sexta-feira, março 30, 2012

Is a moment of treasure.

Era sexta-feira. Ela estava exultante, como um ladrão de sepulturas.
Todas as noites deveriam ser tão escuras, todos os invernos tão quentes, todos os faróis tão ofuscantes.
Passou os dedos pelos cabelos pretos lisos.
O dia estava amanhecendo; e ela quase podia sentir a aceleração do movimento da terra em direção ao sol nascente. Acendeu outro cigarro.
Eram nove horas, já faziam três horas que ela fora arrancada da cama, ainda não comera nada.
Não estava com fome, mas a atividade de comer atraí-a. E estava com vontade de andar um pouco. Vestiu o casaco e foi encontrá-lo.

Olhos pequenos, como sementes de maçã. Olhos claros, como diamantes transparentes.
Como sempre, sua voz era tão baixa e suave que era preciso se concentrar intensamente para escutá-la.

Sentiram uma melancolia, como quando caem as folhas das árvores no outono. Melancolia esta forjada pela lembrança dos velhos tempos, dos velhos amigos desaparecidos e dos novos. E, durante todo o tempo ambos sabiam que estavam esquivando-se de um assunto; falando de histórias sem importância a fim de evitarem falar em um assunto mais sério: a saudade.
Era ela o motivo de tantas lágrimas e ao mesmo tempo, de tantos sorrisos. De tantas músicas e de tantos assovios. Era tão bom matá-la. Como uma necessidade, como a sede, como a fome, como o sexo.