Sua cabeça doía, suas costas doíam, seu corpo todo doía. Pensou em ir para casa, que era não muito longe dali, mas longe demais quando se está cansada e desanimada, numa tarde quente de novembro. Queria deitar-se em sua cama fria e dormir o resto da tarde.
Ela acreditava que esvaziar a mente dava ao subconsciente uma chance de resolver problemas aparentemente insolúveis. Talvez ela tivesse sorte e seu subconsciente trabalhasse enquanto ela cochilava, e a presenteasse, ao acordar, com alguma ideia brilhante e elementar. Considerou os fatos e tornou a suspirar. Não tinha tanta fé assim em seu subconsciente.
Passado um instante, e sem muito entusiasmo, tirou um pente da bolsa e tentou ajeitar o cabelo. Em seguida, um batom.
Olhou dentro de seus olhos verdes, guarnecidos de longas pestanas. Davam a impressão, concluiu, de serem grandes demais para o rosto, como dois buracos numa folha de papel. Encarou severamente a si mesma.
''Ir para casa dormir não vai resolver nada. Sabe disso, não sabe?''
Tinha que ter alguém com quem pudesse contar, alguém para conversar.
Alguém para conversar.
Carolina.
Grande ideia! Por que não pensara nisso antes? Satisfeita consigo mesma, Clara esboçou um sorriso, ao mesmo tempo em que a buzina de um carro a trazia de volta à realidade. Um enorme carro azul parara junto ao seu carro, o motorista com o rosto vermelho deixando claro que desejava saber se ela desocuparia a vaga ou se ficaria ali sentada, enfeitando-se e se arrumando diante do espelho o dia inteiro.
Envergonhada, Clara ajeitou o retrovisor, deu a partida no motor, sorriu mais encantadoramente do que o necessário e, um tanto atrapalhada, manobrou o carro para fora da vaga.
Guiou em direção à casa de Carolina. O carro ganhou um pouco mais de velocidade, e o vento entrava pelo teto solar aberto. A estrada era amistosa e familiar.
Estacionou o carro atrás de um outro, fechou o teto solar e desceu.
Dois vasos com hortênsias ladeavam a entrada da casa. Clara tocou a campainha.
''Se ela não estiver em casa, terei que voltar para casa e lhe telefonar''. Mas, quase ao mesmo instante, ouviu os passos apressados de Carolina (sempre de saltos altíssimos), e em seguida a porta se abriu, e tudo ficou bem.
Foi a melhor das boas-vindas. As duas se abraçaram. Clara se sentia tão bem, tão aliviada, que quase chorara.
O relacionamento das duas era perfeito em todos os sentidos. Jamais discutiam ou se exasperavam uma com a outra.
Ficaram lá, sentadas no jardim, a tarde toda, bebendo cervejas e papeando.
Como sempre foi. Como sempre será.