domingo, janeiro 17, 2010

Palavras.

Há palavras que são mais do que palavras. Elas deveriam ser promovidas a outra qualificação que as diferenciasse das demais.
Por exemplo, a palavra telefone ou colher ou ainda fêmur não são certamente da mesma natureza que palavras como dor, saudade ou coração.
Existem palavras de natureza funcional que podemos chamar de protopalavras. Elas têm uma definição simples e inequívoca. Elas são úteis para diálogos simples ou textos descritivos. Por exemplo: a palavra automóvel na frase: "O automóvel vinha veloz pela estrada que descia até o mar".
Há também as palavras expansíveis, voláteis e temporais que denominamos simplesmente de palavras-palavras. São aquelas que utilizamos para sugerir o estado das coisas. As palavras-palavras são as mais comuns. Considere a palavra frio. A frase: ''O frio vinha veloz pela estrada que descia até o mar'' sugere um estado passageiro, mas também pode dar abertura a interpretações e conteúdos imagéticos.
Finalmente, as suprapalavras são as que simplesmente não têm definição. Ou melhor, a definição só existe pra quem as pronuncia, mas elas não podem ser jamais entendidas pelo interlocutor na exata dimensão em que foram expressas. Por exemplo, amor. Na frase: ''O amor vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', é impossível entender de que amor estamos falando.
Numa graduação simples, podemos dizer que as protopalavras são aquelas que não modificam o sentido das outras palavras da frase. As palavras-palavras têm um poder limitado de fazê-lo, e as suprapalavras podem fazê-lo de forma infinita.
Vamos voltar ao nosso exemplo.
Quando dizemos: ''O automóvel vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', isso significa que o que significa sem nenhuma margem interpretativa. O automóvel define ainda o sentido das palavras veloz, estrada e mar. Se é um automóvel, a velocidade se refere, portanto, a um fenômeno físico; a estrada é uma via carroçável; e o mar é um acidente geográfico. Tudo muito preciso e de simples compreensão.
Já quando dizemos: ''O frio vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', o sentido sugerido pela palavra frio pode modificar moderadamente as outras. Podemos estar nos referindo ao frio climático que descia montanha abaixo, para afugentar os veranistas seminus na praia. Mas também podemos estar falando de um caminhão de gelo que ia suprir os mesmos banhistas da necessária refrescância para suas cervejas. Ou ainda pode ser o frio da água da cachoeira que se descabela até jogar-se no mar. As versões são simples; no entanto, elas têm um relativo coeficiente metafórico.
Mas quando dizemos: ''O amor vinha veloz pela estrada que descia até o mar'', quantas interpretaçãoes não são possíveis? Inúmeras, incontáveis, infinitas. Tantas, tantas que sequer somos capazes de enumerá-las. Mas o que faz a diferença aqui é que aquele que diz ou escreve a frase e dá um sentido preciso a esse amor. No entanto, os significados são tão variados quando o número de ouvintes ou leitores que tropeçarem nela.
A suprapalavra amor modifica com uma extraordinária alquimia o sentido de veloz, estrada, mar e tem o incrível poder de transformá-las em palavras-palavras ou até mesmo em protopalavras.
Assim, veloz pode significar acelerado, apressado ou afobado, mas pode querer dizer ainda arrasador, assassino, arrebatador e, nesse sentido, a palavra veloz transforma-se em uma suprapalavra. E uma vez suprapalavra, a protopalavra estrada também pode ser promovida, assim como a palavra-palavra mar.
Críticos costumam dizer que essa teoria é completamente inútil, uma vez que todas as palavras podem ser simultaneamente protopalavras, palavras-palavras ou suprapalavras, dependendo do seu contexto na frase. Ou melhor, todas as palavras são suprapalavras de alguma forma e, portanto, essa gramática é absurda.
Mas poucos entendem o real significado. A intenção é justamente confundir e mostrar que não se deve ler para entender, mas ler para sentir. Não se deve jamais tentar decifrar a intenção da escrita, mas apenas extrair o sentido particular, individual, único da química que se opera na leitura.
Se fôssemos capazes de falar apenas com protopalavras ou no máximo através de palavras-palavras, tudo seria mais simples. Não haveria mal-entendidos.
Mas o criador dessa tese não queria saber de moleza e colocou na boca dos humanos as suprapralavras. Malditas sejam!