segunda-feira, dezembro 14, 2009

Ele levou minutos, levou a nenhum lugar.

Gostava de se vestir bem. Usava relógio de ouro. Sapatos sob medida. Antes de sair de casa, examinava-se no espelho. Parecia precocemente envelhecido, talvez porque bebesse demais com os amigos todos os dias. De qualquer maneira, sentia-se um vencedor. Mas não era feliz.
Freqüentemente, chegava em casa bêbado, de madrugada. Consumia-se em angústias que jamais confessara a alguém. Quando ficava deprimido, passava dias inteiros sem abrir a boca, imerso, alheio, indiferente. Rico e hipocondríaco, olhava-se toda manhã em busca de novas rugas e novos cabelos brancos, antes de sair para o trabalho no escritório.
A mulher que ele amava continuava solteira, morando com os pais; estava muito magra; sempre solitária... Pelo menos essas eram as notícias que seu irmão trazia sobre a moça.
Numa madrugada de domingo, acordou sobressaltado. A mão direita doía como se estivesse sob pressão de tenazes de aço. Imaginou que acabava de sofrer um derrame. Acendeu a luz, chamou a mulher - ele fora obrigado a casar com ela, para não se sentir só - e ela resmungou, irritada: ''Isso não é nada, é cisma tua. Tu estava dormindo sobre a mão, não é nada de mais. São três horas da madrugada, me deixa dormir, pelo amor de Deus''.
Cinco dias depois, recebeu mais uma visita do irmão dela, no escritório. O homem, abatido, trazia a notícia triste; ela morrera em seus braços, na madrugada do último domingo, às três da manhã. Antes de morrer, murmurava: ''Minha última vontade era apertar novamente a mão dele''.
Ouviu a notícia em silêncio. Mas assim que o outro saiu, começou a chorar como uma criança, porque percebeu naquele instante - naquele preciso e fugaz instante - tudo o que havia perdido pra sempre.