quarta-feira, novembro 23, 2011

Aqueles dias de ouro.

Enlaçou seu braço no dele e convidou:
- Vamos para casa?
- Vamos.
Ela apertou seu braço com força.
Ele sorriu, com um pouco de preocupação em seu olhar:
- Tu sabes que não gosto quando apertas meu braço desta maneira. Parece me pedir socorro. Fico preocupado.
- Eu sei, meu amor. - e sorriu.

Ao chegarem em casa, ele insistiu para que ela tomasse um banho demorado. Isso aliviaria a tensão que sentira no momento.
Sentindo-se bem mais reconfortada, ela acomodou-se no sofá da sala. Vestia uma camisa de seu amado e olhava absorta pela janela, enquanto tragava um cigarro.
Ele a procurara cheio de amor:
''Estou aqui, meu amor, e vou ficar pelo tempo que tu quiseres''
- Que tal para sempre? - sugeriu ela.
Ele concordou com um sorriso e um aceno com a cabeça.
Beijou-a com toda a delicadeza e controle como se ela fosse a criatura mais frágil desse mundo e que precisasse ser tratada com o máximo de cuidado.
Ela retribuiu a carícia e ajeitou-lhe os cabelos na testa. Bem de leve, traçou uma linha, com a ponta dos dedos, que desceu pelas pálpebras, passou pelas bochechas e contornou os lábios. Desejava tocá-lo, vê-lo e respirar o aroma familiar.
Ele acariciou-a na coxa exposta logo abaixo da barra da camisa. Sorriu ao ver que a mão tremia.
Tivera tanta saudade dele. Durante os dias e noites de solidão, ela havia sonhado com aquele momento de reencontro. Queria tê-lo entre os braços, amá-lo e satisfazer-lhe os desejos. Todos os momentos de separação haviam sido preenchidos por recordações saudosas e pelo desespero de não poder tê-lo. Mesmo agora, custava-lhe acreditar que a sua entrega fosse total.
Ele abraçou-a sôfrego e enterrou o rosto na curva de seu pescoço, de onde a voz saiu abafada:
- Tente ver se consegue escapar - provocou.
Havia muito que precisavam esclarecer e dizer um ao outro. Precisava fazer-lhe promessas, ouvir as suas e, acima de tudo, planejar o futuro. Porém, seus corpos já se comunicavam na linguagem natural do amor, e as palavras que deveriam ser ditas, passaram a ser supérfluas ante a comunhão física perfeita.

O olhar dela revelava a nudez do desejo e da sensualidade. Ele beijou-a na face e afagou-lhe os cabelos. Queria adorar cada centímetro daquele corpo e que aquele prelúdio fosse eterno, mas não podia ignorar a exigência da satisfação total. Com um meio sorriso, sussurrou:
- Tu te importas que a gente faça amor primeiro e depois converse?
Ela concordou em silêncio, puxando-o pelos ombros de encontro ao próprio corpo, porém, murmurou:
- Há uma coisa que preciso dizer antes.
Fazia tanto tempo que ansiava pronunciar as palavras simples de significado tão profundo.
- Eu te amo - sussurrou meiga.
Isso era tudo que ele desejava ouvir.
Lá fora reinava a ruína, mas, nos braços um do outro, eles construíram o próprio mundo. Amaram-se através da noite, e o sonho que tinham arquitetado havia tantas semanas era, finalmente, deles para a eternidade.

quarta-feira, novembro 16, 2011

60 revoluções por minuto.

Como se o dia prometesse ser excepcionalmente bom, acordei com ótima disposição de espírito. A luz dourada do sol, através das cortinas transparentes que cobriam uma das paredes inteiras do quarto, chegava até a cama e, com o farfalhar da brisa, parecia produzir centenas de diamantes que brincavam nas cobertas.
Adorava essa janela imensa que jamais fechava durante a noite para poder acordar com a luminosidade matinal.
Cantarolando baixinho, fui até a cozinha, passando por todos os cômodos da casa enquanto admirava a decoração e tocava um ou outro objeto mais querido. 
Em todos os cômodos o sol infiltrava-se através de janelas exageradas, e em cada um havia um relógio. Ao ouvir o tique-taque deles, eu mantinha a ilusão de estar no controle do tempo, embora fora consciente de minhas limitações.
Eram oito e meia da manhã, e estava certa de que seria um dos melhores dias da minha vida. Às nove, em ponto, quando o telefone tocou, convenci-me de que seria o pior.
As notícias só podiam ser péssimas, pensei desolada. 

Olhei em volta numa tentativa de recuperar o contentamento com que despertei. 

Há cinco anos, tudo não passava de um sonho nebuloso e distante. No entanto, como se o céu se abrisse, os tesouros começaram a cair sobre a minha cabeça. ''E se desaparecessem da mesma forma?'', indaguei, aflita. 
Apanhei-me mais uma vez com uma bolacha a meio caminho da boca. Devolvi-a depressa à lata. Sabia que estava sendo infantil ao me deixar dominar pela insegurança, meu pior defeito. 
Eu precisava reconhecer quão boa eu era. O céu havia-se aberto para cobrir-me com uma chuva de benefícios? Não! Tudo o que eu possuo é fruto de esforço e trabalho próprios, qualidades essenciais para se chegar ao sucesso.
Ninguém pode me tomar o que por direito me pertence.

Logo, recebi uma mensagem: ''Ainda bem que o tem bom humor não se foi junto com tudo que perdestes''.

Passei o resto da manhã tentando seguir esse raciocínio. 

sexta-feira, novembro 11, 2011

Só diga o que você precisa.

- Tu não compreendes - ela disse-me. - Não se trata dele, absolutamente.
- Ahn...
Voltou-se para mim e viu em meu rosto tamanha curiosidade, uma tal mania de conselhos, uma tal expressão de vampirismo. Asseverei, com gravidade:
- Pensas entrar para um convento?
Eu, embalei-me em longa dissertação sobre os prazeres da vida, os passarinhos, o sol, etc.
- Queres deixar tudo isso só por causa desta loucura?
E falei também sobre os prazeres do corpo, baixando a voz, cochichando:
- É preciso não esquecer.... que ''isso'' também tem importância.
Em suma, eu acabaria ali, lançando de forma que lhe descrevia os prazeres da vida. Seria possível que a vida se reduzisse ''àquilo'' para alguém?
Ainda por cima, ela se mostrou tão opulenta em lugares comuns, tão pronta à odiosa promiscuidade das mulheres, às confidências pormenorizadas, que a larguei ali mesmo na calçada, com alegre e súbita decisão. E resolvi, alegremente: ''Suprimos também Caroline. Caroline e seus devotamentos''. E para abrandar a minha ferocidade, tive vontade de cantarolar.

Passeei durante uma hora, entrei em seis lojas, discuti a torto e a direito, com desembaraço. Sentia-me livre, alegre mesmo, pois aquela cidade, agora, me pertencia. Ela pertencia aos sem escrúpulos, aos desenvoltos; eu sempre notara isso, porém de forma cruel, por falta mesmo de desenvoltura. Mas daquela vez era a minha cidade, a minha bela cidade dourada e categórica ''que nos pagava conforme a tratávamos''.
Exaltava-me e impelia-me qualquer coisa; provavelmente, alegria. E eu caminhava depressa, sentia um peso de impaciência, de sangue, nos pulsos, julgava-me ridiculamente jovem. Em momentos assim, de felicidade louca, tinha a impressão de atingir uma verdade muito mais evidente do que as pobres verdadezinhas tão reteiradas de minhas tristezas.