sábado, agosto 25, 2012

O sol vai nascer e fazer desaparecer seus roxos.

Não se pode tirar o chão de sob os pés de um homem e esperar que ele aja naturalmente.
Um redemoinho de imagens, furioso e cinzento, memórias, palavras e formas.
Pedro andou pela praia e foi além do farol. As ondas com sua espuma branca se quebravam a seus pés e às vezes esborrifavam seu tornozelo.
Tomou um gole do whisky, fez uma careta e tomou outro gole, desta vez maior. Seu coração pulsava raivoso. Não poderia admitir que a piedade de seus amigos somente confirmasse sua frustração. Ele sabia que a piedade e o desprezo eram irmãos. Apertou fortemente as mandíbulas.
Alguns dias amanhecem feios. Desde a primeira luminosidade, eles, malditamente, não são bom seja qual for o tempo, mas em tais dias as pessoas sentem preguiça em levantar-se da cama e pôr os pés na estrada. Quando finalmente são forçadas a se levantar, ou por fome ou porque o trabalho os espera, descobrem que o dia é justamente tão piolhento como elas o haviam imaginado.
Em tais dias é impossível fazer-se um bom café, os cordões do sapato arrebentam-se, as xícaras caem das prateleiras por si mesmas e despedaçam-se no chão, crianças normalmente honestas dirão mentiras, e crianças ordinariamente comportadas tirarão os puxadores das torneiras do fogão a gás e perderão os parafusos. Este é o dia em que a gata escolhe para ter gatinhos e os cães cismam em molhar o tapete da sala.
Oh, tais dias terríveis! O carteiro traz contas que já venceram. Se é um dia de sol este malditamente ensolarado e se é escuro quem o pode suportar?
Pedro sabia que aquele dia seria um desses dias. Ele não podia encontrar as calças. Caiu em cima de uma caixa que havia entreposto em seu caminho.