Acariciando o queixo, desenhava com uma mão, assuntando com as tripas e respirando com o coração.
Horas a fio pesquisava, firmava o traço e os rabiscos soluçavam sobre o papel.
Tudo começou com um ponto. Um ponto solto, vermelho, solitário, no meio da folha. Depois, uma linha a percorrer o papel em arabescos barrocos. As curvas loucas, preenchenco o vazio, desenrolando-se e curvando-se novamente para todos os lados. Finalmente, as manchas pesadas espatifando-se e dissipando os intrincados ornamentos.
Os gatinhos sapecavam em suas pernas, de fome.
Esfregando pesadamente suas pantufas felpudas pelo piso gelado da sala, vai até a cozinha. Vazia e escura. Já era quase dia. Aproveita e bebe um pouco de uísque. Ele se empolga, senta na mesa e bebe duas garrafas. Em instantes, dormia um sono etílico.
O telefone toca e ele, após acordar assustado, sobe até o quarto para atendê-lo. Era engano. Fica por lá e continua a escrever.
Quando se deu por satisfeito, no quarto silencioso, um enorme sorriso iluminou o papel. A carta estava cerrada. Mandaria no dia seguinte. No mesmo envelope, o desenho que fizera.
Todas as cartas de amor são parecidas. Dizem as mesmas coisas, repetem as mesmas palavras, as mesmas superfícies e idênticos conteúdos.
Cartas de amor não dizem nada. Cartas de amor são palavras parasitas. Tal qual um vírus inanimado quando solto no ar, manifestam-se quando penduram seus mistérios no receptor.
E, quando encontram o único e adequado terreno, meu Deus, o que é essa avalanche? Meu Deus do céu, faça-me escravo desta química!
De que me importa o Deus do céu, quando se ama?
Papo rápido no uatizape.
Há 3 semanas