Chega tarde à festa e só surpreende pedaços de corpos, muitos pedaços, separados, disformes, atravacando seu caminho. Pernas, braços, olhos, muitos olhos dando reflexos multicoloridos ao ambiente escuro. Um dos olhos o reconhece e se encaminha para ele, vai aos pulos e se ajeita no bico do sapato... Com medo, John olha para ele: um dos olhos de Lucy, verde, verde, grande e úmido, como se ela acabasse de chorar. Mas seu olho está vivo, não traz marcas vermelhas deixadas pelas lágrimas. O verde, o branco e o círculo negro bem definidos, marcantes. O olho não está triste, embora sem o companheiro. Onde estará o outro, as outras partes de Lucy? Precisa encontrar-se com ela, salvá-la, salvar o resto do corpo. Mas a luz está turva, leitosa. Os olhos só se refletem nas paredes, nunca no chão de corpos divididos. Eles parecem buscar no alto outros olhos, piscam, mudam de direção, não páram num só espaço. O olho de Lucy ficou preso nos de John, e os de John, no de Lucy. O ambiente vai afogando o homem, luzes de olhos na parede, luzes vermelhas no palco fundo, sons aloucados e um bolo na garganta impede seu grito. Ele grita: ''Lucy-Lucy-Lucy'', mas o som repercute apenas dentro dele. Os rapazes do conjunto pop permanecem frenéticos, incansáveis, barulhentos. Cantam desesperadamente uma canção que ele não entende, quase uivos. E a luz vermelha vai apagando e acendendo, mudando de tonalidades: forte exageradamente, quase cegante, ou indistinta. Luz e sombras nos corpos deles, nas estranhas cabeleiras longas que sobem e descem, volteiam inquietas. À medida que a música fica mais louca, sente que nuas pernas, lisas e cabeludas, se movimentam dinamicamente, não no palco, mas ao seu lado. Só pernas, só o seu corpo no meio delas. Duas estão encostando ao seu corpo, se esfregando nas suas pernas em ritmo vertical e horizontal. Ele tem medo e desejo, muito desejo, muito medo. Suas mãos descem até elas, são as longas pernas de Lucy, tem certeza de que são. Já tinha um olho, agora, duas pernas, muitas esperanças. Logo outras partes reaparecerão e, como fazia com os brinquedos de criança, montará todo o corpo de Lucy, peça por peça. E Lucy renascerá em suas mãos, de suas mãos. O corpo de Lucy é sua geografia constante e nada desconhece dele. É terreno moldado em suas mãos e só ele sabe dos vales, montanhas e planícies daquele corpo. Ouve estrondos de palmas, vivas, barulho alegre, gritos. Uma mulher, maior que todos, mas com rosto de criança, aparece nua, canta e dança, possuída pelo demônio. Enquando ela canta, todos se calam. Depois novos gritos, palmas, vivas. A voz volta a imperar. Não consegue deter uma nota ou um verso, mas é música e a voz emite palavras estranhas, sons onomatopaicos e selvagens. Crescem os corpos ao fundo, mas não sabe distinguir fisionomias e sexos. Estão nus e os corpos vão sofrendo metamorfoses: surgem lisos como de moças ou adolescentes e vão criando pêlos enormes que crescem, crescem, até surgirem os corpos novamente lisos. A voz vai ficando triste, mais triste, mais choro que canto. Parece sinos desordenados, tristes, fortes. Lucy, Lucy, por que você inventou esta festa? Por que o convidou com tanto empenho? Onde estão as outras partes do seu corpo, onde? É tão confuso. Sente-se abafado, sem luz, neste fundo de poço imenso, cheio de fantasmas aloucados, e sem definição. Está confuso e não compreende as mãos surgindo, sem os braços enormes, nítidas. As mãos correm pelo corpo dele, tiram suas roupas, Lucy... Está excitado, muito excitado. As mãos, as pernas, o olho, um olho só, as mãos revisitando seu corpo muitas vezes, como uma amante saudosa. Ele tem partes do corpo dela, necessita uní-las com as demais, até recriar ela completa e mais velha. Lucy lhe disse muitas vezes que nasceu nas mãos dele, elas descobriram seu corpo. Agora elas vão montá-la e será divino vê-la nascer delas (novamente). Mas não excite-o assim, ele precisa concentrar nessas partes de tantos corpos para descobrir as que lhe faltam. Precisa, urgentemente, de seu corpo completo, reconstituído. Não quer que seu corpo se relaxe, depois do orgasmo provocado por suas pernas nas dele, suas mãos correm o corpo de John, seu olho hipnotizando-o. Sente um calor nos lábios, primeiro o vem uma doce repugnância. Olha e alegremente descobre os lábios dela, sua boca inteira, dentes, sorriso. Seus lábios queimam os dele, saem da boca e mordem o ombro dele, beijam seus braços, o rosto. Aos poucos, outras partes surgirão e será mais fácil reconstruí-la, Lucy. Não pode se excitar tanto. Se interromper seus desejos, não montará seu corpo, peça por peça, como na infância. Quer calma e ar puro para montá-la melhor ainda do que era antes. Tudo seria mais fácil se houvesse um ambiente aberto, flores, muitas flores, cantos de pássaros ou uma música de Bach, tocada baixinho. Mas esta maldita barulheira, esta alucinação, este poço escuro e triste e o sexo em desespero impedem de concentrar-se na obra. Outras partes vão surgindo mais, elas se movimentam dinamicamente como a música tocada. Seus movimentos são lentos e querem uma construção minuciosa, como a de um poeta buscando palavras exatas para um poema maior. Ele precisa montar Lucy, seu poema. Precisa do corpo completo para completar seu ato de amor. Quer seu corpo colado no dela, sem faltar um detalhe. Não quer se satisfazer com as partes disponíveis apenas. As mãos de Lucy se juntarão às suas, agora elas estão presas nos braços e eles tocam o corpo de John. Mãos, boca, braços, pernas excitando-o e ele querendo deter cada parte para formar o todo. Agora são dois olhos nos dele. Por que esta festa maluca, por quê? Eles estavam tão felizes e calmos, isolados das pessoas, ambientes e coisas fora do mundo. Criavam a vida de uma maneira calma, sem luzes, cores, festas, palpites, fugas. Longe, tão longe das mentiras criadas no tempo de solidão, antes de um se descobrir no corpo do outro. Por que esta festa, Lucy? Será que precisava de fugas? Ele não entende, não consegue... John pede para que ela tire a mão de sua boca, ele quer falar, perguntar. Quer porque dói muito e não encontra resposta para o insólito disto tudo. Os dois olhos, a boca, agora o nariz e cabelos, as mãos, os braços, as pernas, o corpo vai se recompondo, mas sente vontade de parar com tudo e deixar que seu corpo cansado tenha paz. Os beijos de Lucy, suas mãos no corpo dele, as pernas nas dele, não, Lucy, agora não. Os seios, onde estão os seios? São fundamentais para maior harmonia e beleza. Ele suplica que não alise seu corpo agora, por Deus, ele não agüenta, não esfregue as pernas assim, por Deus, Lucy. Precisa dos seios, das nádegas, do que lhe falta... E seu corpo está queimando, resistindo, esfregando-se ao dela. Não, precisa concluir, não pode desistir. Quer e não quer, não pode. Agora, Lucy, pare um pouco, ele está completando o poema, com poucas palavras mais, não deixe que as partes se unam, John quer montá-las uma a uma, peça a peça, bem dispostas, como as palavras do maior poema de amor que alguém já fez. Impossível, não pode, não há mais forças, nem tempo, nem nada. Que as partes se encontrem nos gemidos finais. Já ouve o gemido de Lucy e o hálito dela quente ao ombro dele, voaram, voaram, voaram, viagens, sons, cores, viagens, cores, sons, voaram, voaram. Seu corpo completo completa o dela. Os corpos trêmulos se compuseram juntos, são deuses, dois corpos, um só corpo e Lucy Lucy.
A música baixinha, a claridade da lua no céu, fora do poço dois corpos estendidos. Um sono pesado, sua cabeça pendida nos ombros de John, um beijo na testa, diversos beijos em seu corpo, agora completo. Tomba cansado e sonha, sonham.