sexta-feira, dezembro 09, 2011

Questão de tempo.

Ventava um pouco, e cada vez que a porta se abria, para a entrada ou a saída de alguém os cabelos dela voavam-lhe no rosto. Ao erguer a mão pela terceira vez para afastá-los, prendeu a fivela do relógio na malha do vestido, na altura do ombro.
Todos os olhares convergiam para ela. Não tinha outra saída senão puxar a mão com força e arrebentar a malha do vestido, que continuava a prender o relógio. Abaixou o rosto e, antes de fazer o movimento desejado, sentiu dedos fortes e ágeis entre os seus, que, numa fração de segundo, soltaram-lhe a mão. Surpresa, levantou o olhar e se deparou com o de um homem cuja expressão era suave e alegre.
Como os seus, os olhos eram da cor de verde, só que de um tom diferente. Algo naquelas feições lhe era vagamente familiar. Os cabelos pareciam ter a tendência de cair um pouco na testa, e o corte os afastava das orelhas, estreitando-se um tanto da nuca. O conjunto todo era o de um rosto famoso.
Ficaram tantos dias longe que ela parecia ter esquecido suas feições. Apenas as lembranças no seu consciente. Agora ela lembrara: era o homem de sua vida.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

É o meu doce começo.

O jantar era composto por amigos, amigos de amigos e conhecidos destes amigos dos amigos.
Ela o esperava. Havia mais ou menos uns... vários dias que não se viam. E ela estava lá, sentada à mesa com pessoas que nem conhecia. Esperando.
Tentava ignorar as pretensiosas besteiras de um poeta, um cara muitos anos mais velho e que não tinha nenhum respeito pela impaciência dos outros. Ele estivera divagando sobre si mesmo por mais de uma hora e ela, a princípio, tinha escutado respeitosamente porque era do tipo de pessoa cujo comportamento adulto - em situações como essa - refletia a sua educação de criança; e quando criança, tinham lhe ensinado a ser polida.
Por outro lado, tinha um genuíno interesse por escritores mais velhos e, ficava sentada, fascinada, enquanto eles contavam suas histórias sobre arte e ambições (a fofoca, embora antiga, era deliciosa!) de quarenta anos atrás.


- Estás me esperando há muito tempo? - ele perguntou.
E subitamente lhe ocorreu que sim, ela estivera esperando havia muito tempo.
- Claro - ela respondeu distraidamente, notando o sorriso torto que a fazia se lembrar, embora de maneira nada desagradável, de um lobo rosnando, e se virou justamente quando o velho poeta ciumentamente estendia sua mão para chamar sua atenção para o hilariante, para ele, final da história. Ela riu e bateu no joelho, num gesto tão falsamente descontraído que logo a fez rir realmente pra valer. Encontrando os olhos de P.H. enquanto assim se divertia, notou neles um brilho particular que imediatamente reconheceu.
''Meu amante'', ela pensou, observando seus cabelos, seus olhos claros, tão sensíveis, protegidos pelo par de óculos, sua pele não era tão perfeitamente bronzeada quanto poderia ser, mas que definitivamente lhe agradava.