sexta-feira, outubro 28, 2011

Velhos hábitos morrerão lentamente.

Ele ficou constrangido, assumindo uma expressão digna que lhe caía mal. Eu o preferia alegre. Gostamos que as pessoas, às quais fazemos bem, vivam alegres. Isso nos cria menos escrúpulos.

Ele levantou-se.  Via-se que não suportava a presença daquela mulher. Senti vontade de rir. Eu também sentia certas antipatias físicas, mas era obrigada a escondê-las. Havia nele qualquer coisa de infantil. Pegou no copo, ergueu-o, inclinando para trás a cabeça, e engoliu o uísque de uma só vez. Eu me sentia como espectadora no teatro. Procurava convencer-me de que aquele não era o momento de esgueirar-me da cena, porém experimentava uma impressão de absoluta irrealidade.

Inclinou-se um pouco para a frente, com o copo vazio entre as mãos, fazendo girar o gelo com relativa cadência. Falava sem me olhar.
Eu escutava-o sem reagir.

Eu contemplava aquele grupo tagarela, branquicento e agitado em redor da mesa, e sentia-me invadida por uma hilaridade espontânea, enquanto pensava sempiternamente: ''Afinal, o que é que estou fazendo aqui?''

É medonho declarar, mas quando se conhece alguém, se conhece inclusive sua maneira de sofrer, e isso parece bastante aceitável. Propriamente aceitável, não; mas conhecido e portanto, menos assustador.

Parecia-me que doravante haveria entre nós de "irrepensável" ou mesmo de irreparável em qualquer novo ensaio de futilidade. Estava decidida, enfim, como uma jovem do século XVIII, a exigir-lhe reparação por um beijo.
É engraçado a forma como achamos que um beijo com amor cura tudo. E pensando bem, cura tudo mesmo. Ou quase tudo.