terça-feira, dezembro 21, 2010

O eclipse.

Um espamo quase silencioso...
O mundo derretia lá fora. Vinte e quatro horas é o tempo máximo que ela consegue ficar longe dele, sem reclamar.
A semana parece interminável. As noites impossíveis de aturar.
Em todos os rostos, vidros e lugares...
Sua boca treme. Seu coração dispara.
Aquele céu azul. Aquela saudade apertando.
Com grande inquietação, as frases abafadas.
Após uma grande coleção de minutos, horas e dias, não restava mais nada para acontecer.
Ela morria de saudade daquilo - da segurança, da familiaridade, do cheiro do amor -, mas não conseguia se mexer. Pelo menos até a sexta-feira chegar.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Hoje o amor bateu à minha porta.

Ele era lindo, ofegante e suava.
Seus olhos não desgrudavam dos meus. E seu sorriso me cegava.
Tão figurante visão.
Ele me abraçou e nossos corações eram um só.
Sua voz estava embargada.
Era choro. De saudade.
Ele sabe onde guardo meu prazer.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Meu corpo segue essa sensação.

Um encontro casual e eterno. 
Seus olhos verdes (para mim sempre serão azuis) saltavam sobre os meus. Eu perdi a respiração e só soube dizer que não houve nada.
A partir daquele dia seus grandes verdes olhos me perseguem e eu os vejo em todos os olhos, seu rosto sorri em outros rostos...
Ele, certamente, é um anjo - (às vezes mau) - porque se multiplica em mim e derrama em todo meu corpo - (às vezes bom) - quando penetra sorrateiro em meu quarto e preenche meus sonhos.
Ele vive em mim. É uma outra perna que adquiri, ou o travesseiro que faltava. Tornou-se uma obsessão. Corre em meu sangue. Acorda comigo e não se separa mais. Toma o café da manhã, almoça, janta comigo e é o principal artista de meus sonhos.
A imagem dele me transborda e flui em todos os poros. Reflete nos óculos, nos espelhos, nos vidros, na garrafa de cerveja. Me inunda com a sua presença, com seus olhos, pêlos e cabelos. Me suga, me surra, me incomoda.
O sono veio tarde. Delirei. 

quarta-feira, novembro 03, 2010

Havia 15 pessoas me dizendo para eu mudar.

De amor não sei. Ninguém sabe. Esse é amor que fica no corpo, coçando. Há outros amores, diferentes, que pegam a gente no descuido. Depois, só muito depois, que se percebe.

Alfredo continua à espera. Verônica também espera uma oportunidade de ter Alfredo. Mas Alfredo gosta de ambientes mal-cheirosos e escuros.
Alfredo aparenta asco. É repugnante. Repugnante? Todos temem o Alfredo. As mulheres, principalmente.
Espera. Esperamos.
Alfredo é ranzinza e gosta de queijo. 

Não sei por que a gente fica querendo contar essas coisas que ficaram na retina. Que calaram e calam por dentro. E doem, doem, doem.
Embora os tijolos estejam caindo e as estruturas já abaladas, continuamos esperando que ela não venha. Há esperanças remotas. Ela é muito atraente. Tem botões e brilha intensamente.
Naquela tarde ele esperava...

quarta-feira, outubro 27, 2010

As atrizes.

Renata recebeu a visita de Augusto e a noite deles foi maravilhosa.
Ela tem dificuldade para dormir.
O sexo foi delicioso, a conversa excelente, muitas risadas e, no fim, ele insinuou que queria dormir com ela.
Passou a noite observando o homem como um bebê a seu lado enquanto não conseguia dormir.
6:56 da manhã.
Já andou na praia, comprou jornal, passou na padaria e também já comprou frutas.
Tomou um banho gostoso.
A casa está com cheiro de café e o sol entrando pelas frestas da cortina.
O som toca uma música baixinho.
Tem gente que não dorme e fica de mal humor, mas ela... ela se sente melancólica.
Quer colo. Quer carinho. Que nada...ela vai voltar ao quarto e aproveitar aquele homem!

segunda-feira, outubro 18, 2010

E por falar em saudade...

Não podia imaginar que minha vida só então começava. 
Estava, embora não o soubesse, para encontrar o homem cuja influência haveria de moldar e modelar toda a minha vida. 
Lembrava-me bem quando vira aquela figura de olhos claros (eram verdes, mas insistia em dizer que eram azuis) sentada à minha frente.
Desde então tem sido meu maior amigo, tendo influenciado profundamente minha vida.
O modelo de homem, que não parece mais florescer nestes tempos de decadência.
Para a parte mais laboriosa do processo, terei comigo meu inestimável P.H.
Mon enfant, mon cher, mon vieux, mon amour...
Sem ele, me sinto insuportavelmente só.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Te confesso que...

Tua voz me faz estremecer; tu me surpreende mesmo quando diz o que eu espero.
Adoro te olhar enquanto dorme com o sol batendo em teu rosto.
Teu abraço intenso, o jeito como fala comigo, o sorriso no olhar me aquecem.
Tuas mãos me transmitem a quantidade exata de proteção que eu preciso. 
Às vezes, te beijo apenas pelo olhar, como se isso pudesse tornar tudo mais real.
Toda semana, quando me despeço de ti, sinto teu cheiro em mim, no meu corpo, nos meus lençóis...
Não sei quanto tempo tudo isso vai durar, então, agora, eu só desejo.
Desejo que ao te beijar meu coração revele o que ainda é silêncio; que ao me tocar sinta a força da minha entrega.
Desejo que continue a me alentar com tuas palavras fortes; que deixe-me saborear em tua testa franzida as dúvidas que lhe provoco; que prolongue o deleite que sinto quando mostra teu jeito homem; que mantenha as palavras lascivas subentendidas ou diga aos meus olhos com tua respiração; que deite em mim tua fome e devore meus suspiros com os teus; que tome meu corpo nesse êxtase de volúpia carnal. 
Desejo que me ame. Como eu te amo.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Ele tem a chave para chegar ao seu coração.

Depois da melancolia que a acompanhou por boa parte do dia, precisava sair, dar uma volta. Foi tranqüila meio que sem rumo.

Passando por uma praça, viu um senhor atravessando de mãos dadas com uma senhorinha muito vaidosa: usava pérolas e uma blusa de linha com fitinhas.
O senhor chegou a parar o trânsito da rua para que sua esposa atravessasse com toda calma. E ao final da travessia recebeu um sorriso. Deram as mãos e se foram.
Ela achou o casal lindo. Se emocionou.

Chegou à praia e decidiu tomar um suco de laranja, molhou os pés e ficou sentada na areia pensando em tudo que estava sufocando-a. Logo, ela chorou, mas aos poucos foi como se evaziasse o que pesava em sua alma.
Decidiu entrar na água de roupa e tudo e, depois de guardar o que não podia molhar, ficou somente com a chave do carro nas mãos. Começou chutando a água, mas logo estava pulando e mergulhando. Ficou por um tempo nesse transe na praia vazia vendo o céu meio azul nublado, a areia, toda aquela água, o vento... E a sensação de liberdade.

Voltou para casa, tomou um banho e lembrou-se do casal de idosos que viu. Não são todos que têm a oportunidade de conviver com uma pessoa carinhosa e dedicada.
Ela teve por anos a oportunidade de aprender muitas lições de vida e amor sincero pelas pessoas. Um exemplo sólido da capacidade de transformação que o amor verdadeiro é capaz de causar. Se deu conta de que não deveria lembrar com tanta tristeza, mas sim com uma saudade nostálgica que esquenta o coração, com carinho e ternura pelas oportunidades que teve de compartilhar.
As boas lembranças são carregadas em nosso coração e isso está tão dentro de nós que nada é capaz de mudar. Portanto, não importa aonde vá, ele estará sempre com ela e prefere vê-la sorrindo ao pensar em vê-la chorando sem seu abraço terno para consolar.
Ela jamais esquecerá, em sua vida, do brilho dos olhos desse menino.
E chega de choro.

sábado, setembro 04, 2010

Os dias que estão nos jornais (antigos).

- Aí, mano! Eu bebo todo dia, tá ligado?
- Fumo pra cacete, mano, durmo sempre aqui em frente à vendinha.
- Já vi de tudo aqui, coisa que até o diabo duvida, mano, tá ligado?
- Sobrevivo comendo coisas que ganho, mano, e até reviro os lixo, é mó treta com os cachorro, tá ligado?
- Já fui esfaqueado duas vezes, mano; uma pelo Negão e a última foi pelo Boca, uns moleques folgado da porra.
- E agora tu pensa: tudo isso e eu ainda tô vivo, mano. Agora uma pá de maluco que comia bem pra caralho já foi embora, é só pensar, o Senna, o PC Farias, o Leandro, aquele da dupla sertaneja, tá ligado? Então num é embaçado, mano?
- Aí, eu vou sair fora agora, vai ter um sapeco lá no Saldanha, e hoje eu vou comer que nem um cachorro, falou, depois a gente se cruza.
...
- Falou, cara. Depois a gente se tromba.

terça-feira, agosto 31, 2010

Atividade Experimental.

01:26, hora da nostalgia.
We could steal time, just for one day. We can be heroes, for ever and ever. What d'you say?
Tudo que ela consegue é chorar. De saudade.

O amigo que ela sempre quis ter: gostos e pensamentos parecidos, que saía no meio da tarde sem rumo e acabava bebendo uma cervejinha antes da aula com ela...
Ele era assim. O melhor amigo que ela já pode ter. Que a ouvia como ninguém.
Ele era assim. Como ela imaginava. Até mesmo com as briguinhas idiotas.
Space Oddity e os passeios nas tardes nubladas da cidade pacata.

Férias. Cerveja quente. Praia. Amigos. Música. Tédio. Bobiças. Diversão. E nada mais importava.

This is ground control to Major Tom, you've really made the grade.
Mordidas. Choro. Abraços.
E sempre a sensação de estar segura.

Can you hear me, Major Tom?

Agora ela se sente tão sozinha; olha para seu mural e vê as fotos, as cartas e os recortes e chora. Na verdade, ela não sabe se é um choro de felicidade, por lembrar tudo que passaram ou se é de tristeza, por saber que esses momentos nunca voltarão.

Came on so loaded man, well hung and snow white tan.

Ai, Caínho...

Became the special man.

terça-feira, agosto 24, 2010

Vinheta.

Como não haveria de lembrar-se da própria infância decorrida naquela mesma cidade, mas numa atmosfera completamente diversa? Do entusiasmo fácil, da espontaneidade autêntica, do idealismo ingênuo de seus companheiros de então.

terça-feira, agosto 03, 2010

Posso atingir seus pensamentos?

Ela ainda coleciona canecas. E gosta de tons pastéis. Ela ainda é tímida e tão linda!
Nas quintas-feiras ela gosta de beber uma cerveja especial, na sua caneca também especial.

Ele ainda coleciona carrinhos. Seu quarto ainda é temático. Ele é muito tímido e charmoso. E sua boca... ah... sua boca... é fascinante!
Nas sextas-feiras ele gosta de beber cerveja.

Eles não se conheciam. Até agora.

Ela tinha um bar favorito. Na sua bolsa havia uma cartela de paracetamol. Ela gosta de beber com uísque ou licor. Se sente flutuando. E a faz esquecer os problemas - mulheres também têm problemas.
Há quem diga que ela é uma viciada. Mas ela sabe que não é.

Ele estuda sobre vampiros. E sobre fatos históricos.

Ela procura um emprego e tenta decidir seu futuro.

Numa noite fria dessas de renguear cusco, eles se encontraram. Foi épico. Ele já a conhecia de vista e em segredo, a desenhava em seu velho caderno.
Ela sempre foi mimada e fútil.
Ele sabia disso, mas perto dele, ela parecia ser muito mais interessante. Inclusive ela sabia ser divertida.

Um beijo acabou acontecendo em meio às histórias. Quem tomou a iniciativa? Ela, é claro!
Depois desse beijo, não se desgrudaram mais. E é no colo dele que ela se alivia. É com ele que ela se sente REALMENTE bem.
Brigas? Pra quê? Cicatrizes? Choro! Amor. Amor. Amor.

Agora faz frio. E ela não sabe mais como é dormir sozinha.

quinta-feira, julho 29, 2010

Com uma pulga entre dois dedos.

A porta de aço descida quase embaixo e a cara amarfanhada de todos os desânimos, João contava a magra féria no boteco. A situação começava a ficar difícil desde a cirurgia da mulher, quando ficaria alguns dias sem os salgados. Sua recuperação se complicou, e ele teve de cortar os fiados e tentar receber dos fregueses que lhe deviam. Precisava muito do dinheiro. Não compreenderam. Poucos pagaram. A maioria tratou de sumir. Tinha gente, antes tão amiga, que deslizava do outro lado da rua e nem olhava na sua direção.
Parara de vender maço de cigarro; cigarro só picado. As prateleiras, desfalcadas. Acabou comprando cerveja de segunda mão. A mulher custou a se restabelecer, mas, com as vendas curtas e a fuga da freguesia, deixara de fazer os salgadinhos de todos os dias. O boteco, antes tão bem sortido de tira-gosto, bebidas e algumas latarias, agora era a imagem da decadência. Sobrevivia praticamente na base da cachaça ruim.
Desesperançado, João guardou as notas no bolso e deixou alguns trocados na gaveta. Ia apagar a luz e passar por baixo da porta de aço quando ouviu um carro parando. Pelo barulho podia ser uma caminhonete. Passos se aproximaram, e uma voz lá de fora perguntou se dava para pegar um maço de cigarro.
- Meu cigarro acabou.
- E cerveja?
Sim, tinha umas cinco garrafas na geladeira. Fizera bem em não ter ido dormir. João suspendeu a porta e sorriu para três homens: um branco, um preto corpulento e um jovem mulato.
- Boa noite - disse o branco educadamente. Era a mesma voz que ouvira do lado de fora. - Nós queríamos tomar uma cerveja - continuou o branco. - Mas parece que o senhor estava fechando.
- Podem entrar - apressou-se João. Achei que não vinha mais ninguém.
- Quem sabe.
- Oh, não. - João afastou-se para que os três entrassem. - Vou passar um pano na mesinha.
- Não precisa - tornou o branco. Encaminharam-se para o balcão. - Que tal uma cachacinha? - O mulato e o preto concordaram. - Então uma cerveja e três cachaças.
João trouxe, solícito, as bebidas e os copos, procurando não olhar para a cara séria do preto, onde havia uma cicatriz vermelha, longa e saliente. Postou-se à meia distância, de forma a deixá-los à vontade mas pronto para atendê-los. Tentou adivinhar a profissão deles. Pareciam sem vestígio de graxa. Pelo jeito já haviam bebido alguma coisa. Bobagem, pensou João. E notou que o branco, de cabelo farto e cor de fogo, embora fosse baixo e magro, devia mandar no mulato - um rapaz alto, de cara lisa - e no preto, atarracado, os braços musculosos. Só o branco sorria. Viraram primeiro a cachaça.
- O que há para comer? - perguntou o mulato, olhando para a vitrine, onde havia apenas um prato com meia dúzia de bolinhos de queijo.
- Traz os bolinhios - decidiu o branco. - E traz a garrafa de cachaça.
João pegou a cachaça para serví-los e ia dizer que esquecera de recolher os bolinhos, pois eles estavam começando a endurecer, quando o branco ordenou.
- Deixe a garrafa.
- E os bolinhos? - lembrou o mulato.
- Vocês viram o salame? - propôs João.
- Salame ou bolinhos? - o branco dirigiu-se aos dois.
- Prefiro os bolinhos - disse o mulato, mostrando os dentes perfeitos, como se estivesse rindo de outra coisa.
Observavam João apanhar o prato na vitrine e o paliteiro. O preto ficou olhando o mulato espetar o bolinho de queijo. Deu uma mastigada e cuspiu tudo no chão.
- É de ontem - justificou-se João. -, mas não estão estragados.
O mulato virou o cálice de cachaça de uma vez.
- Tudo bem, meu irmão - disse o branco. - Pode levar o prato com os bolinhos.
- Se os senhores quiserem...
- Leve os bolinhos - cortou o mulato. - Vai o salame?
João ficou esperando a aprovação dos outros dois, principalmente do branco, pois o preto, até o momento, não dissera nada, e além da cicatriz do rosto dava a impressão de que estava noutro lugar.
- É uma boa ideia - concordou o branco.
João levou os bolos de queijo e pegou a bexiga de salame dependurada na prateleira. Trouxe também a faca e uma velha tábua.
- Mais grosso - recomendou o branco.
João cortou mais três pedaços e aguardou que cada um tirasse o seu. O mulato mostrou os dentes.
- E a pele?
- Com pele é melhor - o branco riu mais e pegou um dos três pedaços. Os outros dois fizeram o mesmo. João prestou atenção nos três comerem, como se esperasse que eles dissessem alguma coisa.
- Corta mais - falou o branco -, mas antes traz outra cerveja.
João trouxe uma nova garrafa e cortou mais três fatias.
- Pode cortar tudo - tornou o branco. - E traz uns palitinhos.
O jovem mulato entornou a cachaça nos cálices vazios, e os três observaram João com a faca afiada acabar com a bexiga.
João ficou um momento indeciso. Sabia que o pão também era de véspera e devia estar murcho no saco de pano.
- O pão - cobrou o branco.
Cada um fez seu sanduíche com um naco de salame. João dirigiu-se à pia e lavou os copos sujos. De vez em quando, olhava para eles discretamente, desviava logo a vista para não ver a cicatriz no rosto do preto. Entre uma bocada e outra, davam uma bicada na pinga, que já estava bem abaixo da metade. João fechou a torneira, enxugou as mãos na calça. Pensou em recolher uma garrafa de cerveja vazia, desistiu. Os três comiam e bebiam em silêncio. Devia ser quase uma da manhã. À medida que os observava, João não conseguia atinar com a profissão deles. Os três eram bastante diferentes, sem nada em comum, a não ser o hábito de beber. A garrafa de cachaça estava quase no fim. Não tinham pressa.
- Algum problema?
João sorriu constrangido para o mulato e, antes que abrisse a boca, o branco pediu mais uma cerveja.
- Escuta aqui - tornou o mulato de dentes fácies, depois que João serviu a bebida. - Como é que chama este lugar?
- O bar?
- Não, o bairro.
- Primeiro de Maio.
- Interessante: Primeiro de Maio.
- É o nome do bairro.
- Pelo jeito - observou o branco, olhando as prateleiras vazias -, o negócio não está indo bem.
O rosto de João ficou mais amarfanhado.
- Quem sabe eu estou enganado? - acrescentou o branco.
- Dá para ir vivendo - disse João, modestamente.
- Quanto você costuma fazer?
- Varia muito.
- Um dia pelo outro?
- Uns nove mil. Às vezes um pouco mais, conforme o mês.
- E hoje?
- Hoje foi um dia ruim. Uns seis mil, sem contar essa despesa.
João notou que a bebida tinha chegado ao fim, o prato limpo. O branco fez um sinal para o preto, e este se afastou do grupo. Sentiu um calafrio na espinha quando a porta de aço foi abaixada.
- Não perca a esportiva - aconselhou o branco.
João empalideceu de uma vez e pegou a faca de cortar salame. O mulato tirou calmamente o revólver do bolso de trás.
- Por favor, fique calmo. Nada de bobagem - recomendou o branco. - Largue a faca e está tudo bem. Isso mesmo, largue a faca. Ninguém vai dar tiro à toa.
Assustado e trêmulo, João achou mais prudente deixar a faca em cima da tábua. Não parava de olhar para o revólver na mão do jovem mulato.
- Isso mesmo - disse o branco, com um sorriso calmo. - O dinheiro está na gaveta ou no seu bolso?
João tentou correr para o fundo do bar, onde havia o banheiro. O preto cercou-o do outro lado do balcão. Um soco no meio da cara deixou João esparramado no chão.
- Eu falei para o senhor ficar bonzinho - observou o branco, aproximando-se. - Aí no chão está bom. Fica aí, enquanto nós fazemos o nosso trabalho.
Sangrando no nariz e na boca, João quis levantar-se. O preto colocou o pé em cima do seu pescoço, pressionando-o não mais do que o suficiente para que ele compreendesse que convinha ficar quieto.
O branco abaixou-se para tirar o dinheiro do seu bolso. Não viu o mulato abrir a gaveta e pegar algumas garrafas na prateleira.
- Acho que não tem mais nada - disse.
O branco olhou em torno, com sua cara boa. É, realmente não havia mais nada - um boteco da pior categoria.
- Gostei da faca - disse o preto pela primeira vez, sem tirar o pé do pescoço de João. Sua voz era rouca, difícil.
- Acho que é tudo, - disse o branco.
- E o que é que fizemos com ele? - perguntou o mulato.
Com o pé apertando o pescoço e os olhos esbugalhados na cara ensanguentada, João ficou esperando a decisão do homem branco.

quinta-feira, julho 22, 2010

Ele voltará.

O rio serpenteava por entre salgueiros, que se inclinavam graciosamente, como que querendo beijar as águas que corriam suaves e tranquilas.
Brotavam florinhas agrestes e erguiam-se árvores copadas, em cujos galhos os pássaros orquestravam festivamente.
Na margem esquerda do rio, situava-se o bairro mais calmo. Casas branquinhas com telhados vermelhos, escondendo-se entre o verde das árvores.
Na margem direita, via-se o bairro dos pescadores, onde as moradias apresentavam o aspecto de um mosaico de várias cores: alaranjado, verde, azul, amarelo.
Havia um hotel para turistas e um bazar onde se vendiam souvenirs.
As pescarias eram cheias de vida e de encanto. Todos os pescadores sentiam-se felizes na sua profissão. Eram filhos de pescadores, cujos pais, avós, bisavós também haviam sido pescadores. No rio havia muito peixe e, no coração, muito entusiamo.
Uma vila pitoresca. Uma vila romântica.
Tarde dourada. Reflexos do sol poente espelhavam-se nas águas do rio. Os pescadores, cantando, recolhiam as redes que haviam posto a secar. Os barcos balançavam-se ao vento.
Dona Elvira, tendo acabado de preparar o jantar, colocou, após o banho, um vestido estampado leve e singelo. Uma criaturinha frágil. Seus olhos pareciam um pedacinho de um céu bem azul. Cabelos pretos contrastavam com sua pele pálida e aveludada.
Os meninos, muito bem lavados, cabelos ainda molhados pela água do chuveiro, esperavam o pai chegar do trabalho.
Aquele momento da chegada do marido era sempre agradável para Elvira. Abriu a janela e ficou a olhar para a rua.
Entre as pessoas, apareceu a figura esperada. Caminhava apressadamente, ansioso para chegar em casa. Como sempre, carregava um embrulho, uma surpresa para os filhos e uma rosa para a esposa. Chegando, beijou-a ternamente e beijou as crianças com a mesma ternura.
O Sr. Henrique era uma pessoa simpática e bonita: alto, moreno, olhos grandes e expressivos, sobrancelhas cerradas. Caráter firme e inabalável, ao lado de uma serenidade fora do comum. Tinha uma maneira discreta de sorrir; nunca dava uma gargalhada.
Dona Elvira arrumava a mesa para o jantar, enfeitando-a com a flor que lhe trouxera o marido e enquanto as crianças abriam o pacote de doces cristalizados trazido pelo pai.

Era domingo. Dia de folga pra o sr. Henrique. Enquando saboreavam a gostosa torta de frango, seu filho mais velho, encantando, exclamou:
- O que a mãe faz é tão bom!
- Amor, não somente os seus filhos apreciam o que você faz. Seu marido também adora sua comida, seus doces e suas quitandas.
- Obrigada a vocês por tantos elogios.
Era sempre assim. Dona Elvira preparava pequenas delicadezas para eles. Tudo aquilo era uma festa. Tudo aquilo era carinho. Tudo aquilo contava pontos para a felicidade do lar.

terça-feira, julho 20, 2010

O último porre de Horácio.

Tropeçando nas pernas e babando, Horácio encontrou ao lado do fogão apenas o filho de sete meses dentro de um caixote. Gritou o nome da mulher, deu uma olhada no quarto, no quintal, vomitou, lavou a cara no tanque, voltou para a cozinha. Sentou-se e, com a boca mole de bêbado, ficou olhando o menino dentro do caixote.
- Que o diabo a carregue.
Não compreendia por que deixara o menino sozinho e estranhou que ele estivesse quieto, dormindo. Inclinou-se com dificuldade na direção do caixote e viu a carinha toda inchada. Devia ter chorado horas a fio.
Horácio levantou-se, passando a mão na barba. As panelas em cima do fogão estavam sujas e vazias. A garrafa de cachaça sumira na prateleira. Sentou-se novamente e ficou coçando o pixaim cheio de serragem. A mulher devia estar na casa da sogra.
- Que apodreça lá.
Horácio foi para a cama e adormeceu logo. Mesmo com o choro do menino, custou a acordar. Depois esperou um bocado para ver se ele parava. Levantou-se amarrotado e enfiou o bico na boca do menino. Mas o danadinho cuspia o bico e continuava chorando. Fome, com certeza. Horácio não encontrou leite, nada de comer.
Deixou o menino chorando no caixote e foi comprar alguma coisa no Seu Pedro. Pediu uma birita no balcão e um pedaço de queijo para o menino. O vizinho Zé Gamela, um tanto chumbado, ofereceu-lhe um copo de cerveja. Horácio falou que o menino estava sozinho, mas aceitou e retribuiu a gentileza com duas doses de Tonturinha e uma de 51.
No meio do papo, disse para Zé Gamela que a mulher tinha saído de casa. O outro comentou que era melhor. Mais duas cachaças. Depois perguntou pelo menino e ficou surpreso ao saber que ela o deixara para trás.
- Num levou ele mesmo, não?
- Deixou ele pra mim.
Os dois riam. Aos poucos, Horácio foi fazendo uma cara de idiota. Tinha ido ao boteco comprar alguma coisa para o menino. Ele estava sozinho no caixote, chorando. Engoliram mais duas pingas rápidas.
- Até logo. - Horácio saiu trôpego pela rua descalça.
Achou o menino chorando do mesmo jeito. Pegou-o dentro do caixote, desajeitadamente, e tentou fazer com que ele chupasse um pedaço de queijo. Horácio permaneceu adernado de um lado para outro, no meio do cômodo, com o menino engoelando no seu colo.
Sem saber o que fazer, deitou com o menino na cama, e, apesar do choro no ouvido, dormiu imediatamente. Um sono agitado. Revirara inquieto na cama, enquanto o menino chorava cada vez com mais empenho.
Teve uma hora em que Horácio pegou o travesseiro da mulher e pôs em cima da cara do menino e o manteve ali até que o choro terminasse, e apenas o seu ronco bêbado ocupasse todo o cômodo.

Assim ficou melhor para todo mundo.

Um mulato enxuto fazia a linha de ônibus do bairro. Tinha o cabelo de brilhantina, bigodinho, um dente de ouro e lábios rasgados. Simpatizava com ele. Sentava sempre na frente. Volta e meia virava e sorria pra mim com seu bigodinho e ria com seu dente de ouro. Às vezes eu ia até o ponto final. Comprava pra mim um pacote de bala, me contou que era casado, tinha três filhos. A menina mais velha combinava com minha idade.
Um dia ele largou o serviço mais cedo, tava quase escurecendo, e foi andando na frente e eu atrás. Só falou a hora que ia sair da garagem. E eu tava lá esperando. Olhou pra mim com aquela boca rasgada e o bigodinho fino e foi andando. Vi o jornal dobrado no bolso dele e sabia para o que era. Sabia, sim. Quando chegamos no campo de futebol, ficou parado. Acho que ele tava com um pouco de receio por causa dos meus catorze anos, ou talvez por causa do meu pai, que era conhecido dele. Aí eu entrei na frente, segui a trilha e deitei na grama e falei ''vem logo''. Ele se chamava Davidson, um nome engraçado, me fazia rir.
Fomos no campo algumas vezes. O azar é que eu peguei barriga. Mas só fiquei sabendo isso muito tempo depois, quando começou a crescer. Davidson viu minha barriga e sumiu, nunca mais voltou no serviço, e ninguém dava notícia dele. Falei com minha mãe, ela chorou. Meu pai acabou descobrindo. Aprontou o maior barulho, queria matar, esfolar, encheu mais a cara de cachaça, me deu uns tapas. Não falei de quem era o filho, podia bater à vontade. Minha barriga continuou crescendo.
Aí veio o negócio do hospital, minha mãe deu força, ajudou, ficou comigo, tive hemorragia e quase morri. Ela cuidou do menino até eu levantar da cama. Meu pai continuou bebendo sem parar, e duas vezes peguei ele maltratando o meu neném, dando cachaça pra ele. Um dia tava na casa da minha avó, pra pegar uma roupa que ela tinha feito pra mim. Eu fui a pé, tava muito quente e deixei o menino com minha mãe.
Tava lá experimentando o vestido, quando meu irmão chegou e disse que o pai tava batendo com a correia da bicicleta no meu neném. Ele tinha enchido a cara e falou que ia matar o menino. E a minha mãe? Meu irmão falou que ela gritava no quintal, pedindo ajuda dos vizinhos. Fui na cozinha da vó e catei uma faca pontuda e saí correndo lá pra casa.
Meu neném tava chorando no chão e minha mãe tava tentava segurar meu pai. Eu entrei e enfiei a faca no meu pai. Não sei quantas vezes. Enfiei a faca e ele foi caindo e eu fui enfiando a faca sem parar. Foi isso.
Arrependimento? Não, não tenho nenhum. Eu tinha de defender o meu neném. E foi bom pra minha mãe. Meu pai não prestava pra ela, não prestava pra ninguém. E já tava todo inchado de cachaça. Acho que foi melhor pra ele também.

sexta-feira, julho 16, 2010

O que acontece se...

''As hipóteses são como retas: tu as lança e alguma coisa, em algum momento, as encontra.''
A técnica das ''hipóteses fantásticas'' é muito simples. Sua forma precisa é a da pergunta: O que aconteceria se...
Para se formular a pergunta escolhe-se ao acaso um sujeito e um predicado. A sua união fornecerá a hipótese sobre a qual se deve trabalhar.
Vejamos: sujeito - ''Milão''; predicado - ''cercada pelo mar'': O que aconteceria se de repente Milão fosse cercada pelo mar?
Ou então: sujeito - ''Paris''; predicado - ''voar''; O que aconteceria se Paris voasse?
Eis duas situações dentro das quais os acontecimentos narrativos multiplicam-se espontaneamente ao infinito.

segunda-feira, julho 05, 2010

Pequena flor da maçã.

Ela sente saudades dele, mesmo quando ele está ao seu lado.
Ela não lembra o significado de infelicidade. Nem ao menos tenta.
Seu corpo não consegue ficar longe do dele. Sente-se doente.
Doente de amor.

Os livros não fazem mais companhia.
Os filmes são repetitivos.
O cigarro a acompanha todos os dias.
E a bebida, na sua caneca favorita.

Difícil mesmo é ter que guardar as palavras bobas para o final de semana.
E se sentir chorona e serena ao seu lado.
Sorrisos são tão constantes.
Ela espera seu doce alento.

quinta-feira, junho 17, 2010

Adora um amor inventado.

Ela ouve músicas e come morangos.
O dia dela foi tão calmo que ela nem precisou dizer uma única palavra.
Ela só espera...

quinta-feira, junho 10, 2010

Brócolis.

Queria dar-te um beijo com gosto de chocolate.
Queria fazer-te uma surpresa com areia.
Queria deitar-me contigo antes do sol chegar.
Pois não, então.

domingo, junho 06, 2010

Domingo era seu dia favorito. Dia do almoço na casa da avó: os primos discutindo e bebendo cerveja na sala de estar enquanto assam o churrasco na garagem velha.
Segunda-feira era seu dia favorito. Prolongava a folga do domingo e não fazia nada além de ouvir música.
Terça-feira era seu dia favorito. Bons programas na TV e uma boa comida.
Quarta-feira era seu dia favorito. Dia de assistir futebol com o pai e de brigar com o irmão por torcer pro time rival.
Quinta-feira era seu dia favorito. Voltas pela cidade; cerveja durante a tarde com os amigos e aulas de português à noite.
Sexta-feira era seu dia favorito. Ela limpava a casa, lia bons livros e tirava o dia de folga.
Sábado é seu dia favorito. Ela dorme acompanhada, se sente feliz, segura e amada.
Domingo é seu dia favorito. Ela acorda ao lado dele e não se importa em estar descabelada e de beijá-lo com o bafo da manhã.
Segunda-feira é seu dia favorito. Ela continua pensando nele, assim como todos os outros dias que antecedem o sábado.

segunda-feira, maio 03, 2010

O perfume que andava com o vento pelo ar.

Chovia muito naquela manhã e Francisco não se deixou levar, como tantas vezes antes, pela preguiça.
No café-da-manhã, ele comia peixe com morangos. Depois, saía para caminhar. Ninguém traía a solidão voluntária de Francisco.

Primavera.

Calmamente, mochila escamada nas costas, ele caminhava.
Aquela quarta-feira úmida e quente. Poucos se aventuravam para fora de casa naqueles dias abafados e, por isso, um silêncio grave cobria o ambiente temperado pelo mugido aleatório dos motores que roncavam nas avenidas que circundavam aquela cidade neoclássica.

Seaside.

Membros que bailam em silenciosas coreografias no vento quente.

Os bons velhos tempos.

Num dia quente, pesado e úmido, a moça de um tapa numa mosca e quebrou o relógio.
Romance apenas não era suficiente para Pedro, não em sua idade.

domingo, abril 18, 2010

11th dimension.

Neste planeta tão densamente povoado de seres reprodutivos, o medo do sonho é lei, a esperança na busca é crime e os desprevenidos aventureiros que se apaixonarem pela selva magnética devem banir para sempre os pulsos da fantasia.

segunda-feira, abril 12, 2010

Melody Of a Fallen Tree.

Hoje, sob um regime que tudo apequena, os senhores amam os pequenos pratos, os pequenos apartamentos, os pequenos quadros, os pequenos artigos, os pequenos jornais, os pequenos livros, isso quer dizer que as mulheres serão também menos grandiosas? Por que motivo o coração humano mudaria, só porque os senhores mudam de hábito? Em todas as épocas as paixões serão as mesmas. Sei de devotamentos admiráveis, de sublimes sofrimentos a que faltam a publicidade, a glória se preferirem, que outrora ilustrava os erros de algumas mulheres.

domingo, abril 11, 2010

Saturday.

O lábio inferior, fino e muito móvel, se baixava nas duas extremidades em vez de se erguer, o que me parecia denunciar um fundo de crueldade nesse caráter de aparência fleumática e preguiçosa.

quarta-feira, abril 07, 2010

About me 2.0

Meu humor só Freud realmente explica. Sou forte e frágil, doce e raivosa, carente e independente. Pois é, com esse jeito complicada e perfeitinha eu sigo minha vida e minhas relações. Possuo uma memória seletiva, que escolhe o quê e quando lembrar, mas muitas vezes, me apego ao que deu errado no passado, com dificuldade de me desprender de modo leve.
Sou intensa em tudo o que faço e espero uma cumplicidade enorme das pessoas à minha volta.
Tenho uma super intuição, que me guia nos momentos-chave do destino. De personalidade forte, sou apegada às pessoas importantes, sejam amigos, rolos de amor ou gente da família. Sou uma guerreira, que une as pessoas, através de conselhos e pequenas broncas, quando alguém tá pisando na bola.
Sou um pouco controladora e manipuladora e, como conheço profundamente as pessoas, por ser intuitiva, acabo percebendo os vacilos rapidamente.
Super carinhosa e protetora, sou a mãe da galera.
Ouço os problemas, fico perto na hora da dor, invento atividades maluquinhas só para animar um amigo... Por ser intuitiva, sei, só de olhar, quando aquela amiga especial tá na pior.
Nunca esqueço datas de aniversário, adoro sair pra comer e conversar. E se precisar de alguém pra chorar junto depois daquela festa catastrófica, sabe o meu número.
Cada loucura investida vale um ponto.

Margarida has a strange appeal.

Uma mulher elegante será mais ou menos condessa, confessa do império ou de ontem, condessa da velha estirpe ou, como dizem em italiano, condessa por polidez. Mas quanto à grande dama, ela está morta com toda a sociedade grandiosa do séculos passado, junto com o pó-de-arroz, as moscas, os chinelos de salto alto, os corseletes apertados enfeitados de um delta de nós. As duquesas passam hoje pelas portas sem que seja necessário fazê-las alargar para as suas saias repolhudas. Enfim, o império viu os últimos vestidos de cauda!
Daí a mulher que é duquesa, apenas no nome, não possui nem carruagem, nem criados, nem camarote no teatro, nem tempo ocioso; não dispõe de um apartamento em seu palácio, nem fortuna, nem bibelôs.

Uma flor vermelha nasceu.

Matar uma mulher é um ato infantil.
Existe sempre um macaco consumado dentro da mais bonita e angelical das mulheres.

Vingar-se de uma mulher não é reconhecer que ela é única, que os homens não saberiam viver sem ela? E será a vingança a maneira de conquistá-la? Se ela não vos é indispensável, se existem outras, por que não lhes deixar o direito de troca que arrogam para eles mesmos?
Isso, bem entendido, só se aplica à paixão; de outro modo, seria anti-social, e nada prova a necessidade do casamento indissolúvel do que a instabilidade de paixão. Os dois sexos devem ser acorrentados, como animais ferozes que são, as leis inexoráveis, surdas e mudas. Suprima-se a vingança e a traição nada mais é no amor. Aqueles que acreditam que só existe uma mulher no mundo para si, esses devem ser adeptos da vingança, e nesse caso existe apenas uma.

terça-feira, abril 06, 2010

Está com os pensamentos misturados como um milkshake.

Viviam dizendo que ela era calma, preguiçosa até. É preciso reconhecer que havia um pingo de verdade nestas más línguas, mas o resto era pura invenção, potoca de quem não tinha o que fazer. Era calma sim, e daí?
Uma vez lhe disseram que os homens vendiam calma também.
A esquina custava a chegar. As pessoas passavam apressadas, desviando-se umas das outras, com embrulhos debaixo dos braços e uma preocupação na testa franzida.
O vento soprou mais frio ainda, levantando no ar jornais rasgados. E ela continua calma.

sexta-feira, março 26, 2010

Hiperligação.

Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizível do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.

segunda-feira, março 22, 2010

Homecoming - The Teenagers.

(Ele)
Semana passada, eu fui a San Diego para ver minha tia. No primeiro dia, eu conheci sua enteada gostosa. Ela é uma garota-de-torcida, é virgem e ela é muito bronzeada.
Logo que ela desceu do carro, pude notar que ela era mais do que pegável. Eu acho que ela estava voltando do jogo ou algo do tipo, pois ela estava segurando aqueles pom-poms toscos. No segundo dia, eu transei com ela, e foi animal. Ela é tipo uma puta.

(Ele)

Eu fudi minha vadia americana.
(Ela)
Eu amo meu namorado inglês.
(Ele)
Foi demais, o sonho se tornou realidade, assim como eu gosto, ela tem boas tetas.
(Ela)
Foi perfeito, o sonho se tornou realidade, que nem na música do Blink 182.

(Ela)
Ok, ouçam meninas: eu conheci o cara mais gostoso que existe. Basicamente, assim que eu desci do meu carro, fiquei cara-a-cara com meu primo-enteado ou seja o que for, quem se importa? De qualquer modo, ele usava jeans skinny, tinha um cabelo estranho e o sotaque britânico mais fofo.
De longe, eu pude notar que ele era roqueiro por sua atitude sexy e o jeito que ele olhava pra mim. Mmmmmm, ele é totalmente demais.
Ai meu Deus, eu acho que estou apaixonada.

(Ele)
Foi um prazer te conhecer

(Ela)
O prazer foi todo meu, eu gostei mesmo de você. Venha pra Cancún no feriado da primavera.

(Ele)
Eu vou pensar nisso. Seria ótimo.

(Ela)
E não esqueça de me adicionar.

(Ele)
Até parece.

sexta-feira, março 19, 2010

Worldwide.

Agora é manhã em Bagdá. Hora de tomar chá à sombra da mangueira, balançar os pés no muro de arrimo e assoviar para as meninas que germinavam de vergonha suas risadinhas.

É de tarde no Arizona, calor danado na fedentina do curral. A garganta seca e arfa de poeira. Hora de água gelada da bica, à sombra do chapéu. Hora de balançar-se na porteira e cantar para as colegiais que intumescem de suor o tergal das camisas.

Noite, breu na Patagônia imóvel. O frio arrebenta os veios da mata, infiltra-se na pele da terra. É tempo de vinho quente agasalhado no poncho. Hora de soltar as cantigas, inflar as bochechas, chacoalhar os ombros. E aquecer o coração das cabrochas.

Na praia deserta, lá no cafundó, o sal queima a língua. O bafo é quente nas ventas. Está quase na hora de correr para casa, tomar banho e sair na brisa da varanda.
No mundo todo, em qualquer naco que se escolha, para qualquer teco que se aponte, toda hora, todo tempo, é assim que a gente faz: a natureza dita e o coração manda.

segunda-feira, março 15, 2010

Ele possuía um nome. E agora, uma personalidade.

Descreveu-o como um rapaz quieto, sério, muito talentoso, que gostava de se manter afastado dos outros, suportava com paciência o constrangimento da vida de internato.
Escrevi, para acompanhar meus versos, uma carta na qual expunha sem reservas, com abertura que escapava ao meu controle, de maneira que nunca fizera antes e nunca voltaria a fazer para qualquer outra pessoa.

quarta-feira, março 10, 2010

Good to go.

É mais ou menos como se fôssemos jogados nus numa piscina cheia de gelatina de uva. Uma coisa estranha.
O diálogo silencioso dos dois era muito expressivo.
Mas muito indica que foi daquelas paixões estranhas que vão contaminando, contaminando. Mais ou menos na ladeira de uma montanha russa. Vai dando aquele aperto danado até largar as amarras ladeira abaixo e soltar a goela loucamente. Ou para ser mais simples, é mais ou menos quando se entra no mar depois de assar no sol. No começo é meio complicado, parece que não vai acabar mais de tanto sofrimento. Mas quando - TCHIBUM! - vem a primeira onda, que delícia!

Foi assim o encontro deles.
Lindo, lindo, lindo.
E durou. Durou para ela e também para ele. Vinte e quatro segundos.
E foram felizes para sempre (cada um no seu canto).

domingo, março 07, 2010

The Caretaker.

Isso não pegava bem para sua reputação.
Afinal de contas, suas exibições públicas eram sempre envoltas em mistério e tensão.
Mas, de verdade, nunca ninguém se preocupou em entender direito o mundo dela.
Ninguém nunca chegou perto, no pé do ouvido, ali, cara a cara, mão na mão, ombro contra ombro.

quarta-feira, março 03, 2010

Noite quente.

Era perto das sete da manhã e o sol escorregava sem convicção pelos eucaliptos.
E pelas ruas que serpenteiam ladeira acima, a animação continua.
Ele não chora mais as feridas da lembrança e nem das noites em que sonhava. Era um dia após o outro.
Sozinho em casa, com um bafo etílico, o incenso lhe causava uma tontura gostosa.
Realmente sentia remorso e raiva pelas coisas que tinha (ou não) feito na noite passada. Agora ele só pensava.

terça-feira, março 02, 2010

Life-fe.

A gente não está na Terra para entender as coisas. As coisas não são para serem entendidas.
A gente sofre quando quer entender. Mas a natureza fez as coisas assim, para que a gente passe a vida toda tentando entender o que quer dizer a vida. E, quando a vida vai dar um ponto final, a gente percebe que não entendeu nada, porque não tinha nada para entender.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Sobrecarga de audiência.

No fundo do quarto, a TV mostrava cenas de um filme.
Estar com ela era como se tudo deixasse de existir.
Como se tudo à sua volta não passasse de um cenário de teatro. Imóvel e disponível.
Todo dia uma descoberta, um maravilhamento, uma aguda excitação.
Delícias a restaurar e preservar.
Apenas o tempo passava. E o prazer de estar com ela a minguar.
Ela deitou a cabeça no peito dele.
Ele, passou a mão espalmada pelo ventre dela.
Gostava daquele corpo há poucos dias desconhecido para ele. Pensava que se tratava de mais uma ligação temporária, mais um encontro fortuito e sem maiores consequências entre macho e fêmea.
Ela mexeu-se na cama, beijou o peito dele e passou uma perna sobre as suas.

sábado, janeiro 30, 2010

Insônia.

Naquela noite, eu não conseguia dormir. Vira de um lado, vira de outro. Troquei de travesseiro, de pijama, de pensamento e nada. Lá pelas tantas, resolvi levantar. Beber água, quem sabe, ler ou ouvir música, tomar banho ou arrumar o armário. Vaguei sem rumo pela casa, tomando decisões e desistindo delas. Abri a porta que dava para a rua. O ar fresco da noite entrou, eu saí. Deitei na calçada e olhei para o céu. Poucas estrelas, nenhuma Lua, o pensamento ágil, nervos tesos.
- Ei!
Alguém me chamou e eu não estava sonhando. Olhei para os lados, sentei, com o coração saltando.
- Tu mesmo, aqui, aqui!
A voz parecia vir do alto. Levantei.
- Aqui, na árvore. Olha para cima.
Aproximei-me da árvore, a única que sombreava aquela pequena calçada. Fitei longamente os galhos, e lá estava, trepado em um galho, um menino. Eu não distinguia direito suas feições. Cheguei mais perto.
- Por que tu não tá dormindo?
- Quem é tu? O que tá fazendo aqui?
- Eu sou o Caio. E tu é o Mário, né?
- Sou o Mário, sim. Mas o que tá fazendo aqui?
- Tu tá sem sono?
- Tô sim. Mss porque diabo tu tá aí, trepado nessa árvore?
O menino deu um pulo e caiu a meus pés, dando uma cambalhota. Levantou os braços para o alto, como se fosse um ginasta olímpico e curvou-se em um longo e penetrante cumprimento. Ele devia ter mais ou menos oito anos de idade; os cabelos despenteados e longos que lhe chegavam aos ombros. Fiquei alguns minutos observando aquela aparição. Um macacão escuro cobria-lhe os pés descalços.
- Adivinha o que eu tenho em mãos?
Com o peito bombado e os braços cruzados nas costas, Caio olhava para mim, interrogativo.
- Nas mãos?
- Sim, aqui atrás. Primeiro na mão esquerda.
- Não sei, nada.
- Nada não vale. Seu eu lhe perguntei o que eu tinha na mão esquerda é porque há algo. O que tenho na mão esquerda?
Não sei de onde tirei a resposta, mas joguei em tom de desafio:
- Um texugo vermelho.
O menino sorriu calmamente e retirou a mão das costas, segurando pelo rabo um texugo vermelho. Nunca tinha visto um antes e sequer sabia ao certo o que era um texugo. Ele pousou o animal no chão e perguntou novamente:
- E na outra?
Desta vez, pensei com calma, intrigado e ao mesmo tempo seduzido pela brincadeira.
- Hum, uma torradeira.
- Uma torradeira? Como assim uma torradeira?
- Uma torradeira de pão, ora bolas!
- Mas como assim uma torradeira de pão?
Que menino chato!
- Uma torradeira, grande, com os dois lados de um croissant amanteigado, assando.
O menino sorriu e tirou de trás, aquilo que me parecia agora natural: uma torradeira de pão. Ao pousá-la no chão, ele ejetou duas fatias de croissant. O menino pegou uma no ar: sentou no chão e começou a comer. Sentei a seu lado, enquanto ele apontava para a outra metade, com o queixo. Peguei o croissant quentinho.
- Por que tu não tá conseguindo dormir, Mário?
- Não sei direito. Às vezes acontece.
- É verdade. Comigo acontece também. Aliás, sempre. Nunca durmo.
- Nunca?
- Nunca. Vamos brincar mais?
- Brincar?
- É, brincar.
- Tá bom, mas primeiro tu me diz o que tá acontecendo aqui?
- Brincando contigo, ora bolas.
Sorri com o ''ora bolas'' provocativo do menino. Ele caiu numa gargalhada sonora, sacudindo o corpo pra trás. Também gargalhei.
- Vem aqui. Tenta me pegar.
O garoto deu um pulo e começou a correr pela calçada. No início, tentei segui-lo com os olhos, ensaiando alguns passos, para depois começar a correr também. Ele corria devagar, olhando para trás. Quando eu estava para pegá-lo, ainda um pouco apreensivo em tocar aquela aparição, ele deu um grito, agarrou-se com as mãos no galho da árvore e ficou de pé, acima da minha cabeça.
- Vem me pegar, vem!
- Desce daí, menino, tu vai cair.
- Vem me pega, vem.
Dei um pulo e agarrei o galho. Balancei ridiculamente, até cair com a bunda no chão.
- Tu tem que querer pular, senão não consegue.
- Engraçadinho tu... Como assim, ''querer''?
- Querer quer dizer fazer de conta que tu é um macaco ou um canguru. Tenta aí.
- Não, chega. Não quero mais brincar. Chega.
- Por quê?
Caio desceu da árvore e sentou-se ao meu lado. Colocou a mão no meu ombro e olhou para mim, com o rosto quase a me beijar. Senti seu sopro. Ele estava sério.
- O que é isso no teu pescoço?
- No meu pescoço?
- Sim, aqui.
O garoto colocou a mão por dentro do meu colarinho e puxou de lá um guarda-chuva. Tomei um susto.
- E aqui? Aqui? Aqui?
A cada palavra, ele tirava dos bolsos do meu pijama uma batedeira de maionese, um amortecedor de carro etc.
Eu comecei a rir, e ele pulou em cima de mim. Rolamos na calçada. Rolamos e rimos, rimos e rolamos.
Acordei molhado pelo orvalho da manhã.
Deitado na rede, um texugo vermelho roncava, e a gargalhada de um menino brincalhão ainda ecoava pela rua adormecida.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

O que você vai ser quando crescer?

- O que tu quer ser quando crescer, Alceu?
A mãe saiu para trabalhar. O pai também saiu, para nunca mais voltar. Alceu levantou e saiu para a rua. Caminhou um pouco, devagar, olhando a pipa vermelha que rodopiava no céu. Numa laje ele sentou e ficou ali olhando o mar, lá longe.
- Fala aí?
- E aí?
Osmar chegou, sentou ao lado de Alceu, olhando o mar, lá longe. Alceu e Mateus cresceram. Em cima da laje, olhando o tempo passar.
- O que tu vai ser, depois daqui, José?
Era uma família grande e José nem sabia ao certo quantos irmãos tinha. Saiu de casa no meio da tarde, correu pela rua e foi bisbilhotar a vizinhança.
- Quem comeu a Carol?
- O Pedro.
Fernando chegou e ficaram ali, falando da vizinhança. José e Osmar cresceram. Nas ruas da favela e, de vez em quando, na cama da Carol.
- Onde tu quer viver um dia, Garça?
Garça tinha um irmão mais velho, o Paulão. E Paulão vivia de treta com a polícia. Garça saiu de casa e foi levar uma encomenda pro Paulão.
- Vamos pra praia.
- Mais tarde. Agora não dá.
Rafael chegou e ficou ali, fumando um. Garça e Rafael cresceram. Fazendo avião para o Paulão até ele morrer e continuar depois para Prego, Cabeça e Bocão.
O que você vai ser quando crescer, Alceu? Osmar? Garça? Fernando?
Alceu, urso polar, bem grandão com muitas focas para se saciar.
Osmar, o cometa Halley que só passa na Terra de vez em quando que é para não ficar com nojo.
José, um caveleiro medieval com mil mulheres de cinto de castidade a esperá-lo no seu harém da Dinamarca.
Fernando, uma flauta de ouro na boca de uma virtuosa da Orquestra Sinfônica da Romênia.
Garça, maquinista de metrô no Japão, de luvas brancas e sashimi na barriga.
Rafael, um saco de pancada, um adolescente morto, assassinado na porta do barraco, no morro à beira-mar.

sábado, janeiro 23, 2010

Because you're young, como já diria Mr. Bowie.

Um dia, Rafael acordou mal-humorado. Não sabia ao certo por quê. Talvez fosse o tempo, escuro, pesado lá fora. Têm dias assim, em que uma perturbação se esparrama nas tripas, no coração, na alma. Um vácuo incipiente. Um vazio sem nome, sem diagnóstico. Tudo num pretume só.
Rafael, caminhou na casa. Banho ou café da manhã? Sair ou não sair? Até que um pequeno objeto jogado no chão despertou sua atenção. Ele se abaixou e olhou para aquela pequena cápsula cromada. Do tamanho de um botão, o objeto tinha uma face arredondada e outra plana. Rafael foi até a cozinha, enfiou uma fatia de pão na torradeira e descansou o objeto sobre a mesa.
A torrada saltou. Rafael, de susto, estremeceu. O objeto agitou-se também. Tudo ao mesmo tempo.
Rafael foi até a geladeira e serviu-se de leite. Voltou para a mesa, bebendo devagar. Ao sentar-se, puxou a cadeira que rangeu no chão. A cápsula virou-se sozinha sobre a mesa. Rafael aproximou-se para olhar o objeto. Tossiu. A cápsula saltou. Tossiu de novo, e ela se pôs a girar. Bateu palmas, o objeto saltou novamente, mas permaneceu na frente do olhar embasbacado de Rafael. E assim ficou.
Mais palmas, e a cápsula cresceu, cresceu, cresceu. Pousou girando sobre o fogão. Rafael batia palmas, tossia, assoviava, até que uma pequena fenda se abriu no objeto que já tinha o tamanho de uma panela. De seu interior, uma luz azul atingiu o rosto do guri.
E, lá de dentro, saiu um pequeno ser alado, azul, que voou a alguns centímetros do rosto de Rafael.
- Oi.
- Oi.
- Como tu te chama?
- Rafael.
- Quer dar uma volta, Rafael?
Foi assim que Rafael entrou na nave cromada de vorticianos, habitantes de um planeta muito distante, para além da Via Láctea. A nave era toda forrada de um espesso carpete azul. No centro da cabine principal, enormes almofadas de espuma azul esparramavam-se. Do teto, pendiam gotas de cristal azul que cintilavam em mil fogos azuis. Em toda parte, vorticianos voavam em seus afazeres.
Os vorticianos eram um povo muito guloso e, assim que Rafael entrou na nave, foi imediatamente convidado a sentar-se à mesa. Um enorme pudim azul coberto de confeitos azuis tronava no centro.
- Coma, Rafael.
- Eu não tô com muita fome.
- Então vem cá, vou te mostrar uma coisa.
Rafael e Lup, o comandante da nave, foram até uma enorme janela que se debruçava em um dos lados da nave. Lup abriu as cortinas de renda azul.
- Veja, Rafael.
E Rafael viu. Primeiro o piso laranja da cozinha, depois a porta vermelha da geladeira, a frente escura do abacateiro do quintal e um enorme céu azul. E mais céu, azul também.
- Rafael, tu conhece a nossa história?
- Não.
- Então, escuta.
Rafael conheceu a história do planeta azul, onde tudo era azul, até a gema do ovo, até as laranjas, até o céu-da-boca e o arco-íris.
- Viemos para a Terra, seu planeta, para aprender.
- Aprender o quê?
- Aprender o laranja, o vermelho e a cor de abacate.
Rafael exclamou:
- Eu gosto de amarelo.
- Amarelo? Como é amarelo?
- Amarelo é a cor da minha mochila, do meu caderno, do tapete do meu quarto. Amarelo é a cor que vejo quando fecho os olhos e aperto assim bem forte. Entendeu?
- Não.
- Então, vou te mostrar.
Rafael tirou do bolso da calça uma pequena caixa e começou a pintar de amarelo, o enorme carpete azul da nave, as almofadas azuis, o pudim azul, a cortina azul.
Além da Via Láctea, tem um planeta, que aprendeu, na Terra, o amarelo.
E, aqui embaixo, Rafael também aprendeu. Aprendeu que, quando a gente acorda triste, com o preto a corroer-nos o espírito, é só lembrar-se das cores e pintar o mundo como ele é: azul, amarelo, laranja, vermelho e verde abacate.

domingo, janeiro 17, 2010

Palavras.

Há palavras que são mais do que palavras. Elas deveriam ser promovidas a outra qualificação que as diferenciasse das demais.
Por exemplo, a palavra telefone ou colher ou ainda fêmur não são certamente da mesma natureza que palavras como dor, saudade ou coração.
Existem palavras de natureza funcional que podemos chamar de protopalavras. Elas têm uma definição simples e inequívoca. Elas são úteis para diálogos simples ou textos descritivos. Por exemplo: a palavra automóvel na frase: "O automóvel vinha veloz pela estrada que descia até o mar".
Há também as palavras expansíveis, voláteis e temporais que denominamos simplesmente de palavras-palavras. São aquelas que utilizamos para sugerir o estado das coisas. As palavras-palavras são as mais comuns. Considere a palavra frio. A frase: ''O frio vinha veloz pela estrada que descia até o mar'' sugere um estado passageiro, mas também pode dar abertura a interpretações e conteúdos imagéticos.
Finalmente, as suprapalavras são as que simplesmente não têm definição. Ou melhor, a definição só existe pra quem as pronuncia, mas elas não podem ser jamais entendidas pelo interlocutor na exata dimensão em que foram expressas. Por exemplo, amor. Na frase: ''O amor vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', é impossível entender de que amor estamos falando.
Numa graduação simples, podemos dizer que as protopalavras são aquelas que não modificam o sentido das outras palavras da frase. As palavras-palavras têm um poder limitado de fazê-lo, e as suprapalavras podem fazê-lo de forma infinita.
Vamos voltar ao nosso exemplo.
Quando dizemos: ''O automóvel vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', isso significa que o que significa sem nenhuma margem interpretativa. O automóvel define ainda o sentido das palavras veloz, estrada e mar. Se é um automóvel, a velocidade se refere, portanto, a um fenômeno físico; a estrada é uma via carroçável; e o mar é um acidente geográfico. Tudo muito preciso e de simples compreensão.
Já quando dizemos: ''O frio vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', o sentido sugerido pela palavra frio pode modificar moderadamente as outras. Podemos estar nos referindo ao frio climático que descia montanha abaixo, para afugentar os veranistas seminus na praia. Mas também podemos estar falando de um caminhão de gelo que ia suprir os mesmos banhistas da necessária refrescância para suas cervejas. Ou ainda pode ser o frio da água da cachoeira que se descabela até jogar-se no mar. As versões são simples; no entanto, elas têm um relativo coeficiente metafórico.
Mas quando dizemos: ''O amor vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', quantas interpretaçãoes não são possíveis? Inúmeras, incontáveis, infinitas. Tantas, tantas que sequer somos capazes de enumerá-las. Mas o que faz a diferença aqui é que aquele que diz ou escreve a frase e dá um sentido preciso a esse amor. No entanto, os significados são tão variados quando o número de ouvintes ou leitores que tropeçarem nela.
A suprapalavra amor modifica com uma extraordinária alquimia o sentido de veloz, estrada, mar e tem o incrível poder de transformá-las em palavras-palavras ou até mesmo em protopalavras.
Assim, veloz pode significar acelerado, apressado ou afobado, mas pode querer dizer ainda arrasador, assassino, arrebatador e, nesse sentido, a palavra veloz transforma-se em uma suprapalavra. E uma vez suprapalavra, a protopalavra estrada também pode ser promovida, assim como a palavra-palavra mar.
Críticos costumam dizer que essa teoria é completamente inútil, uma vez que todas as palavras podem ser simultaneamente protopalavras, palavras-palavras ou suprapalavras, dependendo do seu contexto na frase. Ou melhor, todas as palavras são suprapalavras de alguma forma e, portanto, essa gramática é absurda.
Mas poucos entendem o real significado. A intenção é justamente confundir e mostrar que não se deve ler para entender, mas ler para sentir. Não se deve jamais tentar decifrar a intenção da escrita, mas apenas extrair o sentido particular, individual, único da química que se opera na leitura.
Se fôssemos capazes de falar apenas com protopalavras ou no máximo através de palavras-palavras, tudo seria mais simples. Não haveria mal-entendidos.
Mas o criador dessa tese não queria saber de moleza e colocou na boca dos humanos as suprapralavras. Malditas sejam!

sábado, janeiro 16, 2010

Picadinho.

- Era tudo picadinho, picadinho.
- Um estrogonofe? Cenoura ralada? Couve miúda? Alho batido?
- Não, não é comida não.
- Então, é um quebra-cabeças?
- Que tipo de quebra-cabeças?
- Daqueles que a gente brincava, sabe? Aqueles quadros horríveis dos pintores lá, ou então as paisagens de outono.
- Não, não. Vou falar de novo. Picadinho, entendeu?
- Entendi, mas o que eu tenho que adivinhar mesmo?
- Que picadinho era esse?
- É mesmo. Bom, pode ser, então, um picadinho de confeti? Ou de areia da praia, daquele bem fina?
- Nada disso.
- Já sei! Quando o barbeiro varre o chão e pega um monte de cabelos de todas as cores, que dá vontade de pegar a fazer uma almofada?
- Não.
- Picadinho... picadinho. Pode ser, então, que seja uma folha de papel que a gente dobra, dobra e dobra mais. Depois recorta tudo direitinho. Daí dobra um dos pedaços e corta de novo até quando der. É isso?
- Não.
- Acho então que é quando se corre muito, sobe e desce, desce e sobe. No final, na hora de pedir um copo d'água pra mãe, sai tudo assim: Mmmm dddd aaaa uuuuuu mmmmm cocococo popopopop d'aaaaaaaa guaguagua?
- Isso é picadinho, mas não é esse não.
- Então, é uma coisa de maluco sociopata? Aquele fulano que partia as pessoas, sabe, daquele filme?
- Cruz credo! Não!
- Um picadinho de cubo mágico? Ou, já sei. Da prova de matemática por causa da nota ruim?
- Podia ser, mas não é.
- Então, é como quando chove numa folha de papel manteiga? Picadinho de chuva?
- Não.
- Desisto.
- Como assim?
- Ué, não sei que picadinho é esse.
- Então, é minha vez de novo.
- É. Que jeito!
- Posso ir?
- Pode.
- Era grandão, enorme. Maior que tudo.
- Um elefante? Um mamute? Um jumbo?
- Não.
- Então, desisto.
- De novo?
- De novo.
- Por quê?
- Porque assim nunca dá pra ganhar de ti.
- Como assim?
- Tu inventa tudo. Não joga limpo.
- Não invento não.
- Inventa.
- Não invento.
- Inventa.
- Não invento.
- Prova, então.
- Provo sim.
- O que era esse picadinho?
- O picadinho?
- Sim, o picadinho, tudo picadinho?
- Ah, o picadinho era tudo.
- Tudo? Não falei que tu não sabe? Inventa tudo.
- Não invento não. Eu disse, picadinho era tudo.
- Tudo?
- Sim, tudo.
- Mas tudo não é picadinho.
- É sim.
- Não é.
- É. O que é tudo?
- Tudo é tudo.
- Então, se é tudo, podia ser qualquer coisa que eu disse antes.
- Não. Porque qualquer coisa não é tudo. Tudo é tudo, tu disse.
- Não entendi.
- Se tudo é tudo e não qualquer coisa, então o tudo é picadinho de qualquer coisa, de todas as coisas.
- E todas as coisas, então, são um picadinho?
- São. Tudo é picadinho. Tudo.
- Então, maior que tudo também é tudo?
- Isso.
- Então, esse picadinho é tudo, e esse tudo é maior que tudo?
- Exatamente.
- Posso perguntar agora, de novo?
- Pode.
- Quem esse picadinho que é tudo maior que tudo te lembra?
- Ai, meu Deus!
- Acertou.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Um menino, um velho pássaro.

- Pedro, tu tá dormindo?
- Não.
- Não consigo dormir.
- Nem eu.
- Tô com medo.
- Que besteira, medo do quê?
- Não sei, mas, cada vez que eu fecho os olhos, tem um bicho grande olhando pra mim.
- Vira pr'outro lado, que passa.
- Já tentei, não deu certo. Do outro lado eu não vejo ele, mas ele, sim.
- Quer que eu acenda a luz?
- Não precisa. E tu, porque não consegue dormir?
- Porque não quero dormir. É perda de tempo e preciso pensar.
- Tá bom. Pensar em quê?
- Não é da tua conta. Em várias coisas.
- Por que tu acha que esse bicho tá olhando pra mim?
- Vai ver ele quer te comer quando tu tiver dormindo. Como é esse bicho?
- Preto e com uns dentes grandes, como uma foca.
- Peludo?
- É, peludo. E ele tem um olho só, no lugar do nariz.
- Tu já tentou encarar ele?
- Como assim?
- Olha na cara dele como se tu tivesse querendo arrumar briga?
- Tu tá maluco, é? Ele é muito forte. Eu fico com medo.
- Mulherzinha.
- Não sou mulherzinha, queria ver tu no meu lugar.
- Quando tu abre os olhos, ele some na hora ou ele ainda fica um tempo na tua frente?
- Deixa eu ver, peraí. Ele some.
- Então acho mesmo que ele vai querer te comer. Tu comeu demais no jantar, ele deve tá sentindo o cheiro.
- Idiota. Mas e tu, em que tá pensando?
- Agora eu tô tentando falar com o tal monstro que não te deixa dormir nem me deixa pensar.
- Tu também tá vendo ele?
- Não, mas tô tentando atraí-lo com o poder da mente.
- Tá dando certo?
- Tá. Ele acaba de entrar em conexão. Fica calado um instante. Vou dizer pra ele que tu faz xixi na cama.
- Não faço xixi na cama.
- Faz sim. Cala a boca um instante. Ele acaba de dizer que tu parece muito gostoso.
- Pergunta pra ele o que ele quer. Diz pra ele que eu tô com medo dele.
- Ele disse que quer te comer, mas eu já avisei que, se ele fizer isso, tu vai acabar fazendo xixi dentro da barriga dele.
- E o que ele disse?
- Que tu é um menino sujo, mas que ele não se importa porque ele tá com fome.
- Não é verdade, não sou um menino sujo e não faço xixi na cama.
- Ele agora falou que, se tu fechar os olhos agora, ele vai te engolir tão rápido que tu nem vai conseguir fazer xixi.
- Pára, Pedro. Vou chamar a mamãe.
- O monstro tá morrendo de rir. Além de mijão, ele agora sabe que tu é uma mulherzinha covarde.
- Mas tu consegue ouvir ele? Por que eu não consigo?
- Porque tu é uma mulherzinha covarde e monstros não gostam de falar com pessoas como tu.
- Então, por que é que ele quer me comer?
- Porque ele tá com fome, ué!
- Diz pra esse monstro que, ele ele me comer, eu vou fazer xixi na barriga dele.
- Ele disse que vai comer o seu pinto primeiro e não vai dar tempo.
- Então fala pra ele que eu vou furar o olho dele com o meu dedo. Diz pra ele que, se ele tentar me comer, ele não vai conseguir porque eu vou gritar, e a polícia vem prender ele.
- Idiota. Tu acaha que monstros têm medo de polícia?
- Então diz pra ele que eu vou dar um soco na cara dele.
- Ele deu risada. Falou que é mais forte.
- É nada. Eu vou acabar com ele. Ele que tente me comer!
- Por que tu não diz isso a ele? Já tô cheio de ser teu porta-voz. Fala tu e me deixa pensar.
- Tá bom. Se eu disser isso a ele, tu acha que ele vai embora?
- Não sei. Tenta. Mas tu vai ter que olhar pra ele primeiro. Cuidado porque ele é forte e grande. Ele pode ser mais rápido e te comer antes de tu conseguir falar.
- Ele não vai me comer.
- Então fala isso pra ele. Vai, sua mulherzinha covarde, mijona.
- Pedro?
- Falou pra ele?
- Falei, e quando fechei os olhos ele não tava mais lá. Sumiu.
- Então vai ver ele ouviu nosso papo.
- Acho que sim. Ele ficou com medo de mim.
- Deve ser. Agora dorme e me deixa pensar.
- Tá bom. Té amanhã.
- Té.

- Pedro?
- Fala, seu chato.
- Em que tu tá pensando?
- Já falei que não é da tua conta.
- Por favor, vai!
- Tá bom. Eu tô pensando que tu é uma mulherzinha covarde, mijona.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Luz vermelha.

A sequência dos acontecimentos foi desastrosa.

Se tu acompanhar meu ritmo com cuidado, vai ser como se de repente mil orelhas pipocassem no teu corpo. Vai ouvir sons que arrepiam o coração.
Ali fica a minha casa. Já estamos chegando. Só falta mesmo atravessar a floresta de cipó e passar as mãos para sentir como eles enroscam na tua nuca, correr pelo gramado com a boca bem aberta para sorver o vento de hortelã com canela e pular as doze cercas, prestando atenção aos gritinhos de prazer que as flores dão quando voamos por cima delas.
Pronto. Seja bem-vindo à minha casa. Não precisa agradecer. Ela é tua, todos os seus cantos e encantos.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Mais uma xícara de paciência.

Tinha um quarto secreto na casa. Um quarto secreto e, Gabriel não sabia onde ficava. Passava horas, rastejando pela casa, com seu carrinho a raspar os rodapés brancos, na esperança de ver surgir uma ranhura diferente, uma frestra de luz, que se infiltrasse, um eco estranho, um sussurro de vozes.
O quarto existia, com certeza. Era lá que estavam escondidos os documentos, a papelada que revelava o grande segredo. Gabriel não sabia ao certo o que procurava, se o quarto, se o segredo.
Desde sempre ele desconfiava de sua origem. Ele era diferente dos pais e dos irmãos. Tratavam ele diferente.
Tampouco sentia essa coisa estranha chamada ''amor'', que deveria garantir que ele era filho de seus pais e irmão de seus irmãos. Havia algo de estranho.
Claro, existia aquela história dele pequenininho, mamando com tanta fome que até mordera o bico do peito da mãe. Aquela outra da maternidade, do Doutor Mário dizendo que era um menino. Tinha também aquela foto do pai quando bebê, mas Gabriel não concordava que aquela imagem gorducha era a cara dele. Tudo isso não passave de mais uma armação, uma mentira.
E havia o quarto secreto com as provas. Ele tinha de achá-lo. Gabriel sabia que não pertencia àquela casa, àquela gente, àquela família.
Gabriel tinha poderes, super-poderes. Ele sentava à varanda e acionava o farol da rua com um simples pressionar do parafuso da grade. Ele acendia as luzes do corredor do prédio, quando fechava os olhos. Ele sabia a cor de todas as rosas do jardim no caminho da escola. Gabriel tinha super-poderes: ele não podia ser filho de seu pai e de sua mãe.
Gabriel era mais forte que seus irmãos. Muito mais forte. Afinal de contas, sofria mais que os outros. Teve aquele dia em que a avó dera dinheiro para o irmão comprar aquele urso polar de chocolate. Só para o irmão. E aquele outro, em que o pai levara a irmã para a fábrica, no sábado de manhã, só a irmã. Teve também o aniversário, o seu aniversário. Por que tão pouca gente? Por que acabou tão cedo? Por que aquele livro estúpido de presente e não a grua que ele tanto queria? Tinha algo estranho. Ele era injustiçado, mas forte, muito forte: não podia ser irmão de seus irmãos.
Gabriel não entendia por que a mãe dizia que ele devia amá-la. Não entendia por que ela o amava. Por que é que ele devia amar os irmãos? Ele amava o carrinho azul, aquele Porsche que achara na escola. Ele amava Pingo, o gato. Ele amava comer o resto de bolo cru que a avó não conseguia raspar da tigela. Isso ele amava mesmo, de verdade. Mas Gabriel não sentia que amava sua mãe assim, seu pai, seus irmãos.
Um dia Gabriel cresceu e largou o carrinho. Um dia Gabriel cresceu, e os faróis da rua não lhe interessavam mais. Um dia Gabriel cresceu, e o jardim de rosas morreu, Pingo morreu, a avó morreu também.
Gabriel acordou de noite, de repente. Havia uma luz debaixo da porta. Uma luz e vozes, abafadas, misteriosas. Coragem, Gabriel. Ele abriu a porta.
Na sala estava a mãe, a mãe de Gabriel, o pescoço levemente arqueado, os óculos na ponta do nariz, o tricô caído no chão. A TV estava ligada. Gabriel sentiu muito medo e aproximou-se do rosto amassado da mãe. Olhou suas rugas, suas veias, os escorridos fios de prata que lhe caíam da testa. Gabriel sentiu muito medo.
Voltou para o quarto. Ele estava com muito medo. Sentado na ponta da cama, ele estava com medo. Muito medo.
A porta abriu-se. ''O que foi, meu filho?''
A porta abriu-se, Gabriel olhou para a mãe e chorou.
A porta abriu-se. A secreta porta do amor.

sábado, janeiro 09, 2010

Selvagem é o vento.

Ela adorava orquídeas. Essas flores tinham a reconhecida propriedade de regenerar células mortas e, quando aplicadas na forma de bálsamo cutâneo à tez diáfana da garota, retiravam-lhe instantaneamente os resquícios noturnos de suas orgias etílicas e secretas.
Numa noite mesmo, o balanço tinha sido de doze caixas de acquavit devidamente entornadas até o último vapor.
Duas pesadas lágrimas deslizaram lentamente pelas bochechas da desconsolada pseudo-mulher e enfurnaram-se pela ruga da boca até o queixo. Sem orquídeas negras, sem ninguém. Afogou-se nas dobras da memória.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Sexta-feira está para o amor.

Sexta. Sol. Aranhas de salto alto, margaridas de saia rodada e a garota sentada com o bundão no sofá de couro. Lia um livro empoeirado e cantarolava uma moda de cânfora e anilina. E ela nem ligava para as coisas da casa, a bagunça dos gatos, o almoço, a briga do amigo.
E, de vez em quando, ela soltava as mãos e suspirava lá, bem longe, para trás de todos. Se via, não via. Mas olhava sim.
Tinha alma de velha e não se importava com isso. Nem sequer se importava com o gramado verde como as esperanças, ou com a trepadeira derramando seus hormônios na parede. Indiferente.
Mas era sexta e sexta não era segunda, nem terça, nem o resto todo da vida que se esfumaçava adiante. Aquele resto que não acabava mais de ficar ali, no sofá, lendo seus livros com lembranças. Hoje, era sexta-feira.
Porque era sexta-feira e não dava muito tempo para ler, escrever, ler e lanchar. Era sexta e, por isso, tinha amigos que ligavam convidando para beber uma cervejinha.
- Vamos?
Sexta-feira, tomara que o lugar preferido deles não esteja ocupado. E nem aí para as coisas de agora. Nem aí para as coisas de antes.

Ingressos esgotados.

Não gostava mais de assistir à TV. Nem o computador o atraía mais. Era solitário.
Mas havia noites mais tristes que as de todo dia. Eram as noites do medo. Aquele medão que entra pelas frestras do coração.
Naquela manhã, ele dera de frente com o amor. Um amor daqueles que dá vontade de morrer. Daqueles que dá vontade de voar. Um amor sem explicação, sem função, sem pata nem focinho. Ele não soube de saída que aquilo era amor. Só foi se dar contar, mais tarde. Foi como uma música que o despertou.
Conhecia essa música. Ouvira a mesma ladainha centenas de vezes mas nunca entendia nada. Achava aquilo bobo, mocó, tonto. Mas ali, naquele momento, uma estranha magia escorregou por suas orelhas. Uma magia que transbordou seu coração.
Foi assim que ele entendeu aquele torpor. Uma música brega, tola, encheu seu peito de amor.
À noite, na sua cama, ele não sentiu mais tristeza. Nem o medo, o medo de não saber amar.

sábado, janeiro 02, 2010

Totalmente last week.

O frio era de enregelar a seiva. Mas ela não ligava e até gostava.
Ela se debruçou para ajustar a saia plissada e puxar as meias abaixo do joelho que desapontava, discreto. Aprumou-se e, orgulhosa, estufou o peito numa oferenda tesa. Terminou de se arrumar chacoalhando para o lados os cachos densos.
- Oi.
- Oi.
- Onde pensa que vai assim?
- Assim como?
- Assim, ridícula?
- Não vou a lugar nenhum.
- Então por que tanta cafonice?
- Eu gosto de me arrumar, só isso. Não posso?
- Sei lá. É ridículo.
- Por que ridículo?
- Porque parece que tu vai ao baile de formatura de uma prima pobre.
- É, mas... e daí?
- Daí que ninguém vai reparar, porque é muita cafonice reunida.
- Ué, mas tu reparou que eu estou arrumada, não?
- Reparei sim, mas acho ridículo.
- Ridículo é tu ficar o dia inteiro com essa cara amassada. Tu tá com inveja!
- Inveja? Tu deve tá brincando. Olha só pra ti, esse peitão inchado. Coisa mais feia, tenha vergonha!
- Inveja, isso se chama inveja. Tu é que parece um bicho. Um espantalho, isso sim, com esse chapéu de aba.
- O que tem o meu chapéu?
- Out of fashion, my dear. Totalmente last week.
- Pronto, agora a gostosona resolveu arrotar o chá das cinco.
- E essa tua cabeleira amarela, isso também é uma coisa ''complètement démodé, ma chère''.
- Agora sim, ela tá ''se achando''. Pelo menos sou natural. Olha só o roxo do seu cabelo. Parece que levou um beliscão no coco.
- Lilás, e não roxo. É a última moda em Beverly Hills.
- Coitadinha, perdoai sua vaidade, nunca viu o mundo e só porque desbotou os tufos acha que vai abafar no ''nouveau chou''.
- ''Nouveau chou''?
- Como, tu não conhece o ''nouveau chou''?
- Não.
- O ''nouveau chou'' é o que há. É lá que as coisas acontecem, que as estrelas nascem e colhem inspiração.
- É?
- Claro! Tu precisa conhecer, cher.
- Mas o que é o ''nouveau chou''?
- É tudo. Olha só pra ti, pobre infeliz com esse peitão! Se o ''nouveau chou'' te visse, ia ter um ataque. A moda está para a magreza, a longitude e não a latitude.
- É mesmo?
- É. Veja eu, por exemplo. Eu não dou um passo sem ouvir o ''nouveau chou''. E esse cabelo de cachinhos? O ''nouveau chou'' não suporta mais isso. É caipira. A moda está para o ''menos é mais''. Sem falar da cor. Tem que ser naturalmente menos e nunca artificialmente mais, entende?
- Entendi.
- Como você se chama?
- Hortência.
- Hortência com ''c'' ou Hortênsia com ''s''?
- Com ''s''.
- Muito prazer, Hortênsia com ''s''. Eu sou a Daisy.
- Me fala do ''nouveau chou''.
- Ah, o ''nouveau chou''! Vou te contar tudo. Como é gostoso o ''nouveau chou'', ma chère, gostoso pra chuchu.
Asssim tagarelavam, numa fria manhã de inverno, duas flores gélidas.