quinta-feira, maio 19, 2011

Somos inatingíveis.

''Somos inatingíveis''. Era o que ele me dizia.
Por que tanto medo?

Um trovão que a acordara fez retumbar os vidros da janela.  A luz de um relâmpago desenhou um milhão de silhuetas no quarto. Cada forma imóvel transformou-se num fundo escuro e mutante, de tamanho impreciso.
(Muitas coisas horríveis aconteciam na sua cabeça segundos antes). Acendeu a luz.
O relógio marcava duas horas da madrugada daquela quinta-feira, dezenove.
Dezenove.
Dia dezenove.
Sempre o seu número da sorte, ou seu símbolo maldito. Nada de estranho.

Conhecia os motivos e fingia ignorá-los, embora em sua solidão, sua eterna, constante e densa solidão, repleta de sensações, não pudesse enganar-se.
O quarto estava cheio de objetos queridos que a encheram de paz, superando a agitação que sentira ao acordar. Seu cigarro, seus livros, as lembranças e fotografias, a cadeira, a mesinha, os desenhos.
Jogou-se para trás, fechou os olhos, porém não apagou a luz. Se pudesse escolher os sonhos, as histórias para preencher o tempo inútil do descanso... Gostava de sonhar, porque a liberdade de sua imaginação tinha um feitiço embriagador. Cada sonho era a anarquia da mente, a revolucionária revolta do seu inconformismo. Suas ideias escapavam de qualquer limite.
Saudade...
A saudade. O sonho. A noite.

Sufocou sua angústia e apagou a luz.