terça-feira, maio 24, 2011

Turn and face the strange.

A vida tinha seu lado injusto. E ele aparecera agora.

Sentiu-se deprimida. A vida não lhe oferecia um perfil maravilhoso para o futuro, mas continuava esperançosa. Não tinha dinheiro para comprar seus discos, seus mimos e seu cigarro; seu pai era uma lembrança perdida e sua mãe acabara de telefonar dizendo que sente saudades.
Odiava conformar-se, mas não tinha outra alternativa. Bater a cabeça na parede seria muita rebeldia. Não servia para nada mesmo. Que tudo fosse para o inferno! Ficaria trancada em seu cubículo que chama de apartamento, colocaria seus fones de ouvido e ouviria música num volume muito alto. Tão alto que a sua voz não conseguiria alcançar. Tão alto que corria o risco de ficar surda. Tão...

Estava sozinha, indecisa, num cruzamento solitário e varrido pelo vento e pelas primeiras gotas de chuva de uma noite que prometia ser gelada.
Tinha toda a semana pela frente.

quinta-feira, maio 19, 2011

Somos inatingíveis.

''Somos inatingíveis''. Era o que ele me dizia.
Por que tanto medo?

Um trovão que a acordara fez retumbar os vidros da janela.  A luz de um relâmpago desenhou um milhão de silhuetas no quarto. Cada forma imóvel transformou-se num fundo escuro e mutante, de tamanho impreciso.
(Muitas coisas horríveis aconteciam na sua cabeça segundos antes). Acendeu a luz.
O relógio marcava duas horas da madrugada daquela quinta-feira, dezenove.
Dezenove.
Dia dezenove.
Sempre o seu número da sorte, ou seu símbolo maldito. Nada de estranho.

Conhecia os motivos e fingia ignorá-los, embora em sua solidão, sua eterna, constante e densa solidão, repleta de sensações, não pudesse enganar-se.
O quarto estava cheio de objetos queridos que a encheram de paz, superando a agitação que sentira ao acordar. Seu cigarro, seus livros, as lembranças e fotografias, a cadeira, a mesinha, os desenhos.
Jogou-se para trás, fechou os olhos, porém não apagou a luz. Se pudesse escolher os sonhos, as histórias para preencher o tempo inútil do descanso... Gostava de sonhar, porque a liberdade de sua imaginação tinha um feitiço embriagador. Cada sonho era a anarquia da mente, a revolucionária revolta do seu inconformismo. Suas ideias escapavam de qualquer limite.
Saudade...
A saudade. O sonho. A noite.

Sufocou sua angústia e apagou a luz.