terça-feira, março 27, 2012

A mudança lenta pode nos rasgar em pedaços

Embutida na capitulação suprema, havia um feixe de razões e angústias pessoais, conferindo permanência à depressão cósmica que lhe tirava o ânimo para resistir à qualquer coisa.

Naquele outono e no inverno seguinte, houve pródigos e portentos, mas a gente nunca os percebe a não ser muito tempo depois.

Ela, apesar de si mesma, de seus amigos e de seus conhecimentos, modificava-se. E por que não? As pessoas mudam e essa mudança chega como uma pequena brisa que agita as cortinas de uma janela, ao entardecer, e chega como o furtivo perfume das flores silvestres escondidas na grama. Essa mudança pode ser percebida por uma pequena dor, quando pensamos que estamos resfriados. Ou, também, pode-se sentir um ligeiro desprezo por aquilo que ainda ontem amávamos. Pode até tomar a forma de fome, que o amendoim não matará. Não é dito por todos que um dos maiores sintomas de descontentamento é o de comer demais? E não é o descontentamento uma das causas das modificações?

E onde começa o descontentamento? Pode-se estar convenientemente aquecido, mas treme-se. Pode-se estar bem alimentado, contudo a fome nos tortura. Pode-se ser amado, mas invejamos os outros. E para aguilhoar tudo isso lá está o tempo... o tempo bastardo. O fim da vida não está agora tão terrivelmente afastado... que se pode vê-lo, da mesma forma como se vê o final de uma linha traçada... e nossa mente nos diz: "Trabalhei o suficiente? Comi o bastante? Amei satisfatoriamente?" Tudo isto, naturalmente, é o legado pio da maior maldição do homem, e talvez sua maior glória. "Qual o significado de minha vida, e o que pode ela significar pelo tempo que me é ainda permitindo viver?"

Parece que os homens nascem com uma dívida que nunca poderão pagar, não importa o quanto se esforcem. Ela se amontoa em sua frente. Um homem sempre deve algo a outro homem. Se ele ignora o débito, este o envenena, e se ele tenta fazer algum pagamento o débito apenas aumenta, e a qualidade de seus donativos é a medida do homem.

Ela tinha a capacidade de olhar esse mundo cheio de excitações com olhos afáveis e desprovidos de crítica. Combinava as belezas marítimas com a mais bela das realizações humanas... a música.
Estando em paz consigo, fazia com que estivesse em paz com todo o mundo.