sexta-feira, outubro 14, 2011

Qual é a pior coisa que eu posso dizer?

Eu transformava tudo aquilo que havia me acontecendo numa bela equação árida, cínica, muito adequada. Além disso, sentia-me extraordinariamente disposta. Aceitava todas aquelas tristezas, todos aqueles conflitos, todos aqueles prazeres em marcha, aceitava tudo previamente, com derrisão.
Li até o fim da tarde. Larguei o livro, apoiei a cabeça no braço, fiquei contemplando o céu passar do tom malva ao cinzento. E inopinadamente me senti fraca e indefesa. Minha vida fluía, e eu não fazia nada a não ser troçar.
Ter alguém assim contra o meu rosto... Para retê-lo, apertá-lo de encontro a mim, com a lancinante violência do amor...
Me levantei e saí.

Como toda pessoa que vive de suas comédias inacabadas, não podia suportá-las senão escritas por mim. Apenas por mim.
De mais a mais, eu sabia muito bem que aquele divertimento - se divertimento havia - era perigoso.

E, como todas as pessoas que mentem com facilidade, eu era sensível e sincera às atmosferas onde tinha que desempenhar o meu papel.

Bom, durante todo aquele tempo eu estava tentando perder uns quilos de qualquer maneira. Isso, minha pressão sanguínea e o açúcar me fizeram ficar bem entretida. Eu sentia que, se conseguisse emagrecer um pouco, a vida seria um doce...

- Deixa eu sentar no teu colo enquanto essa salada que comi faz efeito.
Ele ri.
Mas tentar emagrecer toma toda a atenção que eu teria pra gastar. Finalmente encarei o fato de que minha gordura é a mágoa que eu não admitia, nem mesmo pra mim mesma, e que tenho tentado me livrar dela há anos.

De repente, o tempo voltou, o interesse era outro. E houve de novo os minutos, as horas, os cigarros.
Eu ainda era a Dona Mariana Ribeiro Ninguém-de-Lugar-Nenhum. Mas eles ainda querem o que eu quero, só que não é meu. Parecem um bando de cães de caça tentando engolir um cheiro.

''Tu sempre tem cara de sono'', ele diz.
''Mas não se pode ficar dormindo pela vida sem querer viver'', eu respondi.

Não adianta se lamentar. Seja o que for, tem muito mais em algum lugar.
O truque está em viver o suficiente para poder colocar os seus blefes de jovem em uso.
No fundo, viver era arranjar-se o mais satisfatoriamente possível. Parecia tão fácil, agora.