terça-feira, julho 20, 2010

Assim ficou melhor para todo mundo.

Um mulato enxuto fazia a linha de ônibus do bairro. Tinha o cabelo de brilhantina, bigodinho, um dente de ouro e lábios rasgados. Simpatizava com ele. Sentava sempre na frente. Volta e meia virava e sorria pra mim com seu bigodinho e ria com seu dente de ouro. Às vezes eu ia até o ponto final. Comprava pra mim um pacote de bala, me contou que era casado, tinha três filhos. A menina mais velha combinava com minha idade.
Um dia ele largou o serviço mais cedo, tava quase escurecendo, e foi andando na frente e eu atrás. Só falou a hora que ia sair da garagem. E eu tava lá esperando. Olhou pra mim com aquela boca rasgada e o bigodinho fino e foi andando. Vi o jornal dobrado no bolso dele e sabia para o que era. Sabia, sim. Quando chegamos no campo de futebol, ficou parado. Acho que ele tava com um pouco de receio por causa dos meus catorze anos, ou talvez por causa do meu pai, que era conhecido dele. Aí eu entrei na frente, segui a trilha e deitei na grama e falei ''vem logo''. Ele se chamava Davidson, um nome engraçado, me fazia rir.
Fomos no campo algumas vezes. O azar é que eu peguei barriga. Mas só fiquei sabendo isso muito tempo depois, quando começou a crescer. Davidson viu minha barriga e sumiu, nunca mais voltou no serviço, e ninguém dava notícia dele. Falei com minha mãe, ela chorou. Meu pai acabou descobrindo. Aprontou o maior barulho, queria matar, esfolar, encheu mais a cara de cachaça, me deu uns tapas. Não falei de quem era o filho, podia bater à vontade. Minha barriga continuou crescendo.
Aí veio o negócio do hospital, minha mãe deu força, ajudou, ficou comigo, tive hemorragia e quase morri. Ela cuidou do menino até eu levantar da cama. Meu pai continuou bebendo sem parar, e duas vezes peguei ele maltratando o meu neném, dando cachaça pra ele. Um dia tava na casa da minha avó, pra pegar uma roupa que ela tinha feito pra mim. Eu fui a pé, tava muito quente e deixei o menino com minha mãe.
Tava lá experimentando o vestido, quando meu irmão chegou e disse que o pai tava batendo com a correia da bicicleta no meu neném. Ele tinha enchido a cara e falou que ia matar o menino. E a minha mãe? Meu irmão falou que ela gritava no quintal, pedindo ajuda dos vizinhos. Fui na cozinha da vó e catei uma faca pontuda e saí correndo lá pra casa.
Meu neném tava chorando no chão e minha mãe tava tentava segurar meu pai. Eu entrei e enfiei a faca no meu pai. Não sei quantas vezes. Enfiei a faca e ele foi caindo e eu fui enfiando a faca sem parar. Foi isso.
Arrependimento? Não, não tenho nenhum. Eu tinha de defender o meu neném. E foi bom pra minha mãe. Meu pai não prestava pra ela, não prestava pra ninguém. E já tava todo inchado de cachaça. Acho que foi melhor pra ele também.