sábado, janeiro 16, 2010

Picadinho.

- Era tudo picadinho, picadinho.
- Um estrogonofe? Cenoura ralada? Couve miúda? Alho batido?
- Não, não é comida não.
- Então, é um quebra-cabeças?
- Que tipo de quebra-cabeças?
- Daqueles que a gente brincava, sabe? Aqueles quadros horríveis dos pintores lá, ou então as paisagens de outono.
- Não, não. Vou falar de novo. Picadinho, entendeu?
- Entendi, mas o que eu tenho que adivinhar mesmo?
- Que picadinho era esse?
- É mesmo. Bom, pode ser, então, um picadinho de confeti? Ou de areia da praia, daquele bem fina?
- Nada disso.
- Já sei! Quando o barbeiro varre o chão e pega um monte de cabelos de todas as cores, que dá vontade de pegar a fazer uma almofada?
- Não.
- Picadinho... picadinho. Pode ser, então, que seja uma folha de papel que a gente dobra, dobra e dobra mais. Depois recorta tudo direitinho. Daí dobra um dos pedaços e corta de novo até quando der. É isso?
- Não.
- Acho então que é quando se corre muito, sobe e desce, desce e sobe. No final, na hora de pedir um copo d'água pra mãe, sai tudo assim: Mmmm dddd aaaa uuuuuu mmmmm cocococo popopopop d'aaaaaaaa guaguagua?
- Isso é picadinho, mas não é esse não.
- Então, é uma coisa de maluco sociopata? Aquele fulano que partia as pessoas, sabe, daquele filme?
- Cruz credo! Não!
- Um picadinho de cubo mágico? Ou, já sei. Da prova de matemática por causa da nota ruim?
- Podia ser, mas não é.
- Então, é como quando chove numa folha de papel manteiga? Picadinho de chuva?
- Não.
- Desisto.
- Como assim?
- Ué, não sei que picadinho é esse.
- Então, é minha vez de novo.
- É. Que jeito!
- Posso ir?
- Pode.
- Era grandão, enorme. Maior que tudo.
- Um elefante? Um mamute? Um jumbo?
- Não.
- Então, desisto.
- De novo?
- De novo.
- Por quê?
- Porque assim nunca dá pra ganhar de ti.
- Como assim?
- Tu inventa tudo. Não joga limpo.
- Não invento não.
- Inventa.
- Não invento.
- Inventa.
- Não invento.
- Prova, então.
- Provo sim.
- O que era esse picadinho?
- O picadinho?
- Sim, o picadinho, tudo picadinho?
- Ah, o picadinho era tudo.
- Tudo? Não falei que tu não sabe? Inventa tudo.
- Não invento não. Eu disse, picadinho era tudo.
- Tudo?
- Sim, tudo.
- Mas tudo não é picadinho.
- É sim.
- Não é.
- É. O que é tudo?
- Tudo é tudo.
- Então, se é tudo, podia ser qualquer coisa que eu disse antes.
- Não. Porque qualquer coisa não é tudo. Tudo é tudo, tu disse.
- Não entendi.
- Se tudo é tudo e não qualquer coisa, então o tudo é picadinho de qualquer coisa, de todas as coisas.
- E todas as coisas, então, são um picadinho?
- São. Tudo é picadinho. Tudo.
- Então, maior que tudo também é tudo?
- Isso.
- Então, esse picadinho é tudo, e esse tudo é maior que tudo?
- Exatamente.
- Posso perguntar agora, de novo?
- Pode.
- Quem esse picadinho que é tudo maior que tudo te lembra?
- Ai, meu Deus!
- Acertou.