sábado, janeiro 30, 2010

Insônia.

Naquela noite, eu não conseguia dormir. Vira de um lado, vira de outro. Troquei de travesseiro, de pijama, de pensamento e nada. Lá pelas tantas, resolvi levantar. Beber água, quem sabe, ler ou ouvir música, tomar banho ou arrumar o armário. Vaguei sem rumo pela casa, tomando decisões e desistindo delas. Abri a porta que dava para a rua. O ar fresco da noite entrou, eu saí. Deitei na calçada e olhei para o céu. Poucas estrelas, nenhuma Lua, o pensamento ágil, nervos tesos.
- Ei!
Alguém me chamou e eu não estava sonhando. Olhei para os lados, sentei, com o coração saltando.
- Tu mesmo, aqui, aqui!
A voz parecia vir do alto. Levantei.
- Aqui, na árvore. Olha para cima.
Aproximei-me da árvore, a única que sombreava aquela pequena calçada. Fitei longamente os galhos, e lá estava, trepado em um galho, um menino. Eu não distinguia direito suas feições. Cheguei mais perto.
- Por que tu não tá dormindo?
- Quem é tu? O que tá fazendo aqui?
- Eu sou o Caio. E tu é o Mário, né?
- Sou o Mário, sim. Mas o que tá fazendo aqui?
- Tu tá sem sono?
- Tô sim. Mss porque diabo tu tá aí, trepado nessa árvore?
O menino deu um pulo e caiu a meus pés, dando uma cambalhota. Levantou os braços para o alto, como se fosse um ginasta olímpico e curvou-se em um longo e penetrante cumprimento. Ele devia ter mais ou menos oito anos de idade; os cabelos despenteados e longos que lhe chegavam aos ombros. Fiquei alguns minutos observando aquela aparição. Um macacão escuro cobria-lhe os pés descalços.
- Adivinha o que eu tenho em mãos?
Com o peito bombado e os braços cruzados nas costas, Caio olhava para mim, interrogativo.
- Nas mãos?
- Sim, aqui atrás. Primeiro na mão esquerda.
- Não sei, nada.
- Nada não vale. Seu eu lhe perguntei o que eu tinha na mão esquerda é porque há algo. O que tenho na mão esquerda?
Não sei de onde tirei a resposta, mas joguei em tom de desafio:
- Um texugo vermelho.
O menino sorriu calmamente e retirou a mão das costas, segurando pelo rabo um texugo vermelho. Nunca tinha visto um antes e sequer sabia ao certo o que era um texugo. Ele pousou o animal no chão e perguntou novamente:
- E na outra?
Desta vez, pensei com calma, intrigado e ao mesmo tempo seduzido pela brincadeira.
- Hum, uma torradeira.
- Uma torradeira? Como assim uma torradeira?
- Uma torradeira de pão, ora bolas!
- Mas como assim uma torradeira de pão?
Que menino chato!
- Uma torradeira, grande, com os dois lados de um croissant amanteigado, assando.
O menino sorriu e tirou de trás, aquilo que me parecia agora natural: uma torradeira de pão. Ao pousá-la no chão, ele ejetou duas fatias de croissant. O menino pegou uma no ar: sentou no chão e começou a comer. Sentei a seu lado, enquanto ele apontava para a outra metade, com o queixo. Peguei o croissant quentinho.
- Por que tu não tá conseguindo dormir, Mário?
- Não sei direito. Às vezes acontece.
- É verdade. Comigo acontece também. Aliás, sempre. Nunca durmo.
- Nunca?
- Nunca. Vamos brincar mais?
- Brincar?
- É, brincar.
- Tá bom, mas primeiro tu me diz o que tá acontecendo aqui?
- Brincando contigo, ora bolas.
Sorri com o ''ora bolas'' provocativo do menino. Ele caiu numa gargalhada sonora, sacudindo o corpo pra trás. Também gargalhei.
- Vem aqui. Tenta me pegar.
O garoto deu um pulo e começou a correr pela calçada. No início, tentei segui-lo com os olhos, ensaiando alguns passos, para depois começar a correr também. Ele corria devagar, olhando para trás. Quando eu estava para pegá-lo, ainda um pouco apreensivo em tocar aquela aparição, ele deu um grito, agarrou-se com as mãos no galho da árvore e ficou de pé, acima da minha cabeça.
- Vem me pegar, vem!
- Desce daí, menino, tu vai cair.
- Vem me pega, vem.
Dei um pulo e agarrei o galho. Balancei ridiculamente, até cair com a bunda no chão.
- Tu tem que querer pular, senão não consegue.
- Engraçadinho tu... Como assim, ''querer''?
- Querer quer dizer fazer de conta que tu é um macaco ou um canguru. Tenta aí.
- Não, chega. Não quero mais brincar. Chega.
- Por quê?
Caio desceu da árvore e sentou-se ao meu lado. Colocou a mão no meu ombro e olhou para mim, com o rosto quase a me beijar. Senti seu sopro. Ele estava sério.
- O que é isso no teu pescoço?
- No meu pescoço?
- Sim, aqui.
O garoto colocou a mão por dentro do meu colarinho e puxou de lá um guarda-chuva. Tomei um susto.
- E aqui? Aqui? Aqui?
A cada palavra, ele tirava dos bolsos do meu pijama uma batedeira de maionese, um amortecedor de carro etc.
Eu comecei a rir, e ele pulou em cima de mim. Rolamos na calçada. Rolamos e rimos, rimos e rolamos.
Acordei molhado pelo orvalho da manhã.
Deitado na rede, um texugo vermelho roncava, e a gargalhada de um menino brincalhão ainda ecoava pela rua adormecida.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

O que você vai ser quando crescer?

- O que tu quer ser quando crescer, Alceu?
A mãe saiu para trabalhar. O pai também saiu, para nunca mais voltar. Alceu levantou e saiu para a rua. Caminhou um pouco, devagar, olhando a pipa vermelha que rodopiava no céu. Numa laje ele sentou e ficou ali olhando o mar, lá longe.
- Fala aí?
- E aí?
Osmar chegou, sentou ao lado de Alceu, olhando o mar, lá longe. Alceu e Mateus cresceram. Em cima da laje, olhando o tempo passar.
- O que tu vai ser, depois daqui, José?
Era uma família grande e José nem sabia ao certo quantos irmãos tinha. Saiu de casa no meio da tarde, correu pela rua e foi bisbilhotar a vizinhança.
- Quem comeu a Carol?
- O Pedro.
Fernando chegou e ficaram ali, falando da vizinhança. José e Osmar cresceram. Nas ruas da favela e, de vez em quando, na cama da Carol.
- Onde tu quer viver um dia, Garça?
Garça tinha um irmão mais velho, o Paulão. E Paulão vivia de treta com a polícia. Garça saiu de casa e foi levar uma encomenda pro Paulão.
- Vamos pra praia.
- Mais tarde. Agora não dá.
Rafael chegou e ficou ali, fumando um. Garça e Rafael cresceram. Fazendo avião para o Paulão até ele morrer e continuar depois para Prego, Cabeça e Bocão.
O que você vai ser quando crescer, Alceu? Osmar? Garça? Fernando?
Alceu, urso polar, bem grandão com muitas focas para se saciar.
Osmar, o cometa Halley que só passa na Terra de vez em quando que é para não ficar com nojo.
José, um caveleiro medieval com mil mulheres de cinto de castidade a esperá-lo no seu harém da Dinamarca.
Fernando, uma flauta de ouro na boca de uma virtuosa da Orquestra Sinfônica da Romênia.
Garça, maquinista de metrô no Japão, de luvas brancas e sashimi na barriga.
Rafael, um saco de pancada, um adolescente morto, assassinado na porta do barraco, no morro à beira-mar.

sábado, janeiro 23, 2010

Because you're young, como já diria Mr. Bowie.

Um dia, Rafael acordou mal-humorado. Não sabia ao certo por quê. Talvez fosse o tempo, escuro, pesado lá fora. Têm dias assim, em que uma perturbação se esparrama nas tripas, no coração, na alma. Um vácuo incipiente. Um vazio sem nome, sem diagnóstico. Tudo num pretume só.
Rafael, caminhou na casa. Banho ou café da manhã? Sair ou não sair? Até que um pequeno objeto jogado no chão despertou sua atenção. Ele se abaixou e olhou para aquela pequena cápsula cromada. Do tamanho de um botão, o objeto tinha uma face arredondada e outra plana. Rafael foi até a cozinha, enfiou uma fatia de pão na torradeira e descansou o objeto sobre a mesa.
A torrada saltou. Rafael, de susto, estremeceu. O objeto agitou-se também. Tudo ao mesmo tempo.
Rafael foi até a geladeira e serviu-se de leite. Voltou para a mesa, bebendo devagar. Ao sentar-se, puxou a cadeira que rangeu no chão. A cápsula virou-se sozinha sobre a mesa. Rafael aproximou-se para olhar o objeto. Tossiu. A cápsula saltou. Tossiu de novo, e ela se pôs a girar. Bateu palmas, o objeto saltou novamente, mas permaneceu na frente do olhar embasbacado de Rafael. E assim ficou.
Mais palmas, e a cápsula cresceu, cresceu, cresceu. Pousou girando sobre o fogão. Rafael batia palmas, tossia, assoviava, até que uma pequena fenda se abriu no objeto que já tinha o tamanho de uma panela. De seu interior, uma luz azul atingiu o rosto do guri.
E, lá de dentro, saiu um pequeno ser alado, azul, que voou a alguns centímetros do rosto de Rafael.
- Oi.
- Oi.
- Como tu te chama?
- Rafael.
- Quer dar uma volta, Rafael?
Foi assim que Rafael entrou na nave cromada de vorticianos, habitantes de um planeta muito distante, para além da Via Láctea. A nave era toda forrada de um espesso carpete azul. No centro da cabine principal, enormes almofadas de espuma azul esparramavam-se. Do teto, pendiam gotas de cristal azul que cintilavam em mil fogos azuis. Em toda parte, vorticianos voavam em seus afazeres.
Os vorticianos eram um povo muito guloso e, assim que Rafael entrou na nave, foi imediatamente convidado a sentar-se à mesa. Um enorme pudim azul coberto de confeitos azuis tronava no centro.
- Coma, Rafael.
- Eu não tô com muita fome.
- Então vem cá, vou te mostrar uma coisa.
Rafael e Lup, o comandante da nave, foram até uma enorme janela que se debruçava em um dos lados da nave. Lup abriu as cortinas de renda azul.
- Veja, Rafael.
E Rafael viu. Primeiro o piso laranja da cozinha, depois a porta vermelha da geladeira, a frente escura do abacateiro do quintal e um enorme céu azul. E mais céu, azul também.
- Rafael, tu conhece a nossa história?
- Não.
- Então, escuta.
Rafael conheceu a história do planeta azul, onde tudo era azul, até a gema do ovo, até as laranjas, até o céu-da-boca e o arco-íris.
- Viemos para a Terra, seu planeta, para aprender.
- Aprender o quê?
- Aprender o laranja, o vermelho e a cor de abacate.
Rafael exclamou:
- Eu gosto de amarelo.
- Amarelo? Como é amarelo?
- Amarelo é a cor da minha mochila, do meu caderno, do tapete do meu quarto. Amarelo é a cor que vejo quando fecho os olhos e aperto assim bem forte. Entendeu?
- Não.
- Então, vou te mostrar.
Rafael tirou do bolso da calça uma pequena caixa e começou a pintar de amarelo, o enorme carpete azul da nave, as almofadas azuis, o pudim azul, a cortina azul.
Além da Via Láctea, tem um planeta, que aprendeu, na Terra, o amarelo.
E, aqui embaixo, Rafael também aprendeu. Aprendeu que, quando a gente acorda triste, com o preto a corroer-nos o espírito, é só lembrar-se das cores e pintar o mundo como ele é: azul, amarelo, laranja, vermelho e verde abacate.

domingo, janeiro 17, 2010

Palavras.

Há palavras que são mais do que palavras. Elas deveriam ser promovidas a outra qualificação que as diferenciasse das demais.
Por exemplo, a palavra telefone ou colher ou ainda fêmur não são certamente da mesma natureza que palavras como dor, saudade ou coração.
Existem palavras de natureza funcional que podemos chamar de protopalavras. Elas têm uma definição simples e inequívoca. Elas são úteis para diálogos simples ou textos descritivos. Por exemplo: a palavra automóvel na frase: "O automóvel vinha veloz pela estrada que descia até o mar".
Há também as palavras expansíveis, voláteis e temporais que denominamos simplesmente de palavras-palavras. São aquelas que utilizamos para sugerir o estado das coisas. As palavras-palavras são as mais comuns. Considere a palavra frio. A frase: ''O frio vinha veloz pela estrada que descia até o mar'' sugere um estado passageiro, mas também pode dar abertura a interpretações e conteúdos imagéticos.
Finalmente, as suprapalavras são as que simplesmente não têm definição. Ou melhor, a definição só existe pra quem as pronuncia, mas elas não podem ser jamais entendidas pelo interlocutor na exata dimensão em que foram expressas. Por exemplo, amor. Na frase: ''O amor vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', é impossível entender de que amor estamos falando.
Numa graduação simples, podemos dizer que as protopalavras são aquelas que não modificam o sentido das outras palavras da frase. As palavras-palavras têm um poder limitado de fazê-lo, e as suprapalavras podem fazê-lo de forma infinita.
Vamos voltar ao nosso exemplo.
Quando dizemos: ''O automóvel vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', isso significa que o que significa sem nenhuma margem interpretativa. O automóvel define ainda o sentido das palavras veloz, estrada e mar. Se é um automóvel, a velocidade se refere, portanto, a um fenômeno físico; a estrada é uma via carroçável; e o mar é um acidente geográfico. Tudo muito preciso e de simples compreensão.
Já quando dizemos: ''O frio vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', o sentido sugerido pela palavra frio pode modificar moderadamente as outras. Podemos estar nos referindo ao frio climático que descia montanha abaixo, para afugentar os veranistas seminus na praia. Mas também podemos estar falando de um caminhão de gelo que ia suprir os mesmos banhistas da necessária refrescância para suas cervejas. Ou ainda pode ser o frio da água da cachoeira que se descabela até jogar-se no mar. As versões são simples; no entanto, elas têm um relativo coeficiente metafórico.
Mas quando dizemos: ''O amor vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', quantas interpretaçãoes não são possíveis? Inúmeras, incontáveis, infinitas. Tantas, tantas que sequer somos capazes de enumerá-las. Mas o que faz a diferença aqui é que aquele que diz ou escreve a frase e dá um sentido preciso a esse amor. No entanto, os significados são tão variados quando o número de ouvintes ou leitores que tropeçarem nela.
A suprapalavra amor modifica com uma extraordinária alquimia o sentido de veloz, estrada, mar e tem o incrível poder de transformá-las em palavras-palavras ou até mesmo em protopalavras.
Assim, veloz pode significar acelerado, apressado ou afobado, mas pode querer dizer ainda arrasador, assassino, arrebatador e, nesse sentido, a palavra veloz transforma-se em uma suprapalavra. E uma vez suprapalavra, a protopalavra estrada também pode ser promovida, assim como a palavra-palavra mar.
Críticos costumam dizer que essa teoria é completamente inútil, uma vez que todas as palavras podem ser simultaneamente protopalavras, palavras-palavras ou suprapalavras, dependendo do seu contexto na frase. Ou melhor, todas as palavras são suprapalavras de alguma forma e, portanto, essa gramática é absurda.
Mas poucos entendem o real significado. A intenção é justamente confundir e mostrar que não se deve ler para entender, mas ler para sentir. Não se deve jamais tentar decifrar a intenção da escrita, mas apenas extrair o sentido particular, individual, único da química que se opera na leitura.
Se fôssemos capazes de falar apenas com protopalavras ou no máximo através de palavras-palavras, tudo seria mais simples. Não haveria mal-entendidos.
Mas o criador dessa tese não queria saber de moleza e colocou na boca dos humanos as suprapralavras. Malditas sejam!

sábado, janeiro 16, 2010

Picadinho.

- Era tudo picadinho, picadinho.
- Um estrogonofe? Cenoura ralada? Couve miúda? Alho batido?
- Não, não é comida não.
- Então, é um quebra-cabeças?
- Que tipo de quebra-cabeças?
- Daqueles que a gente brincava, sabe? Aqueles quadros horríveis dos pintores lá, ou então as paisagens de outono.
- Não, não. Vou falar de novo. Picadinho, entendeu?
- Entendi, mas o que eu tenho que adivinhar mesmo?
- Que picadinho era esse?
- É mesmo. Bom, pode ser, então, um picadinho de confeti? Ou de areia da praia, daquele bem fina?
- Nada disso.
- Já sei! Quando o barbeiro varre o chão e pega um monte de cabelos de todas as cores, que dá vontade de pegar a fazer uma almofada?
- Não.
- Picadinho... picadinho. Pode ser, então, que seja uma folha de papel que a gente dobra, dobra e dobra mais. Depois recorta tudo direitinho. Daí dobra um dos pedaços e corta de novo até quando der. É isso?
- Não.
- Acho então que é quando se corre muito, sobe e desce, desce e sobe. No final, na hora de pedir um copo d'água pra mãe, sai tudo assim: Mmmm dddd aaaa uuuuuu mmmmm cocococo popopopop d'aaaaaaaa guaguagua?
- Isso é picadinho, mas não é esse não.
- Então, é uma coisa de maluco sociopata? Aquele fulano que partia as pessoas, sabe, daquele filme?
- Cruz credo! Não!
- Um picadinho de cubo mágico? Ou, já sei. Da prova de matemática por causa da nota ruim?
- Podia ser, mas não é.
- Então, é como quando chove numa folha de papel manteiga? Picadinho de chuva?
- Não.
- Desisto.
- Como assim?
- Ué, não sei que picadinho é esse.
- Então, é minha vez de novo.
- É. Que jeito!
- Posso ir?
- Pode.
- Era grandão, enorme. Maior que tudo.
- Um elefante? Um mamute? Um jumbo?
- Não.
- Então, desisto.
- De novo?
- De novo.
- Por quê?
- Porque assim nunca dá pra ganhar de ti.
- Como assim?
- Tu inventa tudo. Não joga limpo.
- Não invento não.
- Inventa.
- Não invento.
- Inventa.
- Não invento.
- Prova, então.
- Provo sim.
- O que era esse picadinho?
- O picadinho?
- Sim, o picadinho, tudo picadinho?
- Ah, o picadinho era tudo.
- Tudo? Não falei que tu não sabe? Inventa tudo.
- Não invento não. Eu disse, picadinho era tudo.
- Tudo?
- Sim, tudo.
- Mas tudo não é picadinho.
- É sim.
- Não é.
- É. O que é tudo?
- Tudo é tudo.
- Então, se é tudo, podia ser qualquer coisa que eu disse antes.
- Não. Porque qualquer coisa não é tudo. Tudo é tudo, tu disse.
- Não entendi.
- Se tudo é tudo e não qualquer coisa, então o tudo é picadinho de qualquer coisa, de todas as coisas.
- E todas as coisas, então, são um picadinho?
- São. Tudo é picadinho. Tudo.
- Então, maior que tudo também é tudo?
- Isso.
- Então, esse picadinho é tudo, e esse tudo é maior que tudo?
- Exatamente.
- Posso perguntar agora, de novo?
- Pode.
- Quem esse picadinho que é tudo maior que tudo te lembra?
- Ai, meu Deus!
- Acertou.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Um menino, um velho pássaro.

- Pedro, tu tá dormindo?
- Não.
- Não consigo dormir.
- Nem eu.
- Tô com medo.
- Que besteira, medo do quê?
- Não sei, mas, cada vez que eu fecho os olhos, tem um bicho grande olhando pra mim.
- Vira pr'outro lado, que passa.
- Já tentei, não deu certo. Do outro lado eu não vejo ele, mas ele, sim.
- Quer que eu acenda a luz?
- Não precisa. E tu, porque não consegue dormir?
- Porque não quero dormir. É perda de tempo e preciso pensar.
- Tá bom. Pensar em quê?
- Não é da tua conta. Em várias coisas.
- Por que tu acha que esse bicho tá olhando pra mim?
- Vai ver ele quer te comer quando tu tiver dormindo. Como é esse bicho?
- Preto e com uns dentes grandes, como uma foca.
- Peludo?
- É, peludo. E ele tem um olho só, no lugar do nariz.
- Tu já tentou encarar ele?
- Como assim?
- Olha na cara dele como se tu tivesse querendo arrumar briga?
- Tu tá maluco, é? Ele é muito forte. Eu fico com medo.
- Mulherzinha.
- Não sou mulherzinha, queria ver tu no meu lugar.
- Quando tu abre os olhos, ele some na hora ou ele ainda fica um tempo na tua frente?
- Deixa eu ver, peraí. Ele some.
- Então acho mesmo que ele vai querer te comer. Tu comeu demais no jantar, ele deve tá sentindo o cheiro.
- Idiota. Mas e tu, em que tá pensando?
- Agora eu tô tentando falar com o tal monstro que não te deixa dormir nem me deixa pensar.
- Tu também tá vendo ele?
- Não, mas tô tentando atraí-lo com o poder da mente.
- Tá dando certo?
- Tá. Ele acaba de entrar em conexão. Fica calado um instante. Vou dizer pra ele que tu faz xixi na cama.
- Não faço xixi na cama.
- Faz sim. Cala a boca um instante. Ele acaba de dizer que tu parece muito gostoso.
- Pergunta pra ele o que ele quer. Diz pra ele que eu tô com medo dele.
- Ele disse que quer te comer, mas eu já avisei que, se ele fizer isso, tu vai acabar fazendo xixi dentro da barriga dele.
- E o que ele disse?
- Que tu é um menino sujo, mas que ele não se importa porque ele tá com fome.
- Não é verdade, não sou um menino sujo e não faço xixi na cama.
- Ele agora falou que, se tu fechar os olhos agora, ele vai te engolir tão rápido que tu nem vai conseguir fazer xixi.
- Pára, Pedro. Vou chamar a mamãe.
- O monstro tá morrendo de rir. Além de mijão, ele agora sabe que tu é uma mulherzinha covarde.
- Mas tu consegue ouvir ele? Por que eu não consigo?
- Porque tu é uma mulherzinha covarde e monstros não gostam de falar com pessoas como tu.
- Então, por que é que ele quer me comer?
- Porque ele tá com fome, ué!
- Diz pra esse monstro que, ele ele me comer, eu vou fazer xixi na barriga dele.
- Ele disse que vai comer o seu pinto primeiro e não vai dar tempo.
- Então fala pra ele que eu vou furar o olho dele com o meu dedo. Diz pra ele que, se ele tentar me comer, ele não vai conseguir porque eu vou gritar, e a polícia vem prender ele.
- Idiota. Tu acaha que monstros têm medo de polícia?
- Então diz pra ele que eu vou dar um soco na cara dele.
- Ele deu risada. Falou que é mais forte.
- É nada. Eu vou acabar com ele. Ele que tente me comer!
- Por que tu não diz isso a ele? Já tô cheio de ser teu porta-voz. Fala tu e me deixa pensar.
- Tá bom. Se eu disser isso a ele, tu acha que ele vai embora?
- Não sei. Tenta. Mas tu vai ter que olhar pra ele primeiro. Cuidado porque ele é forte e grande. Ele pode ser mais rápido e te comer antes de tu conseguir falar.
- Ele não vai me comer.
- Então fala isso pra ele. Vai, sua mulherzinha covarde, mijona.
- Pedro?
- Falou pra ele?
- Falei, e quando fechei os olhos ele não tava mais lá. Sumiu.
- Então vai ver ele ouviu nosso papo.
- Acho que sim. Ele ficou com medo de mim.
- Deve ser. Agora dorme e me deixa pensar.
- Tá bom. Té amanhã.
- Té.

- Pedro?
- Fala, seu chato.
- Em que tu tá pensando?
- Já falei que não é da tua conta.
- Por favor, vai!
- Tá bom. Eu tô pensando que tu é uma mulherzinha covarde, mijona.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Luz vermelha.

A sequência dos acontecimentos foi desastrosa.

Se tu acompanhar meu ritmo com cuidado, vai ser como se de repente mil orelhas pipocassem no teu corpo. Vai ouvir sons que arrepiam o coração.
Ali fica a minha casa. Já estamos chegando. Só falta mesmo atravessar a floresta de cipó e passar as mãos para sentir como eles enroscam na tua nuca, correr pelo gramado com a boca bem aberta para sorver o vento de hortelã com canela e pular as doze cercas, prestando atenção aos gritinhos de prazer que as flores dão quando voamos por cima delas.
Pronto. Seja bem-vindo à minha casa. Não precisa agradecer. Ela é tua, todos os seus cantos e encantos.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Mais uma xícara de paciência.

Tinha um quarto secreto na casa. Um quarto secreto e, Gabriel não sabia onde ficava. Passava horas, rastejando pela casa, com seu carrinho a raspar os rodapés brancos, na esperança de ver surgir uma ranhura diferente, uma frestra de luz, que se infiltrasse, um eco estranho, um sussurro de vozes.
O quarto existia, com certeza. Era lá que estavam escondidos os documentos, a papelada que revelava o grande segredo. Gabriel não sabia ao certo o que procurava, se o quarto, se o segredo.
Desde sempre ele desconfiava de sua origem. Ele era diferente dos pais e dos irmãos. Tratavam ele diferente.
Tampouco sentia essa coisa estranha chamada ''amor'', que deveria garantir que ele era filho de seus pais e irmão de seus irmãos. Havia algo de estranho.
Claro, existia aquela história dele pequenininho, mamando com tanta fome que até mordera o bico do peito da mãe. Aquela outra da maternidade, do Doutor Mário dizendo que era um menino. Tinha também aquela foto do pai quando bebê, mas Gabriel não concordava que aquela imagem gorducha era a cara dele. Tudo isso não passave de mais uma armação, uma mentira.
E havia o quarto secreto com as provas. Ele tinha de achá-lo. Gabriel sabia que não pertencia àquela casa, àquela gente, àquela família.
Gabriel tinha poderes, super-poderes. Ele sentava à varanda e acionava o farol da rua com um simples pressionar do parafuso da grade. Ele acendia as luzes do corredor do prédio, quando fechava os olhos. Ele sabia a cor de todas as rosas do jardim no caminho da escola. Gabriel tinha super-poderes: ele não podia ser filho de seu pai e de sua mãe.
Gabriel era mais forte que seus irmãos. Muito mais forte. Afinal de contas, sofria mais que os outros. Teve aquele dia em que a avó dera dinheiro para o irmão comprar aquele urso polar de chocolate. Só para o irmão. E aquele outro, em que o pai levara a irmã para a fábrica, no sábado de manhã, só a irmã. Teve também o aniversário, o seu aniversário. Por que tão pouca gente? Por que acabou tão cedo? Por que aquele livro estúpido de presente e não a grua que ele tanto queria? Tinha algo estranho. Ele era injustiçado, mas forte, muito forte: não podia ser irmão de seus irmãos.
Gabriel não entendia por que a mãe dizia que ele devia amá-la. Não entendia por que ela o amava. Por que é que ele devia amar os irmãos? Ele amava o carrinho azul, aquele Porsche que achara na escola. Ele amava Pingo, o gato. Ele amava comer o resto de bolo cru que a avó não conseguia raspar da tigela. Isso ele amava mesmo, de verdade. Mas Gabriel não sentia que amava sua mãe assim, seu pai, seus irmãos.
Um dia Gabriel cresceu e largou o carrinho. Um dia Gabriel cresceu, e os faróis da rua não lhe interessavam mais. Um dia Gabriel cresceu, e o jardim de rosas morreu, Pingo morreu, a avó morreu também.
Gabriel acordou de noite, de repente. Havia uma luz debaixo da porta. Uma luz e vozes, abafadas, misteriosas. Coragem, Gabriel. Ele abriu a porta.
Na sala estava a mãe, a mãe de Gabriel, o pescoço levemente arqueado, os óculos na ponta do nariz, o tricô caído no chão. A TV estava ligada. Gabriel sentiu muito medo e aproximou-se do rosto amassado da mãe. Olhou suas rugas, suas veias, os escorridos fios de prata que lhe caíam da testa. Gabriel sentiu muito medo.
Voltou para o quarto. Ele estava com muito medo. Sentado na ponta da cama, ele estava com medo. Muito medo.
A porta abriu-se. ''O que foi, meu filho?''
A porta abriu-se, Gabriel olhou para a mãe e chorou.
A porta abriu-se. A secreta porta do amor.

sábado, janeiro 09, 2010

Selvagem é o vento.

Ela adorava orquídeas. Essas flores tinham a reconhecida propriedade de regenerar células mortas e, quando aplicadas na forma de bálsamo cutâneo à tez diáfana da garota, retiravam-lhe instantaneamente os resquícios noturnos de suas orgias etílicas e secretas.
Numa noite mesmo, o balanço tinha sido de doze caixas de acquavit devidamente entornadas até o último vapor.
Duas pesadas lágrimas deslizaram lentamente pelas bochechas da desconsolada pseudo-mulher e enfurnaram-se pela ruga da boca até o queixo. Sem orquídeas negras, sem ninguém. Afogou-se nas dobras da memória.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Sexta-feira está para o amor.

Sexta. Sol. Aranhas de salto alto, margaridas de saia rodada e a garota sentada com o bundão no sofá de couro. Lia um livro empoeirado e cantarolava uma moda de cânfora e anilina. E ela nem ligava para as coisas da casa, a bagunça dos gatos, o almoço, a briga do amigo.
E, de vez em quando, ela soltava as mãos e suspirava lá, bem longe, para trás de todos. Se via, não via. Mas olhava sim.
Tinha alma de velha e não se importava com isso. Nem sequer se importava com o gramado verde como as esperanças, ou com a trepadeira derramando seus hormônios na parede. Indiferente.
Mas era sexta e sexta não era segunda, nem terça, nem o resto todo da vida que se esfumaçava adiante. Aquele resto que não acabava mais de ficar ali, no sofá, lendo seus livros com lembranças. Hoje, era sexta-feira.
Porque era sexta-feira e não dava muito tempo para ler, escrever, ler e lanchar. Era sexta e, por isso, tinha amigos que ligavam convidando para beber uma cervejinha.
- Vamos?
Sexta-feira, tomara que o lugar preferido deles não esteja ocupado. E nem aí para as coisas de agora. Nem aí para as coisas de antes.

Ingressos esgotados.

Não gostava mais de assistir à TV. Nem o computador o atraía mais. Era solitário.
Mas havia noites mais tristes que as de todo dia. Eram as noites do medo. Aquele medão que entra pelas frestras do coração.
Naquela manhã, ele dera de frente com o amor. Um amor daqueles que dá vontade de morrer. Daqueles que dá vontade de voar. Um amor sem explicação, sem função, sem pata nem focinho. Ele não soube de saída que aquilo era amor. Só foi se dar contar, mais tarde. Foi como uma música que o despertou.
Conhecia essa música. Ouvira a mesma ladainha centenas de vezes mas nunca entendia nada. Achava aquilo bobo, mocó, tonto. Mas ali, naquele momento, uma estranha magia escorregou por suas orelhas. Uma magia que transbordou seu coração.
Foi assim que ele entendeu aquele torpor. Uma música brega, tola, encheu seu peito de amor.
À noite, na sua cama, ele não sentiu mais tristeza. Nem o medo, o medo de não saber amar.

sábado, janeiro 02, 2010

Totalmente last week.

O frio era de enregelar a seiva. Mas ela não ligava e até gostava.
Ela se debruçou para ajustar a saia plissada e puxar as meias abaixo do joelho que desapontava, discreto. Aprumou-se e, orgulhosa, estufou o peito numa oferenda tesa. Terminou de se arrumar chacoalhando para o lados os cachos densos.
- Oi.
- Oi.
- Onde pensa que vai assim?
- Assim como?
- Assim, ridícula?
- Não vou a lugar nenhum.
- Então por que tanta cafonice?
- Eu gosto de me arrumar, só isso. Não posso?
- Sei lá. É ridículo.
- Por que ridículo?
- Porque parece que tu vai ao baile de formatura de uma prima pobre.
- É, mas... e daí?
- Daí que ninguém vai reparar, porque é muita cafonice reunida.
- Ué, mas tu reparou que eu estou arrumada, não?
- Reparei sim, mas acho ridículo.
- Ridículo é tu ficar o dia inteiro com essa cara amassada. Tu tá com inveja!
- Inveja? Tu deve tá brincando. Olha só pra ti, esse peitão inchado. Coisa mais feia, tenha vergonha!
- Inveja, isso se chama inveja. Tu é que parece um bicho. Um espantalho, isso sim, com esse chapéu de aba.
- O que tem o meu chapéu?
- Out of fashion, my dear. Totalmente last week.
- Pronto, agora a gostosona resolveu arrotar o chá das cinco.
- E essa tua cabeleira amarela, isso também é uma coisa ''complètement démodé, ma chère''.
- Agora sim, ela tá ''se achando''. Pelo menos sou natural. Olha só o roxo do seu cabelo. Parece que levou um beliscão no coco.
- Lilás, e não roxo. É a última moda em Beverly Hills.
- Coitadinha, perdoai sua vaidade, nunca viu o mundo e só porque desbotou os tufos acha que vai abafar no ''nouveau chou''.
- ''Nouveau chou''?
- Como, tu não conhece o ''nouveau chou''?
- Não.
- O ''nouveau chou'' é o que há. É lá que as coisas acontecem, que as estrelas nascem e colhem inspiração.
- É?
- Claro! Tu precisa conhecer, cher.
- Mas o que é o ''nouveau chou''?
- É tudo. Olha só pra ti, pobre infeliz com esse peitão! Se o ''nouveau chou'' te visse, ia ter um ataque. A moda está para a magreza, a longitude e não a latitude.
- É mesmo?
- É. Veja eu, por exemplo. Eu não dou um passo sem ouvir o ''nouveau chou''. E esse cabelo de cachinhos? O ''nouveau chou'' não suporta mais isso. É caipira. A moda está para o ''menos é mais''. Sem falar da cor. Tem que ser naturalmente menos e nunca artificialmente mais, entende?
- Entendi.
- Como você se chama?
- Hortência.
- Hortência com ''c'' ou Hortênsia com ''s''?
- Com ''s''.
- Muito prazer, Hortênsia com ''s''. Eu sou a Daisy.
- Me fala do ''nouveau chou''.
- Ah, o ''nouveau chou''! Vou te contar tudo. Como é gostoso o ''nouveau chou'', ma chère, gostoso pra chuchu.
Asssim tagarelavam, numa fria manhã de inverno, duas flores gélidas.