terça-feira, janeiro 12, 2010

Mais uma xícara de paciência.

Tinha um quarto secreto na casa. Um quarto secreto e, Gabriel não sabia onde ficava. Passava horas, rastejando pela casa, com seu carrinho a raspar os rodapés brancos, na esperança de ver surgir uma ranhura diferente, uma frestra de luz, que se infiltrasse, um eco estranho, um sussurro de vozes.
O quarto existia, com certeza. Era lá que estavam escondidos os documentos, a papelada que revelava o grande segredo. Gabriel não sabia ao certo o que procurava, se o quarto, se o segredo.
Desde sempre ele desconfiava de sua origem. Ele era diferente dos pais e dos irmãos. Tratavam ele diferente.
Tampouco sentia essa coisa estranha chamada ''amor'', que deveria garantir que ele era filho de seus pais e irmão de seus irmãos. Havia algo de estranho.
Claro, existia aquela história dele pequenininho, mamando com tanta fome que até mordera o bico do peito da mãe. Aquela outra da maternidade, do Doutor Mário dizendo que era um menino. Tinha também aquela foto do pai quando bebê, mas Gabriel não concordava que aquela imagem gorducha era a cara dele. Tudo isso não passave de mais uma armação, uma mentira.
E havia o quarto secreto com as provas. Ele tinha de achá-lo. Gabriel sabia que não pertencia àquela casa, àquela gente, àquela família.
Gabriel tinha poderes, super-poderes. Ele sentava à varanda e acionava o farol da rua com um simples pressionar do parafuso da grade. Ele acendia as luzes do corredor do prédio, quando fechava os olhos. Ele sabia a cor de todas as rosas do jardim no caminho da escola. Gabriel tinha super-poderes: ele não podia ser filho de seu pai e de sua mãe.
Gabriel era mais forte que seus irmãos. Muito mais forte. Afinal de contas, sofria mais que os outros. Teve aquele dia em que a avó dera dinheiro para o irmão comprar aquele urso polar de chocolate. Só para o irmão. E aquele outro, em que o pai levara a irmã para a fábrica, no sábado de manhã, só a irmã. Teve também o aniversário, o seu aniversário. Por que tão pouca gente? Por que acabou tão cedo? Por que aquele livro estúpido de presente e não a grua que ele tanto queria? Tinha algo estranho. Ele era injustiçado, mas forte, muito forte: não podia ser irmão de seus irmãos.
Gabriel não entendia por que a mãe dizia que ele devia amá-la. Não entendia por que ela o amava. Por que é que ele devia amar os irmãos? Ele amava o carrinho azul, aquele Porsche que achara na escola. Ele amava Pingo, o gato. Ele amava comer o resto de bolo cru que a avó não conseguia raspar da tigela. Isso ele amava mesmo, de verdade. Mas Gabriel não sentia que amava sua mãe assim, seu pai, seus irmãos.
Um dia Gabriel cresceu e largou o carrinho. Um dia Gabriel cresceu, e os faróis da rua não lhe interessavam mais. Um dia Gabriel cresceu, e o jardim de rosas morreu, Pingo morreu, a avó morreu também.
Gabriel acordou de noite, de repente. Havia uma luz debaixo da porta. Uma luz e vozes, abafadas, misteriosas. Coragem, Gabriel. Ele abriu a porta.
Na sala estava a mãe, a mãe de Gabriel, o pescoço levemente arqueado, os óculos na ponta do nariz, o tricô caído no chão. A TV estava ligada. Gabriel sentiu muito medo e aproximou-se do rosto amassado da mãe. Olhou suas rugas, suas veias, os escorridos fios de prata que lhe caíam da testa. Gabriel sentiu muito medo.
Voltou para o quarto. Ele estava com muito medo. Sentado na ponta da cama, ele estava com medo. Muito medo.
A porta abriu-se. ''O que foi, meu filho?''
A porta abriu-se, Gabriel olhou para a mãe e chorou.
A porta abriu-se. A secreta porta do amor.