quarta-feira, janeiro 27, 2010

O que você vai ser quando crescer?

- O que tu quer ser quando crescer, Alceu?
A mãe saiu para trabalhar. O pai também saiu, para nunca mais voltar. Alceu levantou e saiu para a rua. Caminhou um pouco, devagar, olhando a pipa vermelha que rodopiava no céu. Numa laje ele sentou e ficou ali olhando o mar, lá longe.
- Fala aí?
- E aí?
Osmar chegou, sentou ao lado de Alceu, olhando o mar, lá longe. Alceu e Mateus cresceram. Em cima da laje, olhando o tempo passar.
- O que tu vai ser, depois daqui, José?
Era uma família grande e José nem sabia ao certo quantos irmãos tinha. Saiu de casa no meio da tarde, correu pela rua e foi bisbilhotar a vizinhança.
- Quem comeu a Carol?
- O Pedro.
Fernando chegou e ficaram ali, falando da vizinhança. José e Osmar cresceram. Nas ruas da favela e, de vez em quando, na cama da Carol.
- Onde tu quer viver um dia, Garça?
Garça tinha um irmão mais velho, o Paulão. E Paulão vivia de treta com a polícia. Garça saiu de casa e foi levar uma encomenda pro Paulão.
- Vamos pra praia.
- Mais tarde. Agora não dá.
Rafael chegou e ficou ali, fumando um. Garça e Rafael cresceram. Fazendo avião para o Paulão até ele morrer e continuar depois para Prego, Cabeça e Bocão.
O que você vai ser quando crescer, Alceu? Osmar? Garça? Fernando?
Alceu, urso polar, bem grandão com muitas focas para se saciar.
Osmar, o cometa Halley que só passa na Terra de vez em quando que é para não ficar com nojo.
José, um caveleiro medieval com mil mulheres de cinto de castidade a esperá-lo no seu harém da Dinamarca.
Fernando, uma flauta de ouro na boca de uma virtuosa da Orquestra Sinfônica da Romênia.
Garça, maquinista de metrô no Japão, de luvas brancas e sashimi na barriga.
Rafael, um saco de pancada, um adolescente morto, assassinado na porta do barraco, no morro à beira-mar.