Gosto do jeito como me apaixono por estranhos. Do modo como eles me chamam atenção, me fazem sentir borboletas no estômago e na outra semana, são apenas boas lembranças. E mais do que isso, acho merecedor escrever sobre eles aqui, por isso, aí vai mais um conto de fim de semana.
Pelos padrões do Uruguai, ainda era cedo; às onze horas da noite o horário da janta estava apenas iniciando. Eu comecei a sentir fome e ia me inclinando sobre o braço do meu primo para pedir comida, quando algo me chamou atenção no centro do salão. O olhar de um homem fez minha respiração se acelerar... de um modo que quase doeu. Foi como uma pontada seguida de dor, que começou em minha garganta e se aprofundou por meu corpo através do peito, direto ao coração.
Olhei, e continuei olhando. Algumas coisas nele me encantaram... Como os cabelos escuros; ombros largos; uma expressão corporal que me puxava; a maneira como se inclinava para a frente, atento, balançando a cabeça de certo modo para ouvir o que o homem a sua frente estava dizendo; o modo como franzia a testa e curvava a boca num discreto sorriso que dizia que mal conseguia ouvir, mas que continuava tentando. Cada gesto, cada olhar, parecia-me extremamente familiar. Ele não era um estranho.
Deviam ter passado alguns segundos antes que eu percebesse as roupas que ele estava usando, e quando o fiz a estranha sensação se abateu sobre mim outra vez. Meu coração disparava e parava, disparava e parava, como se não soubesse o que fazer, assim como minha cabeça.
Calça jeans, camisa branca e um colete de couro muito caro e folgado, com um bolso de cada lado. Ele também usava um lenço, meio cinza, meio lilás. Fazia muito frio naquela noite, todos usavam roupas quentes e casacos pesados, mas ele não parecia incomodar-se ao usar somente aquela roupa.
Fiquei dividida. Parte de mim, a parte que vive entre imagens e devaneios, queria se levantar da cadeira e ir até o outro lado da mesa e dizer: "Oi!", quase aceitando o fato que aquilo realmente acontecia diante de meus olhos. Mas a outra parte em que me dividia estava amedrontada.
Tentei racionalizar. No entanto, permanecia o fato de que o rosto dele era tão familiar para mim. Talvez eu já o tivesse visto em alguma janta em família, sei lá.
Ao mesmo tempo, ele não parecia real.
Se eu o tocasse ele se dissolveria como vapor? Seria de carne e osso? Ou seria uma aparição?
Incapaz de me mover, eu simplesmente fiquei ali sentada, boquiaberta. Ele não era uruguaio, concluí; não gesticulava como um uruguaio. Infelizmente, com todo aquele barulho, era impossível ouvir em que idioma ele falava, mesmo estando na mesma mesa.
Talvez ele tivesse percebido meu olhar, como acontece à gente às vezes. Ele devia ter sentido, porque desviou o olhar da pessoa a quem ouvia tão atentamente. E não vagou o olhar pelo salão em busca da fonte de energia que se orientava em sua direção. Ao contrário, voltou a cabeça e olhou diretamente para mim, e apenas para mim.
Fiquei deslumbrada com o azul-prateado daqueles olhos, que cintilaram com uma espécie de surpresa. Ele franziu a testa, e cada contração muscular de seu rosto, o menor tremor revelava surpresa. Meu coração se comportava como louco. Tentei conter a respiração e não consegui, nossos olhares se cruzavam de um modo que jamais esqueci.
Ele parecia me conhecer! Ainda assim não era possível... aquele estranho não podia me conhecer.
Nossos olhares continuavam fundidos, acima da fumaça e do barulho do restaurante. Não sei o que ele via, mas de uma coisa estava certa: ele me reconhecia. "Ele realmente me conhece!", pensei, num momento de loucura - onde já não ouvia o que as pessoas em volta falavam.
Então a lucidez retornou. Comecei a tremer. Tentei olhar para o lado e não consegui. Ele voltou a prestar atenção no homem com quem conversava - parecia ser seu tio. Mas novamente seu olhar pareceu atraído para mim.
"Devo parar de olhar!", implorava a mim mesma. Talvez fosse apenas meu olhar que estivesse atraindo a atenção dele; ele apenas reagia àquela sensação de estar sendo observado.
Mas, não, era mais que isso. O olhar dele me queimava como um fogo prateado. Não sei se cheguei a sorrir. Nem ele sorriu. Ele apenas me olhava como se dissesse: "Eu quase... me lembro".
Pouco tempo depois, ele começou a se despedir de todos na nossa mesa. Disse que a janta estava agradável, mas ele ainda tinha que ir para outros lugares naquela mesma noite - talvez encontrar sua namorada. Mas garantiu que voltaria no outro dia, para o churrasco na casa de Ramiro.
Ao se levantar, parecia mais alto do que a maioria. Na penumbra do salão do restaurante, seu rosto mostrava-se incrivelmente belo. Um pouco antes de chegar à porta da rua, ele tirou um óculos do bolso da camisa e colocou-o. "Que estranho", pensei, "usar óculos escuros à noite". Aquilo me fez pensar que ele tentava proteger sua identidade, escondendo-se de alguém... ou de alguma coisa.
Depois que ele saiu, fiquei ali sentada, tentando concluir se era um sonho que havia entrado e saído da minha vida...
Discretamente, virei para o lado, e perguntei para minha vó qual o nome do homem/rapaz. Ele se chamava Pablo. Pablo Vicente. Filho de um dono de vinhedo na Argentina. O guri parece que também nasceu na Argentina e veio morar aqui no sul do Brasil com a mãe.
Enfim, pela manhã, fomos andar pelas ruas de Melo. Minha mãe queria ver o comércio da cidade.
A luz da manhã produzia um efeito revigorante, especialmente naquele país luminoso onde o sol de inverno ergue-se tão brilhante acima das casas e se reflete sobre as fontes como se espalhasse chuva de diamante. Tentei me concentrar no "passeio", para esquecer Pablo.
Minha tia e minha mãe entraram numa loja, e eu recostei a um banco de pedra com o Gustavo no colo. De olhos fechados, eu fiquei sentindo o sol bater em mim. Nunca senti tanta vontade de estar com a minha câmera numa simples viagem. Tudo era lindo.
Eu ouvia as pessoas falando em espanhol, e, no momento em que aquela cena ganhava vida em minha mente, alguma força invisível me envolveu e me fez abrir os olhos. Engasguei com o Alfajor que eu dividia com Gustavo. Ali mesmo, caminhando entre as pessoas, caminhava Pablo. Hoje, porém, ele usava um casaco.
O chão brilhava refletindo o sol em ondas de luz e calor que davam a tudo uma impressão de irrealidade. O sol uruguaio derramava-se sobre minha cabeça e ombros; o reflexo na pintura e nos cromados dos carros me ofuscava a vista.
Quase cega pela intensa luminosidade, eu quase não distinguia mais a realidade. Não era possível que eu estivesse vendo aquele homem que franzia os olhos sob a luz do sol de inverno. Pablo não era real!
Me decepcionei quando Pablo não apareceu para o churrasco do domingo à tarde. Me decepcionei mais ainda quando voltei para o Brasil sem vê-lo novamente. Pablo com certeza não existia. Era uma invenção da minha cabeça. Ou apenas um conhecido da família...
Papo rápido no uatizape.
Há 3 semanas