obra. Outras partes vão surgindo mais, elas se movimentam dinamicamente como a música tocada. Seus movimentos são lentos e querem uma construção minuciosa, como a de um poeta buscando palavras exatas para um poema maior. Ele precisa montar Lucy, seu poema. Precisa do corpo completo para completar seu ato de amor. Quer seu corpo colado no dela, sem faltar um detalhe. Não quer se satisfazer com as partes disponíveis apenas. As mãos de Lucy se juntarão às suas, agora elas estão presas nos braços e eles tocam o corpo de John. Mãos, boca, braços, pernas excitando-o e ele querendo deter cada parte para formar o todo. Agora são dois olhos nos dele. Por que esta festa maluca, por quê? Eles estavam tão felizes e calmos, isolados das pessoas, ambientes e coisas fora do mundo. Criavam a vida de uma maneira calma, sem luzes, cores, festas, palpites, fugas. Longe, tão longe das mentiras criadas no tempo de solidão, antes de um se descobrir no corpo do outro. Por que esta festa, Lucy? Será que precisava de fugas? Ele não entende, não consegue... John pede para que ela tire a mão de sua boca, ele quer falar, perguntar. Quer porque dói muito e não encontra resposta para o insólito disto tudo. Os dois olhos, a boca, agora o nariz e cabelos, as mãos, os braços, as pernas, o corpo vai se recompondo, mas sente vontade de parar com tudo e deixar que seu corpo cansado tenha paz. Os beijos de Lucy, suas mãos no corpo dele, as pernas nas dele, não, Lucy, agora não. Os seios, onde estão os seios? São fundamentais para maior harmonia e beleza. Ele suplica que não alise seu corpo agora, por Deus, ele não agüenta, não esfregue as pernas assim, por Deus, Lucy. Precisa dos seios, das nádegas, do que lhe falta... E seu corpo está queimando, resistindo, esfregando-se ao dela. Não, precisa concluir, não pode desistir. Quer e não quer, não pode. Agora, Lucy, pare um pouco, ele está completando o poema, com poucas palavras mais, não deixe que as partes se unam, John quer montá-las uma a uma, peça a peça, bem dispostas, como as palavras do maior poema de amor que alguém já fez. Impossível, não pode, não há mais forças, nem tempo, nem nada. Que as partes se encontrem nos gemidos finais. Já ouve o gemido de Lucy e o hálito dela quente ao ombro dele, voaram, voaram, voaram, viagens, sons, cores, viagens, cores, sons, voaram, voaram. Seu corpo completo completa o dela. Os corpos trêmulos se compuseram juntos, são deuses, dois corpos, um só corpo e Lucy Lucy.
A música baixinha, a claridade da lua no céu, fora do poço dois corpos estendidos. Um sono pesado, sua cabeça pendida nos ombros de John, um beijo na testa, diversos beijos em seu corpo, agora completo. Tomba cansado e sonha, sonham.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Subsídio.

Pega um cigarro, custa a acendê-lo. Não consegue controlar o tremor das mãos.
Dá uma espiadinha no espelho do carro, ajeita o cabelo despenteado pela ventania. Paciência! Depois se arruma melhor. O importante é que está ali. Apóia a cabeça no encosto do banco, respira fundo. No rádio: ''Lucy in the sky with diamonds''. Ouve atento, em busca de descontração. Não quer que ela perceba como está tenso. Disfarça. Tenta uma conversa impessoal, procura ser lúcido, brilhante. Não é nada disso.
Dirige devagar. Troca a marcha inexperientemente. O carro parece tão grande para ele. Com aquela cara de menino.
Chegados no apartamento dela, ele respira aliviado. Tenta aparência natural. Observa móveis, quadros, aparelhos de som, discos... Separa: Caetano Veloso, Chico Buarque, The Carpenters, Beatles e Arnaldo Antunes. Ela abre o uísque e o serve. Algumas almofadas pelo chão. Senta-se, tira os sapatos, ajeita a camisa. Are you sure didn't make it up yourself? - ouve. E vai sofreando perguntas, essas perguntas tolas que os homens fazem ou têm vontade de fazer: é seu apartamento? Você vem sempre aqui? Procura se convencer de que isso não importa. Pega o copo de uísque, põe no chão a seu lado. I'm standing in the wind, but I never wave bye-bye, but I try, I try - começa a cantarolar.
Ouve e bebe com certa sofreguidão. Talvez lhe faça bem.
Na penumbra da sala, pára o seu cigarro, onde uma cinza comprida parecia querer cair a qualquer momento. A moça sorri.

Modern Love.

Olhar ele dormindo não era uma coisa que ela imaginara. Foi por acaso que dormiram juntos. Mesmo sem conseqüências sexuais. Talvez porque se conheçam há pouquíssimas horas e ela, mesmo sendo uma mulher moderna, ainda se considera absoleta em relação às jovens da mesma idade atualmente.

Violeta acaba de sair de um (curtíssimo) relacionamento, onde, dramatizava ''estar com o coração em pedaços'' e que, nenhum outro alguém poderia curá-la. Parece que agora estava enganada, não é mesmo, Violeta?!

Pedro trabalha no ramo de publicidade. Ele ainda é jovem. Mas sempre foi um cara boêmio (desconsiderando o antigo significado da palavra), com alma de idoso, mas ao mesmo tempo, muito responsável, apesar de sua desorganização.

Ele a convidara para dar uma volta no seu ''carango'', como ainda costumava chamar seu carro antigo. Violeta, claro, adorava aquele jeito de falar de Pedro.

No outro dia, quando Violeta se deu conta, sentiu uma mão em sua cintura. Estranho... Ela não lembrara de nada. A resposta estava justamente em frente a seus olhos: quinze - sim, QUINZE - garrafas de vinho tinto e mais duas de vodka barata. Certamente ela não lembraria de nada que aconteceu na última noite e isso, de certa forma, a deprimia.

Violeta sempre foi uma mulher nostálgica. Quando se sentia carente (não raramente), se pegava lembrando de amores passados. E isso a incomodava um pouco. Mas mesmo assim, não perdia o hábito. Talvez porque não tenha encontrado alguém que a satisfaça por completo.

Pedro abriu os olhos. Sua cabeça pesava um pouco, mas sua memória era invejável. Lembrava de cada detalhe com Violeta. E não se lamentava por não terem feito sexo. Olhou para o lado, e em seus braços, estava o corpo de Violeta. Ela parecia perturbada. Mas aos poucos, retomava sua memória.

Violeta entrou no carro e, em meio àquele cheiro de incenso, resmungou: ''para onde vamos hoje?''
Ele parecia mais empolgado que ela, e disse sem pensar: ''quero que conheça um lugar''. Ela lançou um longo sorriso.

Pedro não conteve-se, e quando viu Violeta ao seu lado, quis beijá-la. Ela, meio assustada, correspondeu ao beijo de tirar o fôlego. Indícios de excitação tomaram conta dos dois corpos. Porém, Pedro recuou: ''se não aconteceu ontem, certamente, é porque devemos esperar um pouco mais, certo?''.
Violeta sorriu e o beijou.

Já mencionei como se conheceram?! Acho que não...
Violeta e Pedro, se encontraram pela primeira vez numa feira literária, na cidade onde um amigo de Pedro morava. Ela, foi convidada por uma amiga... que, era amiga do amigo de Pedro.
Violeta avistou aquele rapaz de cabelos negros, compridos e brilhantes. Seu par de óculos e tênis chamaram a atenção. Sua roupa simples, fora de uso e aparentemente macia, a envolvia. Ela queria mesmo conhecê-lo. E sem vergonha alguma, dirigiu palavras a ele.

Naquela mesma cama, Violeta tentava lembrar como foram parar ali. E Pedro, com uma simplicidade na fala, explicou-a que haviam apenas ouvido algumas músicas no velho toca-discos e bebido (muito). Ela se sentia segura, mesmo não lembrando muito bem sobre a noite passada.

Chegados ao lugar onde Pedro gostaria de mostrar à Violeta, ele a desceu do carro e mandou que abrisse os olhos. Acredite ou não, ele levou-a num zoológico. Nem ao menos imaginando que Violeta amava animais. E mais do que isso, amava zebras. Sem querer, Pedro a colocou frente a frente com as zebras do zoológico. O que claro, fez com que Violeta abrisse um sorriso que mal cabia em seu pequeno e delicado rosto.

Violeta lembrara aos poucos que haviam ido tomar sorvete após terem ido ao zoológico. E apenas isso teria acontecido. Ela estava surpresa com tudo. Nunca um homem a tinha tratado com tanto respeito. Por um momento, ela até desconfiou da heterossexualidade de Pedro. Mas lembrou que eles estavam abraçados e que ele a beijara várias vezes. Não era possível. E não era mesmo.

Viram os leões também, que eram os animais favoritos de Pedro. Além de seu signo ser Leão.

O sabor de sorvete favorito de Violeta é flocos. Pedro acertara mais uma vez. Espero que ele descubra que suas flores favoritas são rosas amarelas.

terça-feira, novembro 17, 2009

The youth is starting to change. Are you starting to change?

É engraçado a forma que as coisas mudam. Estamos praticamente no final do ano... Alguns, se preparam para ir embora de suas respectivas cidades; outros, ''pegam'' empregos temporários; e há ainda os que acabarão o Ensino Médio. Aliás, era exatamente aí onde eu queria chegar: nas pessoas que se formam esse ano.
Quer dizer, tem todo aquele ritual de trocar telefone, juras de amor que parecem eternas e tudo mais.
Mas eu digo uma coisa: vamos todos nos perder de vista um dia. E o tempo para ver os ex-colegas de colégio não vai existir. Os papéis de telefones que acabamos de anotar vão sumir como que por encanto. Crescer é, de certa forma, se separar das pessoas amadas.
Vamos descrobrir, na carne, que sentir, nessa vida, é sentir o tempo indo embora.
Alguns momentos, algumas coisas, ou pessoas, cheiros, visões, objetos e lembranças, nos põem em contato com o passar do tempo. Tudo o que nos emociona, tudo o que nos toca fundo, é o tempo chegando e indo embora. Se eu pudesse dar um conselho, eu diria: não queiram nunca ser eternamente jovens; gostar de viver é gostar de sentir, e gostar de sentir é, necessariamente, gostar de envelhecer.
A vida, para uns, será mais suave; para outros, mais dura. Às vezes por castigo, às vezes por acaso. Falem com o tempo. Conversem com ele. Fiquem íntimos dele. O tempo é a nossa única companhia garantida até o último instante.
Sejam orgulhosos da derrota, e bondosos na vitória.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Uma única...

Ela estava inquieta. Agitada demais para dormir, tentou ler por algum tempo, mas logo abandonou seu livro e começou a andar pelo quarto. Estava começando a chover, e Claire* viu as gotas geladas caindo nas vidraças com força espantosa.
Respirando fundo, forçou-se a interromper a agitada caminhada pelo aposento e sentou-se.
Naquele instante a porta se abriu.
Claire emitiu uma exclamação de espanto ao vê-lo entrar no aposento, chutando a porta para fechá-la. Ele abriu as presilhas do colete e deixou-o cair no chão. A camisa de linho estava suja e molhada, como seus cabelos e seu rosto. Sua aparência era ameaçadora, perigosa e Claire recuou um passo enquanto ele se aproximava.
Seus olhos ardiam ainda mais escuros, e ele, a encarava enquanto atravessava o quarto com passos lentos, determinados. Ao parar diante dela, praticamente encurralando-a contra a parede, John ergueu uma das mãos e tocou seu queixo.
- Não tenho pensado em nada que não seja você - disse, o tom soando zangado aos ouvidos de Claire.
Então ele a beijou.
John roçou sua boca com os lábios, quase incapaz de conter-se, temendo esmagá-la com a intensidade de sua ânsia.
Não devia se importar com ela.
Entrara no quarto de Claire com o firme propósito de deitá-la diante da lareira e saciar seu desejo. Mas, quando vira o medo em seus olhos, sentira que o instinto se tornava mais brando, menos urgente. Queria tê-la como antes, desejando-o, excitada e relaxada. Por isso conteve-se, tocando apenas seu rosto com a ponta dos dedos, beijando seus lábios com ternura.
Claire conteve o fôlego e abriu os olhos. De repente, ela o enlaçou com os braços e beijou-o com ferocidade espantosa, pressionando o corpo contra suas roupas sujas e ensopadas, sem dar nenhuma importância ao prejuízo que causava às próprias roupas.
John não pensou duas vezes. Puxou-a contra o peito, segurando sua cabeça, inserindo a língua entre seus lábios. Ela correspondeu de pronto, e o calor de sua boca o fez pensar no calor que encontraria quando a despisse e mergulhasse em sua... feminilidade.
Claire abaixou as mãos. Empurrando a camisa dele para cima, ela tocou a pele de seu abdome, do peito e dos mamilos. Sem interromper o beijo, usou o polegar e o indicador para massageá-los.
John ouviu o próprio gemido aflito. Tinha de penetrá-la. Agora!
Rápido, tomou-a nos braços e levou-a para a frente da lareira, onde a guitarra ocupava todo o espaço de um assento duplo. Colocando-a no chão, mudou o instrumento de lugar, despiu a camisa, removeu o restante das roupas e aproximou-se novamente dela.
Claire tremia, mas isso não o impediu de levantar seu vestido, desnudando suas pernas. Por um momento o homem hesitou, mas ela tocou sua nuca e puxou-o em sua direção, tomando sua boca num beijo devastador.
Um gemido rouco brotou de seu peito quando a língua encontrou a dele, como se ela estivesse esperando por aquele momento há dias. Emoções profundas, variadas, imensas e intensas preenchiam por completo, e ele moveu a cabeça de forma a poder olhá-la com sedução.
Nenhum dos dois disse nada. Quando os olhos se encontraram, John penetrou-a com um movimento firme e seguro, fechando os olhos para melhor desfrutar do prazer da união.
Quando ele começou a se mover, Claire acompanhou seu ritmo. Por maior que houvesse sido o frio que sentira há pouco, de repente queimava com um frenesi que nunca havia experimentado antes. Os músculos sofriam com a tensão e ele se deliciava com as sensações que o corpo feminino proporcionava. Tomou seus lábios novamente para mais um (longo) beijo, engolindo seus gritos de prazer, derramando gota a gota em seu interior todo o prazer que o dominava no momento do êxtase.
Tremendo, apertou-a entre os braços, aninhando-a até sentir que seu coração retomava o ritmo normal e a respiração ganhava profundidade. Jamais conhecera tal emoção, nem se sentira tão íntimo de outra pessoa. Nem mesmo com a própria esposa.
Era perigoso demais pensar nisso.
De qualquer maneira, sua falta de controle o assutava. Fora procurá-la movido pelo desejo de possuí-la, mas nunca se imaginaria fazendo amor com uma mulher daquela maneira, no chão do quarto, diante da lareira, correndo o risco de ser surpreendido por um de seus irmãos... Mas, diante da recepção calorosa e das evidências de desejo de Claire por ele, não fora capaz de controlar-se.
Apoiado nos cotovelos, encarou-a e viu o torpor em seus olhos. Ela estava confusa, perplexa, e saber que sua reação ao ato era tão intensa quando a dele só tornava a sua situação ainda pior. Não queria sentir-se ligado a ela. Não queria laços além daqueles que os uniam na cama.

Milonga.

Algo estava errado ali. Eu conhecera seu rosto e interpretara suas expressões tão bem quanto as minhas, mas aquela... jamais a vira antes. E não gostava do que via.
Ele estivera chorando, e não queria que ninguém soubesse disso. A constatação me aborrecia mais do que gostaria de admitir. Não que acreditasse estar sendo vítima de uma mentira. Também não suspeitava de que ele guardava algum segredo obscuro e perigoso. Sabia que não era nada disso.
Mas algo o pertubava. E o instinto dentro de mim despertava um estranho sentimento de proteção. Queria destruir o que quer que houvesse causado aquelas lágrimas.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Deuses astronautas em plena nudez.

Gosto do jeito como me apaixono por estranhos. Do modo como eles me chamam atenção, me fazem sentir borboletas no estômago e na outra semana, são apenas boas lembranças. E mais do que isso, acho merecedor escrever sobre eles aqui, por isso, aí vai mais um conto de fim de semana.

Pelos padrões do Uruguai, ainda era cedo; às onze horas da noite o horário da janta estava apenas iniciando. Eu comecei a sentir fome e ia me inclinando sobre o braço do meu primo para pedir comida, quando algo me chamou atenção no centro do salão. O olhar de um homem fez minha respiração se acelerar... de um modo que quase doeu. Foi como uma pontada seguida de dor, que começou em minha garganta e se aprofundou por meu corpo através do peito, direto ao coração.
Olhei, e continuei olhando. Algumas coisas nele me encantaram... Como os cabelos escuros; ombros largos; uma expressão corporal que me puxava; a maneira como se inclinava para a frente, atento, balançando a cabeça de certo modo para ouvir o que o homem a sua frente estava dizendo; o modo como franzia a testa e curvava a boca num discreto sorriso que dizia que mal conseguia ouvir, mas que continuava tentando. Cada gesto, cada olhar, parecia-me extremamente familiar. Ele não era um estranho.
Deviam ter passado alguns segundos antes que eu percebesse as roupas que ele estava usando, e quando o fiz a estranha sensação se abateu sobre mim outra vez. Meu coração disparava e parava, disparava e parava, como se não soubesse o que fazer, assim como minha cabeça.
Calça jeans, camisa branca e um colete de couro muito caro e folgado, com um bolso de cada lado. Ele também usava um lenço, meio cinza, meio lilás. Fazia muito frio naquela noite, todos usavam roupas quentes e casacos pesados, mas ele não parecia incomodar-se ao usar somente aquela roupa.
Fiquei dividida. Parte de mim, a parte que vive entre imagens e devaneios, queria se levantar da cadeira e ir até o outro lado da mesa e dizer: "Oi!", quase aceitando o fato que aquilo realmente acontecia diante de meus olhos. Mas a outra parte em que me dividia estava amedrontada.
Tentei racionalizar. No entanto, permanecia o fato de que o rosto dele era tão familiar para mim. Talvez eu já o tivesse visto em alguma janta em família, sei lá.
Ao mesmo tempo, ele não parecia real.
Se eu o tocasse ele se dissolveria como vapor? Seria de carne e osso? Ou seria uma aparição?
Incapaz de me mover, eu simplesmente fiquei ali sentada, boquiaberta. Ele não era uruguaio, concluí; não gesticulava como um uruguaio. Infelizmente, com todo aquele barulho, era impossível ouvir em que idioma ele falava, mesmo estando na mesma mesa.
Talvez ele tivesse percebido meu olhar, como acontece à gente às vezes. Ele devia ter sentido, porque desviou o olhar da pessoa a quem ouvia tão atentamente. E não vagou o olhar pelo salão em busca da fonte de energia que se orientava em sua direção. Ao contrário, voltou a cabeça e olhou diretamente para mim, e apenas para mim.
Fiquei deslumbrada com o azul-prateado daqueles olhos, que cintilaram com uma espécie de surpresa. Ele franziu a testa, e cada contração muscular de seu rosto, o menor tremor revelava surpresa. Meu coração se comportava como louco. Tentei conter a respiração e não consegui, nossos olhares se cruzavam de um modo que jamais esqueci.
Ele parecia me conhecer! Ainda assim não era possível... aquele estranho não podia me conhecer.
Nossos olhares continuavam fundidos, acima da fumaça e do barulho do restaurante. Não sei o que ele via, mas de uma coisa estava certa: ele me reconhecia. "Ele realmente me conhece!", pensei, num momento de loucura - onde já não ouvia o que as pessoas em volta falavam.
Então a lucidez retornou. Comecei a tremer. Tentei olhar para o lado e não consegui. Ele voltou a prestar atenção no homem com quem conversava - parecia ser seu tio. Mas novamente seu olhar pareceu atraído para mim.
"Devo parar de olhar!", implorava a mim mesma. Talvez fosse apenas meu olhar que estivesse atraindo a atenção dele; ele apenas reagia àquela sensação de estar sendo observado.
Mas, não, era mais que isso. O olhar dele me queimava como um fogo prateado. Não sei se cheguei a sorrir. Nem ele sorriu. Ele apenas me olhava como se dissesse: "Eu quase... me lembro".
Pouco tempo depois, ele começou a se despedir de todos na nossa mesa. Disse que a janta estava agradável, mas ele ainda tinha que ir para outros lugares naquela mesma noite - talvez encontrar sua namorada. Mas garantiu que voltaria no outro dia, para o churrasco na casa de Ramiro.
Ao se levantar, parecia mais alto do que a maioria. Na penumbra do salão do restaurante, seu rosto mostrava-se incrivelmente belo. Um pouco antes de chegar à porta da rua, ele tirou um óculos do bolso da camisa e colocou-o. "Que estranho", pensei, "usar óculos escuros à noite". Aquilo me fez pensar que ele tentava proteger sua identidade, escondendo-se de alguém... ou de alguma coisa.
Depois que ele saiu, fiquei ali sentada, tentando concluir se era um sonho que havia entrado e saído da minha vida...
Discretamente, virei para o lado, e perguntei para minha vó qual o nome do homem/rapaz. Ele se chamava Pablo. Pablo Vicente. Filho de um dono de vinhedo na Argentina. O guri parece que também nasceu na Argentina e veio morar aqui no sul do Brasil com a mãe.
Enfim, pela manhã, fomos andar pelas ruas de Melo. Minha mãe queria ver o comércio da cidade.
A luz da manhã produzia um efeito revigorante, especialmente naquele país luminoso onde o sol de inverno ergue-se tão brilhante acima das casas e se reflete sobre as fontes como se espalhasse chuva de diamante. Tentei me concentrar no "passeio", para esquecer Pablo.
Minha tia e minha mãe entraram numa loja, e eu recostei a um banco de pedra com o Gustavo no colo. De olhos fechados, eu fiquei sentindo o sol bater em mim. Nunca senti tanta vontade de estar com a minha câmera numa simples viagem. Tudo era lindo.
Eu ouvia as pessoas falando em espanhol, e, no momento em que aquela cena ganhava vida em minha mente, alguma força invisível me envolveu e me fez abrir os olhos. Engasguei com o Alfajor que eu dividia com Gustavo. Ali mesmo, caminhando entre as pessoas, caminhava Pablo. Hoje, porém, ele usava um casaco.
O chão brilhava refletindo o sol em ondas de luz e calor que davam a tudo uma impressão de irrealidade. O sol uruguaio derramava-se sobre minha cabeça e ombros; o reflexo na pintura e nos cromados dos carros me ofuscava a vista.
Quase cega pela intensa luminosidade, eu quase não distinguia mais a realidade. Não era possível que eu estivesse vendo aquele homem que franzia os olhos sob a luz do sol de inverno. Pablo não era real!
Me decepcionei quando Pablo não apareceu para o churrasco do domingo à tarde. Me decepcionei mais ainda quando voltei para o Brasil sem vê-lo novamente. Pablo com certeza não existia. Era uma invenção da minha cabeça. Ou apenas um conhecido da família...

quarta-feira, setembro 09, 2009

Folhas.

O rapaz de vinte e um anos deixou escapar um suspiro profundo.
Mas ao perceber o perigo de um motim, decidiu mudar de assunto.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Sem avisar...

...E agora me encontrava em uma festa de gala em um clube esnobe, cheio de mulheres e homens que transpiravam riqueza.
A música era enfadonha, incapaz de contagiar alguém. Mas ao menos eu podia me consolar com a cerveja, enquanto observava aquelas pessoas estranhas. Os casais pareciam dançar com mais dignidade do que por entusiasmo. Mas quem poderia culpá-los? Afinal de contas, a orquestra era tão viva e animada quanto um velório!
Era interessante observar todas aquelas jóias reluzindo.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Ele quer me oferecer uma Duff.

''Ninguém sabe onde está, a não ser eu e , claro, você''.
Suponho que fosse isso mesmo o que eu queria; assim, de certa forma, tinha conseguido realizar os meus intentos.
Demos, os dois, boas risadas. Afinal, as pessoas falavam de mim e me procuravam. O momento foi maravilhoso! Mas a experiência já me ensinara que, quando são maravilhosos, eles não duram muito. No fim, iam acabar me achando mesmo, então, o que seria?!

quarta-feira, agosto 12, 2009

Enferrujada.

Pouco depois estava comigo, excitada como nunca. Ela ainda possuía a mesma idade que eu. E percebi que vestia um casaco com enormes bolsos internos, parecendo estofados com o que achei que fosse a comida que me prometera.

Nas mãos, agitava um jornal.

sábado, agosto 08, 2009

Mamadi.

Sua presença significava segurança num mundo que me ameaçava; quando me sentia perturbada, era para ela que me voltava, querendo que me explicasse o porquê disso; ela não podia, mas em compensação, me dava consolo; foi ela quem me fez tomar leite e comer arroz-doce...

The Imposters.

Sentou-se em cima da mesa, segurando os joelhos com as mãos, os olhos meio perdidos - era o jeito como ficavam quando seu rosto vincava com algo que lhe dava prazer.

Não é o bastante definir os termos.

Na parede, havia um espelho e penteei os cabelos; ao me olhar, pareceu que eu estava diferente de quando me via no espelho do meu quarto em casa. Meus olhos pareciam maiores, provavelmente pelo medo; minha face estava pálida, sem dúvida pela emoção; e meus cabelos apontavam em todas as direções. Eram cabelos grossos, duros, que não admitiam serem presos e que foram motivo de desespero de muitas babás que tiveram a desventura de cuidar de mim na infância.

Minha aparência era comum, e eu não tinha o menor prazer em olhar minha imagem no espelho.

Sergio.

Se eu lhe contasse do que sentia medo, ele iria rir de mim. Já até imaginava o seu tom de voz alto e mandão, dizendo com desdém: ''Quanta imaginação, Mariana!''
Ele não tinha escrúpulos para discutir abertamente assuntos que outros fingiam não acreditar. Talvez por isso, achasse sua companhia sensacional, se bem que algumas vezes se tornava bastante desagradável.

Auréola.

Pobre moça, com seus 16 anos (pouco mais que uma criança e ainda assim, uma mulher), amedrontada e inteiramente fascinada por aquele... hmm... selvagem.
O cabelo dele era alourado, e me fazia lembrar a juba de um leão.
Logo que o vi, o colorido de seu rosto me tomou. Ele tinha o olhar mais sedutor que já havia encontrado.
Seus olhos e cabelos pareciam ter o mesmo tom, mesmo sabendo que isso era pouco provável; mas não era por isso que se faziam notados; suponho que fosse algo na expressão, algo de indiferença, segurança e sarcasmo.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Isabelle.

Curiosamente, todos fomos afetados pela sua presença. Isabelle dava a impressão de iluminar a casa de modo sinistro e estranho, fazendo com que eu visse tudo e todos de modo diferente. Fiquei insegura com relação às pessoas e me perguntava se, afinal de contas, não estava sendo ingênua e demonstrando pouco conhecimento da vida.
Ela era tão serena que às vezes pensava ser uma serenidade mortífera. À sua volta, tudo parecia quieto. Movimentava-se sem fazer qualquer ruído. Por diversas vezes, notei que, quando entrava num quarto, era tão silenciosa que as pessoas só se davam conta de sua presença depois de levantarem os olhos e virem apanhados de surpresa por sua esfuziante beleza.
Ah, sua beleza! Ninguém podia ignorá-la. Uma beleza rara, impossível de ser negada. Feições irrepreensíveis, sem uma falha, num rosto perfeito. Sua pele era macia e luminosa. Creio que, antes de encontrar Isabelle, só uma ou duas vezes vi pele igual à dela; os cabelos eram sedosos e curtos. Tinha tudo essa mulher, exceto dinheiro.
Assim, foi inevitável; uma presença como essa acabou produzindo efeitos em todos. Ela parecia despertar certos traços de nossa personalidade que, até então, eram mantidos latentes.

quinta-feira, agosto 06, 2009

O que sobrou.

É pela manhã que melhor se pode apreciar o sol. Descobri isso quando vi dia desses o sol nascer...quando as nuvens manchadas de vermelho projetavam brilhos rosados.
Depois do medo que senti durante a noite, a manhã me pareceu mais calma, e a paisagem, também, mais encatadora após os pesadelos. Diante da janela aberta, me senti estimulada por toda aquela beleza e também pelo fato de que tinha conseguido atravessar, a salvo, a noite.
Os muros da casa, agora, começavam a mudar de cor novamente; os tons verde iam esmaecendo, passando a prateados pelo brilho do amanhecer.
Para matar o tempo, decidi explorar a casa. Era
também um jeito de me certificar de que, de fato, estava sozinha.
Entrei na sala de visitas. Me joguei naquele sofá, puxei minha coberta favorita e juntei do chão minha tigela de cereais com leite. Logo peguei o controle da televisão e parte do meu dia passei ali.

Layout.

Jéssica me cumprimentou com seu enigmático sorriso, que agora eu comparava com o de outra pessoa. Estava elegante, e naturalmente linda. Usava uma blusa azul meio arroxeada. Ela não possuía muitas blusas como esta, mas esta era de muito bom gosto. E se há uma coisa que sabia, era como tirar o máximo do efeito de suas roupas. Talvez fosse porque uma beleza como a dela fizesse qualquer roupa parecer maravilhosa. Imediatamente me senti uma graça na sua presença, e aí me ocorreu que sua intenção fosse essa mesma, a de me fazer sentir assim, com aqueles olhares impassíveis que me lançava. Movia-se com uma graça que jamais iria conseguir imitar, e todos os gestos tinham um charme natural.

terça-feira, julho 21, 2009

Melhor correr por proteção.

Não revelaria como detestava a idéia de passar o resto da noite sozinha, porque isso seria o mesmo que confessar a necessidade que a surpreendia por sua intensidade. Queria tê-lo a seu lado não só pelo alívio que seu corpo podia proporcionar, mas por algo mais. Sua presença, poder abraçá-lo... Isso era o bastante.

sábado, julho 18, 2009

Amanhã.

De qualquer forma, não estava disposta a esperar muito para tê-lo. Não podia esperar. Estava perturbada pela lembrança da boca sob a dela, do toque das mãos másculas em sua pele. Imagens do corpo sinuoso e macio a atormentavam a ponto de distraí-la, e não permitiria mais que ele se mantivesse distante.

Deixaria-se aconchegar entre aqueles braços. A noite era fria e sentia-se congelada. O calor de seu corpo másculo a envolveria, provocando uma sensação de conforto e segurança. Ele ainda não confiava nela, mas isso não parecia ter importância. Não essa noite.

quarta-feira, julho 15, 2009

Dare 4 distance.

Deixando escapar um suspiro cansado, ergui os olhos.
Os dele, tão escuros e insondáveis, emanavam calor. A mandíbula estava tensa, apertada. Sua respiração não era estável como de costume.
Sabia que também ofegava. O coração batia descompassado, num momento acelerado, no outro, ameaçando parar. Cada centímetro de pele parecia estar em brasa.
...Sentir? Sentia até demais! Meu corpo estava tomado pelas sensações que ele conseguia provocar com um simples toque, e sabia que estava a um passo de perder o controle (mais uma vez). Então seria impossível voltar atrás.

Levei um bom tempo para recuperar a partida dele. Cobrindo-me com um casaco de inverno enorme, deixei aquela esquina, sem olhar para trás. Depois fiquei parada por alguns instantes, as mãos apoiadas na madeira rústica da parede de uma velha casa.
Voltarei logo. Procure-me quando decidir o que quer, ele dissera, como se fosse certo e inquestionável que me tornaria sua amante.
Um suspiro trêmulo escapou de meu peito. Não podia negar a atração que existia entre nós. Ansiava pelos prazeres sensuais contidos nas promessas dele, mas sabia que não poderia entregar-me a tais intimidades sem comprometer o coração.

quinta-feira, julho 02, 2009

Loversloveliarslie.

Ele deu de ombros, não parecendo muito entusiasmado com o assunto de suas dores por causa da Lua, uma questão muito remota em relação àquela hora do dia para ser importante. Mas meus instintos estavam todos em estado de alerta, dizendo-me... não, avisando-me... que era, sim, importante.

sábado, junho 20, 2009

And then somebody said hello to me.

Por um lado, eu tinha certeza de ter sido a causadora de sua aparição naquela noite.
Por outro, ele apresentara um motivo lógico para ir lá: conhecera pessoas na cidade. Talvez fosse coincidência. Não, não era. O medo e a curiosidade me dividiam, mas a curiosidade era mais forte que o medo. Decidi tentar invocar a manifestação dele mais uma vez, e nessa ocasião não deixaria nada ao acaso. A experiência seguinte me daria toda a certeza de que eu necessitava.

Mesmo assim.

Febre alucinógena.
Pessoas chamando em plena escuridão, madrugada.
Suór.
Sob seis cobertas quentes e pesadas.
Levanta-se, fraqueza.
Desmaios.
Pelo caminho, o tio do churrasquinho ouve música campeira.
Lembranças da infância.
Estrada sem mato, nova paisagem.
Cigarro, Ricardo, risos.
02:21 am.

segunda-feira, maio 18, 2009

Preciso de algo mais doce.

Esta ferida um dia irá cicatrizar?!
Preciso completar a minha metamorfose, sair do casulo e viver como borboleta, viver a metástase. Com as mudanças de nossos hábitos e de nossos valores conseguiremos aproximar a alma do espírito e viver a harmonia interior. Mas como? Como posso viver sem pensar nele? 

terça-feira, maio 12, 2009

Acusações Baratas

Ela não chega a ser exatamente um monumento à beleza.
"O que é, então, que te incomoda nela?"
São tantas coisas que não sei por onde começar.
"Dê uma razão ao menos. Comece pelo que mais te incomoda".
Comecei dizendo que ela falava mais do que o solicitado (e do que o esperado) pelos circunstantes, e quase sempre num tom de voz desagradavelmente alto: o volume da voz daquela guria está dez decibéis acima do limite tolerável pela Organização Mundial de Saúde - certas vezes surpreendo com uma maldade inexcedível.
"É o tom de voz, então, que te incomoda?"
Não. É mais do que o tom de voz: é a presunção, a falta de autocrítica, a ignorância pretensiosa... A farsante consegue impressionar todos (menos a mim) com o suposto "alto nível" dela... Ela sugere nas entrelinhas que sua "cultura" (entre aspas, é claro) tem extensão e profundidade oceânicas, mas na verdade não passa de um desses riachos que a gente atravessa com água pelo joelho.
"Cruzes, que fúria contra a coitada! Tu não está exagerando?"
Ignorei este comentário. Parei um pouco e completei: também me irrita a forma como ela massacra as pessoas.
Finalmente, estava revelada a chave capaz de decifrar aquela minha fúria um pouco excessiva (confesso) contra a moça (veja, fui mais doce ao chamá-la, dessa vez).
Ela me incomodava por isso: por "massacrar" as pessoas.
Mesmo doce, sei ser quase desumana na defesa das minhas lealdades. Contra os inimigos - digo algumas vezes, - temos que esgotar o estoque de críticas justas, e depois, lançar mão das injúrias e infâmias!
É o que eu faço agora contra a rapariga (como diria minha avó): o mal dela é que ela se comporta como se tivesse 20 centímetros a mais e 20 quilos a menos.
Vou pular toda essa minha raiva e ir direto à moral da história: um saldo bancário sólido enche de ternura o coração de algumas mulheres.
Camuflei o sarcasmo com um tom judicioso como de costume.

quinta-feira, abril 30, 2009

Um capuccino, por favor.

Ontem pela manhã (passava das 8 horas), fui à padaria tomar um capuccino. Decidi ir sozinha. Sem que ninguém soubesse. Precisava de um tempo para mim.
Sentado na mesa perto da janela, um rapaz me chamou a atenção. Resolvi sentar na mesa ao lado. Ele era encantador.
A polêmica por causa da verdadeira cor dos olhos dele determinou o surgimento de três correntes que divergiam furiosamente a minha mesa. Considerava-os "obviamente verdes", ao mesmo tempo, aferrava-me à tese de que, na verdade, eram azuis (talvez um "azul-água", o que não passava de uma forma de aceitar que eram verdes); contradizendo meus pensamentos anteriores acreditei: os olhos dele eram de cor violeta, como os de Elizabeth Taylor.
Eu e meus "neurônios" ficamos minutos nessa discussão.
Hoje, no mesmo horário, eu quis aparecer lá. Com a quase certeza de que iria encontrá-lo. E adivinha quem estava sentado no mesmo lugar de ontem?! Ele mesmo. O até então misterioso rapaz. Que usava hoje um chapéu engraçado que deixou-o mais intelectual. Ele parecia ainda mais doce dessa vez. Impossível não se apaixonar! Percebi, no seu olhar que notava a minha presença e lembrava do meu rosto, já que também sentei no mesmo lugar. Porém, hoje, percebi uma coisa que ontem eu não havia reparado: ele usava uma aliança. Isso não me desanimou, aliás, eu sabia que não era o bastante para ele e não criei expectativas quanto a isso. Só queria conhecê-lo e bater um papo. O que acontecesse apartir daí, era pura e mera conseqüência.
Parecia tudo tão cinematográfico. Até agora não acredito.
Enfim... Ele fazia várias anotações com expressão absorta e preocupada, numa caderneta de couro marrom. Ao mesmo tempo, abria um livro e lia com tal atenção e interesse, que até a garçonete, quando lhe trouxe o café, cuidou para não perturbá-lo.
Qualquer idéia de uma eventual aproximação era desencorajada por uma espécie de constrangimento absoluto imposto pela concentração que ele lia ou escrevia. Quem cometeria a monstruosidade de interromper aquela concentração?
Houve a ameaça, apenas ameaça de duas ou três vezes - cheguei a elaborar planos de verdadeiras abordagens piratas a serem feitas na mesa dele -, mas, no último minuto, sempre me arrependia: surgia uma voz sensata lembrando, com muita lógica, que criaria uma situação embaraçosa. Era evidente: a aproximação seria certamente repelida pelo rapaz com encantadora cordialidade, porém combinada a uma firmeza intransponível - sempre restariam seqüelas: ele poderia até não se sentir mais à vontade para voltar ao local. Já pensou se ele me abandona totalmente? (Como se eu fosse alguém na vida dele, droga!). E aquele temor de que pudesse magoá-lo, na ânsia de tentar uma aproximação, ia me contendo.
Seu nome permaneceu ignorado. E quando eu já estava cansada de não saber, fiquei sabendo que era conhecido como "Antônio", em razão de um episódio fortuito. Uma vez, ele precisou usar o telefone e, na conversa rápida que teve, embora os meus ouvidos atentos, não foi possível captar nada ou quase nada. Consegui ouvir a primeira frase, a resposta dele, quando atenderem o telefone do outro lado da linha: "Alô, bom dia, aqui é o Antônio. Hã? Iiisso, Tavares.". Parecia seu sobrenome também, não sei ao certo.
Mas foi o suficiente para torná-lo próximo de mim. Saber como chamá-lo, já era um tesouro para alimentar a minha fantasia.
Ele lia um livro encadernado, de impenetrável capa escura, sem nenhuma palavra ou indicação na frente. O que será que ele está lendo? - me preocupava.
Seguramente era algo profundo e inquietante, pela expressão do leitor.
E o que ele escrevia naquela caderneta? Decerto um diário, anotações para algum ensaio que estava fazendo (ele tinha cara de ator), talvez um trabalho...
Ele se levantou. Certamente estava indo pagar a conta. Meu coração disparou e me senti pequena, minúscula, inútil. Foi quando ele parou e se virou. Voltou lentamente em direção à minha mesa.
Fique estática.
- Oi, tudo bem? - disse ele, revelando uma voz franca, quente e melodiosa que nunca ouvi antes, assim pronunciada diretamente.
Não conseguia falar. Estava assombrada. De perto ele aparentava ter uns 23 anos. E isso não era ruim. Ele era lindo!
- Estou me despedindo. Vou embora hoje. Não sou daqui, sou carioca, vim à trabalho. Gostei da cidade. Só achei o pessoal meio fechado. Posso fazer uma pergunta? Por que é que nesses dois dias que nos vimos, você não falou comigo? Pois eu percebi o jeito como me olhava - falou ele, incansavelmente.
Fiquei estarrecida, muda, invadida por um sofrimento indescritível. O que eu podia fazer?
- Te achei interessante. Diferente. E sabia que tu não era daqui. Não falei contigo porque tu estava concentrado na tua leitura, achei tão injusto te atrapalhar - tentei remediar, envergonhada, procurando palavras bonitas para não desapontá-lo.
- Também te achei interessante e com um brilho que nunca havia visto uma garota da sua idade - disse ele, com um sorriso.
Nessa hora, meus olhos brilharam mais ainda.
Ele olhou o relógio e fez uma expressão desolada:
- É, pena, não posso mais ficar. Meu ônibus sai às dez...
- Eu te levo até a rodoviária, pode ser? - falei com uma certa histeria, queria conversar mais com ele. Estávamos ali não havia 5 minutos.
- Melhor não - ele falou querendo me consolar.
- Tá bom. Mas... só mais uma pergunta: o que tu estava lendo? - falei com uma voz e expressão engraçada (bem conhecida por meus amigos).
- Ah, O Pequeno Príncipe e Novelas Escolhidas de Saint-Exupéry.
- E o que tu tanto anotava?
- Poemas. Eu escrevo poemas. Desculpa, mas tenho que ir. Adorei o café. Adorei o lugar. Adorei você, menina, apesar de não ter falado comigo no começo - disse como se eu já fosse uma amiga.
Ali na frente da padaria mesmo, nos despedimos. Ele me deu um beijo no rosto e disse que voltaria e que nos encontraríamos novamente. Ele me procuraria.
A sensação de que aquele momento era uma cena de filme me veio à cabeça mais uma vez.
Logo ele deu um aceno, virou-se e foi embora. Seus olhos brilhavam. Não tive dúvidas de que eram de cor violeta.

segunda-feira, abril 13, 2009

Ler é o melhor remédio.

Para buscar o conhecimento é necessário ler muito.
A leitura é o início da superação. É o atalho mais curto para conhecer melhor o nosso Eu superior.
O domínio da linguagem oral e escrita vem através da leitura. Tudo o que se lê fica guardado na memória. Não é como a informação repassada pela mídia, principalmente a televisada, que apenas passa pela mente.
Ler, ler e ler é o primeiro passo para que o ser humano consiga a superação. A leitura proporciona a expansão do imaginário, do intelecto. A pessoa consegue armazenar uma infinitude de vocábulos diferentes que vão facilitar-lhe a comunicação quando for usar a palavra como forma de persuadir uma ou várias pessoas. É a forma de trabalhar sempre no mental superior e fugir do mundo maiávico, ilusório. Por isso, não adianta falar em transformação sem leitura. É necessário, portanto, o incentivo à leitura, que está perdendo a batalha para a televisão, para o corre-corre diário, para a imagem e tantas outras formas de influência.
A criança, o jovem e o adulto, geralmente, lêem (não vou usar essa p**** de mudança ortográfica aqui, por enquanto) pouco. E como será que está o processo mental desta gente? Mais na busca do conhecimento ou navegando num mar de prazeres para o corpo físico e não para a alma? A resposta é um alerta àqueles que sabem que precisam fazer alguma coisa para reverter este quadro. Aos adultos e aos adolescentes fica mais fácil. Basta trabalhar a iniciativa, a vontade, de comprar um livro, por exemplo, agir, ou seja, lê-lo. Mas se for criança? Neste caso, o pai, a mãe, os avós ou qualquer ente da família é que devem incentivá-la. Afinal, o futuro está ou não na criança? Ela precisa ser motivada para a leitura a fim de se tornar um adolescente cheio de indagações e um adulto pronto para resolvê-las e ser feliz, para quando encarnar-se num outro ser, facilitar sua evolução, contribuindo para gerar novos conhecimentos em prol da humanidade, que busca nova identidade neste novo milênio.
Os responsáveis pela família precisam mostrar a criança a realidade do mundo externo e, ao mesmo tempo, estimular a leitura dentro de casa.
Quem não lê, pouco fala, pouco ouve e pouco vê, já dizia o ditado.
Obriga também a mudança radical dos hábitos e costumes da família. Será necessário, portanto, para este adulto, conseguir tempo para pensar e ter vontade de agir rapidamente. Percebeu? Vontade e ação novamente.
Mas... como fazer? Como mostrar para os pais a mudança? Administrar o tempo durante as vinte e quatro horas e treinamento diário para conseguir o objetivo. Esta é a resposta.
Outra coisa que poucos fazem é administrar o tempo para pensar. Apenas pensar na tua vida e em como tu tá vivendo. Pensar nos objetivos futuro e como alcançá-los.
Tempo para a leitura, para a meditação, para ouvir uma boa música (um bom Strokes e/ou Radiohead, como diria meu amigo Netto, hehe), alimento da alma.
Se o ser humano não começar a administrar as suas horas pode permanecer cego.
Também não adianta querer enxergar tudo isso e não começar a treinar para conseguir o hábito da mudança. O treinamento constante é que vai dar o hábito.

domingo, abril 12, 2009

Viagem ao mundo interior.

Deveríamos mudar atitudes, hábitos e valores para construir nossa individualidade. Sempre precisaremos repetir isto a nós mesmos. A iniciação é de dentro para fora, constituindo toda a essência do ser. Boa parte da comunidade (mundial) tem sua identidade marcada pelo consumismo e pelo modismo que os meios de comunicação sabem muito bem vender.
A comunicação da massa comprou parte do cérebro das pessoas e o aluga a quem bem entender.
A identidade pessoal sumiu.
O medo e a insegurança que paira no mundo, atrapalha e atrasa a evolução humana. A tão sonhada transformação individual inicia, impreterivelmente, por dois estágios ou etapas que devem ser compreendidas e desenvolvidas imediatamente pelo ser humano. A vontade para a tomada de iniciativa, para a mudança, e a ação ou o fazer acontecer são eles. Estas etapas são, sem dúvida, as mais difíceis de serem aceitas, entendidas e executadas no atual estágio de consciência dos seres humanos.
Mudar é agir, é buscar objetivo. Para isso é importante a iniciativa, a vontade de querer concretizar determinada ação que possa gerar benefícios para as pessoas.
Ação é movimento e necessita de um sujeito para realizá-la. Reside na pessoa e qualquer mudança deve partir dela. Enfim, a ação está intimamente ligada à vontade do agente. A transformação necessita que a pessoa desperte a vontade que, preguiçosamente (e bem, podemos dizer), se acomodou no seu interior.
O sujeito sabe que tem que agir para desencadear sua transformação interior, mas pode não ter a iniciativa de fazê-lo. Saber de tudo isso e ter que agir imediatamente, para que algo aconteça de verdade, é, talvez, o maior desafio do ser que começa a querer equilibrar-se.
Saber, eu sei, mas e agora? O que é que eu faço? Qual a luz? A luz interior tem sido ofuscada pelos holofotes do mundo exterior, com seus poderes atrativos que desviam nossa atração.
É no interior de cada um que reside a iniciativa de começar alguma mudança. A superação, o fazer, é o exercício da vontade.

segunda-feira, abril 06, 2009

Saudade.

As reminiscências do passado lhe vêm à mente como lenitivo para o momento de solidão pelo qual passa. A resposta de todas as perguntas lhe traz à memória a lembrança da sua partida. 
O tempo passa mas a saudade do teu cheiro, teu abraço, teu sorriso, tua companhia. 
Que saudade de quando você me acompanhava até em casa! 
 E para você desejo sorte! 

terça-feira, março 24, 2009

Saiba caminhar.

As lembranças do passado nada mais são do que lenitivos para amenizar as insanas doses de saudade que sentimos das pessoas que amamos ou de momentos que marcaram as nossas vidas, e que, por sinal, nunca haverão de me deixar deprimida e angustiada. Servem, na verdade, no meu íntimo, como uma força a mais para viver neste mundo conflitante e cheio de desigualdade social.
O discípulo deve buscar incansavelmente ser melhor do que o mestre (me refiro aos nossos pais ou superiores responsáveis) para que haja as transformações necessárias na humanidade. O passado nunca deve ser dor, tristeza. Deve sim, ser força. É transformar saudade em energia positiva para que possamos ganhar com as lembranças, com os momentos marcantes que nos trouxeram tristezas e alegrias.
Tenho medo do tempo. Ele está passando tão rápido que acabamos não percebendo esta dimensão e esquecemos de cumprir a missão de sermos ''semeadores do bem''. É aquela questão do ser humano não estar, atualmente, administrando o tempo como deveria e o quanto isso está prejudicando seu crescimento interior.
Enquanto não tivermos domínio de nosso tempo diário, estaremos propensos a aceitar tudo desta sociedade ambiciosa.

segunda-feira, março 23, 2009

Consciência, consequência, amor e sexo.

Precisamos equilibrar as nossas tendências negativas e as nossas tendências positivas para construirmos o novo estágio de consciência.
Este princípio é uma egrégora, espécie de nuvem de consciência, pela qual a emoção supera a razão, os prazeres e cobiças que ditam o ritmo evolutivo da nossa espécie. É deslumbrante este assunto porque faz a gente refletir sobre a nossa real missão. O importante, na realidade, é sair deste plano emocional desajustado, que está mais colado ao corpo físico do que ao espírito, e partir para a conquista da mente abstrata, inteligente. Com certeza, neste estágio mental temos lampejos de racionalidade para substituir os momentos de cobiça, de prazer, de medo e tantas outras coisas que acabam alimentando este momento emocional mal equilibrado.
É viver com a mente abstrata, com a inteligência superior, é fugir dos apelos materiais e tantos outros que fazem com que o corpo físico não cumpra sua real trajetória, que é a de agir para a mudança interior.
Estas respostas você encontrará somente dentro de você. E encontra.
O sentido da vida está dentro de nós mesmos. É o nosso sol interior que deve emitir a luz para as outras pessoas.
Alcançar a mente abstrata é tarefa muito difícil e até arriscaria dizer impossível de ser atingido por milhões de pessoas que ignoram esse conhecimento.
Fui considerada incompreendida, louca até, para as pessoas que não me conhecem diretamente.
Devemos soltar o que temos dentro de nós para atingirmos outros planos.
O que move, muitas vezes, as pessoas para situações obscuras, na vida é a falta de entendimento das questões que envolvem, desde os primórdios, a sexualidade humana. Não estou falando dos milhares de seres vivos do nosso planeta que têm o sexo exclusivamente como meio de continuidade da espécie, nem das pessoas que praticam sexo apenas por prazer.
Busca-se alucinadamente a alma gêmea. Na realidade, raras pessoas encontram de verdade sua contra-parte ou o seu gêmio espiritual. A própria expressão ''alma gêmea'' diz tudo. O sexo não deve ser apenas físico. Deve ser alma também. O verdadeiro amor, é o amor de alma, tendo no físico o complemento da tripla harmonia. É procurar encontrar, dentro do outro, aquilo que se busca para si mesmo, como fazendo parte da sua própria essência, antes de se entregar à volúpia da atração e beleza física.