sexta-feira, outubro 28, 2011

Velhos hábitos morrerão lentamente.

Ele ficou constrangido, assumindo uma expressão digna que lhe caía mal. Eu o preferia alegre. Gostamos que as pessoas, às quais fazemos bem, vivam alegres. Isso nos cria menos escrúpulos.

Ele levantou-se.  Via-se que não suportava a presença daquela mulher. Senti vontade de rir. Eu também sentia certas antipatias físicas, mas era obrigada a escondê-las. Havia nele qualquer coisa de infantil. Pegou no copo, ergueu-o, inclinando para trás a cabeça, e engoliu o uísque de uma só vez. Eu me sentia como espectadora no teatro. Procurava convencer-me de que aquele não era o momento de esgueirar-me da cena, porém experimentava uma impressão de absoluta irrealidade.

Inclinou-se um pouco para a frente, com o copo vazio entre as mãos, fazendo girar o gelo com relativa cadência. Falava sem me olhar.
Eu escutava-o sem reagir.

Eu contemplava aquele grupo tagarela, branquicento e agitado em redor da mesa, e sentia-me invadida por uma hilaridade espontânea, enquanto pensava sempiternamente: ''Afinal, o que é que estou fazendo aqui?''

É medonho declarar, mas quando se conhece alguém, se conhece inclusive sua maneira de sofrer, e isso parece bastante aceitável. Propriamente aceitável, não; mas conhecido e portanto, menos assustador.

Parecia-me que doravante haveria entre nós de "irrepensável" ou mesmo de irreparável em qualquer novo ensaio de futilidade. Estava decidida, enfim, como uma jovem do século XVIII, a exigir-lhe reparação por um beijo.
É engraçado a forma como achamos que um beijo com amor cura tudo. E pensando bem, cura tudo mesmo. Ou quase tudo.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Velha história.

Viajávamos com um casal de amigos para o interior.
Pela janela do carro, olhávamos a grama. Era como um tapete, tão novinha, macia e funda.
O motorista fez, tão inopinadamente, a curva da rodovia para uma estradinha, e fui projetada contra P.H. Ele me reteve com ar decidido e terno.
- Tu pareces um pássaro - comentou nossa amiga, voltando-se e olhando-nos. Era um olhar distinto e correto, que assumia aquele ar cúmplice e aprovador. Parecia significar, simplesmente, que eu ficava muito bem assim, nos braços de P.H., e que eu era enternecedora. Aliás, agradava-me bastante ser enternecedora; isso evitava, muitas vezes, que eu tivesse que acreditar, pensar e responder.
- Um pássaro velho - disse eu. - Às vezes me sinto muito velha.
- Eu também - replicou. - No meu caso é mais admissível.
Todos rimos.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Qual é a pior coisa que eu posso dizer?

Eu transformava tudo aquilo que havia me acontecendo numa bela equação árida, cínica, muito adequada. Além disso, sentia-me extraordinariamente disposta. Aceitava todas aquelas tristezas, todos aqueles conflitos, todos aqueles prazeres em marcha, aceitava tudo previamente, com derrisão.
Li até o fim da tarde. Larguei o livro, apoiei a cabeça no braço, fiquei contemplando o céu passar do tom malva ao cinzento. E inopinadamente me senti fraca e indefesa. Minha vida fluía, e eu não fazia nada a não ser troçar.
Ter alguém assim contra o meu rosto... Para retê-lo, apertá-lo de encontro a mim, com a lancinante violência do amor...
Me levantei e saí.

Como toda pessoa que vive de suas comédias inacabadas, não podia suportá-las senão escritas por mim. Apenas por mim.
De mais a mais, eu sabia muito bem que aquele divertimento - se divertimento havia - era perigoso.

E, como todas as pessoas que mentem com facilidade, eu era sensível e sincera às atmosferas onde tinha que desempenhar o meu papel.

Bom, durante todo aquele tempo eu estava tentando perder uns quilos de qualquer maneira. Isso, minha pressão sanguínea e o açúcar me fizeram ficar bem entretida. Eu sentia que, se conseguisse emagrecer um pouco, a vida seria um doce...

- Deixa eu sentar no teu colo enquanto essa salada que comi faz efeito.
Ele ri.
Mas tentar emagrecer toma toda a atenção que eu teria pra gastar. Finalmente encarei o fato de que minha gordura é a mágoa que eu não admitia, nem mesmo pra mim mesma, e que tenho tentado me livrar dela há anos.

De repente, o tempo voltou, o interesse era outro. E houve de novo os minutos, as horas, os cigarros.
Eu ainda era a Dona Mariana Ribeiro Ninguém-de-Lugar-Nenhum. Mas eles ainda querem o que eu quero, só que não é meu. Parecem um bando de cães de caça tentando engolir um cheiro.

''Tu sempre tem cara de sono'', ele diz.
''Mas não se pode ficar dormindo pela vida sem querer viver'', eu respondi.

Não adianta se lamentar. Seja o que for, tem muito mais em algum lugar.
O truque está em viver o suficiente para poder colocar os seus blefes de jovem em uso.
No fundo, viver era arranjar-se o mais satisfatoriamente possível. Parecia tão fácil, agora.

sábado, outubro 01, 2011

S-a-u-d-a-d-e.

Saudade de envolver meus braços no teu pescoço e te dar um beijo no cantinho da bochecha; de sentir o cheiro da tua nuca; de tentar te distrair quando tu quer assistir TV.
Saudade de quando tu morde o polegar e eu dou uma gargalhada, porque sempre acho isso muito infantil.
Saudade de te ver andando pela casa sem camisa, com aquele cheiro de banho recém tomado.
Saudade de acordar deitada no teu colo enquanto tu ainda tá assistindo aqueles filmes chatos.
Saudade de ouvir tua voz, de te ouvir rindo das coisas imbecis que eu falo, ou quando tu diz ''ai, guriiiia'... 
Saudade das cócegas, dos beliscões, dos cafunés e dos abraços.
Saudade de te incomodar, de te beijar, de te morder e te fazer rir.
Saudade de dormir ao teu lado, de sentir teu corpo bem junto ao meu...
Saudade de quando tu tenta me tirar da cama logo cedo, e eu, preguiçosa, quero ficar dormindo o dia todo, aí tu fica irritado e diz que o dia tá lindo demais pra gente ficar na cama, mas eu sempre acabo ganhando.
Saudade de cantar e de assoviar pra ti.
Saudade de lutar contigo e de te ouvir reclamar feito um velho.
Saudade, também, do teu sorriso, dos teus olhos claros e da tua boca linda.
Saudade de pegar na tua mão, e apertar com força sempre que preciso de ti. 
Saudade de ouvir teus elogios, e tu dizendo que me ama quando eu menos espero.
Vem logo, amor.