Não se pode tirar o chão de sob os pés de um homem e esperar que ele aja naturalmente.
Um redemoinho de imagens, furioso e cinzento, memórias, palavras e formas.
Pedro andou pela praia e foi além do farol. As ondas com sua espuma
branca se quebravam a seus pés e às vezes esborrifavam seu tornozelo.
Tomou um gole do whisky, fez uma careta e tomou outro gole, desta vez maior. Seu
coração pulsava raivoso. Não poderia admitir que a piedade de seus
amigos somente confirmasse sua frustração. Ele sabia que a piedade e o
desprezo eram irmãos. Apertou fortemente as mandíbulas.
Alguns dias amanhecem feios. Desde a primeira luminosidade, eles,
malditamente, não são bom seja qual for o tempo, mas em tais dias as
pessoas sentem preguiça em levantar-se da cama e pôr os pés na estrada.
Quando finalmente são forçadas a se levantar, ou por fome ou porque o
trabalho os espera, descobrem que o dia é justamente tão piolhento como
elas o haviam imaginado.
Em tais dias é impossível fazer-se um bom
café, os cordões do sapato arrebentam-se, as xícaras caem das
prateleiras por si mesmas e despedaçam-se no chão, crianças normalmente
honestas dirão mentiras, e crianças ordinariamente comportadas tirarão
os puxadores das torneiras do fogão a gás e perderão os parafusos. Este é
o dia em que a gata escolhe para ter gatinhos e os cães cismam em
molhar o tapete da sala.
Oh, tais dias terríveis! O carteiro traz
contas que já venceram. Se é um dia de sol este malditamente ensolarado e
se é escuro quem o pode suportar?
Pedro sabia que aquele dia
seria um desses dias. Ele não podia encontrar as calças. Caiu em cima de
uma caixa que havia entreposto em seu caminho.
Papo rápido no uatizape.
Há 3 semanas