terça-feira, setembro 04, 2012

Eu sou meu próprio pior inimigo.

Pode-se lembrar de um dia e de uma hora por algum incidente que ocorreu a nós mesmos. Pode-se lembrar exatamente o que se estava fazendo quando os japoneses bombardeavam Pearl Harbour.
É uma experiência comum que um problema difícil à noite é resolvido pela manhã após o comitê do sono ter trabalhado.

Era quinta-feira, e era um dia desses em que o ar está limpo e claro como uma lente.
Não há muitos dias assim em parte alguma. O povo os adora como se fossem um tesouro. Os garotos propendem a dar gritos estridentes sem razão alguma e os homens de negócios acham que é necessário irem de automóvel ver uma propriedade. Os velhos permanecem sentados e olhando ao longe, relembrando sem muita exatidão os dias de sua mocidade que foram iguais a este. Os cavalos rolam pelo chão em pastos verdejantes em tais dias e as galinhas fazem um barulho dos diabos, cacarejando alegremente.

Ela se alegrou. Não sorriu... apenas contraiu os lábios. Seus lábios eram grossos e sua boca larga, e quando ela contraía os lábios seus olhos se apertavam e algo morno e assustador desprendia dela. Esse era um mau risco. Sobre tudo isto estava a dureza, mas não necessariamente dureza grosseira.

Mantenha-se calma, aconselhou a si própria. Está sendo ridícula. Lembre-se daquele drama sobre um mouro ciumento, escrito por um homem chamado Shakespeare.

sábado, agosto 25, 2012

O sol vai nascer e fazer desaparecer seus roxos.

Não se pode tirar o chão de sob os pés de um homem e esperar que ele aja naturalmente.
Um redemoinho de imagens, furioso e cinzento, memórias, palavras e formas.
Pedro andou pela praia e foi além do farol. As ondas com sua espuma branca se quebravam a seus pés e às vezes esborrifavam seu tornozelo.
Tomou um gole do whisky, fez uma careta e tomou outro gole, desta vez maior. Seu coração pulsava raivoso. Não poderia admitir que a piedade de seus amigos somente confirmasse sua frustração. Ele sabia que a piedade e o desprezo eram irmãos. Apertou fortemente as mandíbulas.
Alguns dias amanhecem feios. Desde a primeira luminosidade, eles, malditamente, não são bom seja qual for o tempo, mas em tais dias as pessoas sentem preguiça em levantar-se da cama e pôr os pés na estrada. Quando finalmente são forçadas a se levantar, ou por fome ou porque o trabalho os espera, descobrem que o dia é justamente tão piolhento como elas o haviam imaginado.
Em tais dias é impossível fazer-se um bom café, os cordões do sapato arrebentam-se, as xícaras caem das prateleiras por si mesmas e despedaçam-se no chão, crianças normalmente honestas dirão mentiras, e crianças ordinariamente comportadas tirarão os puxadores das torneiras do fogão a gás e perderão os parafusos. Este é o dia em que a gata escolhe para ter gatinhos e os cães cismam em molhar o tapete da sala.
Oh, tais dias terríveis! O carteiro traz contas que já venceram. Se é um dia de sol este malditamente ensolarado e se é escuro quem o pode suportar?
Pedro sabia que aquele dia seria um desses dias. Ele não podia encontrar as calças. Caiu em cima de uma caixa que havia entreposto em seu caminho.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Soprando com o vento de mudança.

O descontentamento ainda existia. As dores que ela sentia eram representadas por sua inquieta atividade ou por uma palpitação incomum de seu coração. O uísque perdeu o seu áspero deleite e o primeiro e longo gole de cerveja gelada não lhe apeteceu tanto como antes. Parava de ouvir uma longa história quando a mesma estava na metade... não ficava, como antes, genuinamente alegre ao ver um amigo.
Estaria pensando: ''Em que penso? Que quero eu? Aonde desejo ir?'' Um sentimento estranho se apoderaria dela, e um pouco de impaciência, como se ela estivesse do lado de fora de uma redoma de vidro olhando a si mesma lá dentro. E teria, então, consciência de um som dentro de si, ou diversos sons, como se ouvisse uma música distante.
Ou talvez fosse isto.

Os pensamentos são a evasão dos sentimentos. Estás apenas cercando tua solidão que se escoa.
Naturalmente há muitos precedentes. Todo o mundo conhece a maçã de Newton. Charles Darwin disse que a sua "Origem das Espécies" lhe apareceu num relâmpago, e que ele gastou o resto dos seus dias sustentando-a; e a teoria da relatividade ocorreu a Einstein no mesmo tempo em que se leva para bater palmas. Este é o maior mistério da mente humana... a transição súbita e indutiva. Tudo cai em seu lugar, os despropósitos se relacionam, a dissonância transforma-se em harmonia e as asneiras são coroadas de significação. Mas o salto clarificador vem do solo rico da confusão e aquele que salta não desconhece a dor.

domingo, junho 24, 2012

Tic...

Ele me fazia companhia. Há alguns anos.
Aí, hoje, me deixou, assim, de repente. Não entendi. Chorei.

Era ele que me acordava toda manhã; que me acordava à tarde quando, sem querer, eu cochilava; ele que me lembrava dos meus compromissos.
Estava a frente de todos e me tornou uma pessoa sempre pontual.
Há algumas semanas percebi que ele não estava bem: um de seus ponteiros estava meio banzo. Tentei consertar uma vez. Duas vezes. Na terceira, ele não aguentou...
Parece o fim do mundo. As pessoas me consolam dizendo para eu comprar outro relógio. Mas não adianta. Eu quero aquele.
"E tudo que passamos juntos? Foi em vão? Vou jogar tudo para o vento?"
Resolvi dar um tempo. Guardei-o em uma caixa. Está aqui, continua me fazendo companhia...
Talvez a culpa seja minha. Faltou cuidado. Faltou manutenção.
Enquanto ele descansa, procuro um novo ponteiro para ele. Sei que funcionará novamente. É só... questão de tempo. Afinal, ele é o meu relógio favorito e nunca me abandonará.



...tac...

quinta-feira, junho 14, 2012

Ócios do ofício.

Cada dia terminava com a própria noite; cada ideia com suas conclusões; e cada manhã uma nova liberdade se erguia sobre as montanhas do leste e iluminava o mundo. Nunca houve razão para supor-se que seria o contrário.
Pois o que não pode um homem fazer que já não haja sido feito milhões de vezes antes?
É melhor sentar-se em apreciativa contemplação de um mundo, no qual a beleza será eternamente amparada pelos alicerces da feiúra.

Mas agora o verme do descontentamento o roía. Talvez a causa fosse o começo da idade madura.
No fundo de seu coração, achava que havia fracassado. Mas, ele era um homem razoável e realista. Mandou examinar os olhos e tirou uma radiografia dos dentes. O doutor examinou-o completamente e não descobriu nenhum foco de infecção que causasse essa inquietação. Por isso, ele atirou-se no trabalho, esperando, como o faz um homem, sufocar aquela inquietação com o cansaço.

quarta-feira, abril 18, 2012

Eu não estava lá, mas eu vi.

Uma das reações mais comuns decorrentes do choque é a letargia. Se, após um acidente de automóvel, um homem grita e retorce-se enquanto outro se senta calmamente olhando para o ar, costumeiramente é aquele que está quieto quem está mais ferido.

Quando as pessoas mudam de rumo é raro não se encontrar uma que não gaste a primeira meia hora de sua jornada olhando por sobre os ombros para trás.
E quando as coisas estão realmente más há pessoas que procuram outras pessoas em situação pior, a fim de se consolarem. É difícil ver-se o efeito proveniente disto, mas parece que dá resultados. Nós equilibramos a nossa dificuldade contra a dos outros, e se a nossa é menor a gente sente-se melhor.

Dentre todas nossas invenções tenebrosas, o pecado é logo o mais cômico e o mais doloroso. O mesmo foi implantado pela pressão coletiva da tribo para conservar a potencialidade perigosa e individual fora de equilíbrio? Está instalado no psicotecido, aguado e cultivado pelas glândulas sem flexibilidade? É a culpa uma invenção inconsciente pela qual um homem clama por atenção num mundo indiferente, ou será que o último prazer humano é a dor? Seja qual for a sua origem, gritamos como gatos ao copularem, uivamos para a Lua, como se fôssemos lobos, flagelamos a nós mesmos com os espinhos do desprezo, e geralmente gozamos com isto de uma maneira diabólica.

Que anelos secretos e entesourados existem em cada um de nós! Atrás de um nariz quebrado e de um olhar maligno pode haver um cortesão gentil; atrás das poses, símbolos e mitos talvez haja a ânsia de ser homem. Se pudéssemos ser, por apenas uma noite, o que mais desejássemos no mundo, o que aconteceria? Que segredo revelaria?

Se apenas as pessoas dedicassem os mesmos pensamentos, os mesmos cuidados, os mesmos julgamentos aos casos internacionais, à política, e mesmo às suas ocupações, que dissipam com o que vão usar num baile de máscaras, o mundo rolaria sobre encaixes oleados.

terça-feira, abril 17, 2012

Arte milenar.

Nem todos acreditam que sexta-feira é dia de azar, mas quase todos concordam em que este é um dia de espera. Nos estabelecimentos comerciais, a semana está finda. Nas escolas, sexta-feira é o portão entreaberto para a liberdade. Não é feriado, mas um dia em que se imagina o que nos trará o sábado. O comércio e as diversões decaem. As mulheres procuram nos guarda-roupas o que usar. 

Viajou a madrugada inteira só para vê-lo.
Passou o final de semana observando seus gestos, seus traços, seus cabelos, seus olhos, sua boca linda...
Fazia tempo que não se viam desta maneira.
Ela havia descoberto algo. 
Quando em dúvida, ande devagar. 
Moveu a cabeça em direção a ele, que se afastou. Estava encantada com sua descoberta... tudo-em-movimentos-lentos. Levantou o copo lentamente, olhou-o cuidadosamente, tomou um gole e conservou-o nas mãos por um momento antes colocá-lo sobre a mesa. Len-ti-dão... dava um significado para todas as coisas. Fazia com que tudo parecesse real. Lembrou-se das pessoas incertas e preocupadas que conhecia, que saltavam e faziam rebuliço. Fazendo tudo lentamente, forçando, ela sentiu uma nova espécie de segurança. "Não se esqueça", disse a si mesma. "Nunca esqueça disso. Deste momento! Não esqueça!"
Ela pegou um cigarro e ele ofereceu o fogo. Ela debruçou-se tão lentamente para a frente que a chama já atingia os dedos dele quando ela acabou de acender o cigarro. Um calor agradável percorreu-lhe o corpo. Ela sentia-se arrojada, não defensivamente audaz, mas segura. 
Ele estava ali... O que mais poderia querer?
Nunca tivera tão feliz e tão nostálgica...
Na segunda-feira, separaram-se calmamente no ponto de ônibus. Deveriam seguir rumos diferentes... Mas, no peito de cada um, ardia a chama da emoção. E a expectativa de um novo encontro.

quarta-feira, abril 11, 2012

Pura vodca.

Ele desconfiava que os pobres coitados jogados na calçada não passavam de um trio de bêbados, que alegremente, congelariam naquele frio de renguear cusco.
Parecia um detetive cheirando os pobre mendigos na rua: ''é vodca!" - alegou. A vodca possuía um imposto alto, o preço estava sempre subindo.
Considerava-se que três era o número da sorte numa garrafa, em termos de prudência econômica e efeito desejado.
Era um perfeito exemplo de comunismo primitivo.
- Uma linda tarde! - comentou ele, desdenhosamente.
Luciano era mais velho que os outros, um judeu de caricatura sob o disfarce de um capitão de milícia.
Ele não tinha a menor simpatia pelas pessoas.
Para ele, o importante era fazer uma grande encenação.
A aparência era seu grande objetivo.

Era repugnante, grotesco, estúpido e esnobe.
Sentia a necessidade de fazer com que as pessoas ao seu redor parecessem inferiores.

Dentro de mim, explodiam os piores sentimentos que o ser humano poderia ter.
Não me segurei na última vez em que o vi e falei: ''Eu nunca disse que os porcos não eram necessários. Eles lidam com todo tipo lixo social''.

Há ocasiões de alívio e triunfo em que as palavras não são necessárias.

sexta-feira, março 30, 2012

Is a moment of treasure.

Era sexta-feira. Ela estava exultante, como um ladrão de sepulturas.
Todas as noites deveriam ser tão escuras, todos os invernos tão quentes, todos os faróis tão ofuscantes.
Passou os dedos pelos cabelos pretos lisos.
O dia estava amanhecendo; e ela quase podia sentir a aceleração do movimento da terra em direção ao sol nascente. Acendeu outro cigarro.
Eram nove horas, já faziam três horas que ela fora arrancada da cama, ainda não comera nada.
Não estava com fome, mas a atividade de comer atraí-a. E estava com vontade de andar um pouco. Vestiu o casaco e foi encontrá-lo.

Olhos pequenos, como sementes de maçã. Olhos claros, como diamantes transparentes.
Como sempre, sua voz era tão baixa e suave que era preciso se concentrar intensamente para escutá-la.

Sentiram uma melancolia, como quando caem as folhas das árvores no outono. Melancolia esta forjada pela lembrança dos velhos tempos, dos velhos amigos desaparecidos e dos novos. E, durante todo o tempo ambos sabiam que estavam esquivando-se de um assunto; falando de histórias sem importância a fim de evitarem falar em um assunto mais sério: a saudade.
Era ela o motivo de tantas lágrimas e ao mesmo tempo, de tantos sorrisos. De tantas músicas e de tantos assovios. Era tão bom matá-la. Como uma necessidade, como a sede, como a fome, como o sexo.

terça-feira, março 27, 2012

A mudança lenta pode nos rasgar em pedaços

Embutida na capitulação suprema, havia um feixe de razões e angústias pessoais, conferindo permanência à depressão cósmica que lhe tirava o ânimo para resistir à qualquer coisa.

Naquele outono e no inverno seguinte, houve pródigos e portentos, mas a gente nunca os percebe a não ser muito tempo depois.

Ela, apesar de si mesma, de seus amigos e de seus conhecimentos, modificava-se. E por que não? As pessoas mudam e essa mudança chega como uma pequena brisa que agita as cortinas de uma janela, ao entardecer, e chega como o furtivo perfume das flores silvestres escondidas na grama. Essa mudança pode ser percebida por uma pequena dor, quando pensamos que estamos resfriados. Ou, também, pode-se sentir um ligeiro desprezo por aquilo que ainda ontem amávamos. Pode até tomar a forma de fome, que o amendoim não matará. Não é dito por todos que um dos maiores sintomas de descontentamento é o de comer demais? E não é o descontentamento uma das causas das modificações?

E onde começa o descontentamento? Pode-se estar convenientemente aquecido, mas treme-se. Pode-se estar bem alimentado, contudo a fome nos tortura. Pode-se ser amado, mas invejamos os outros. E para aguilhoar tudo isso lá está o tempo... o tempo bastardo. O fim da vida não está agora tão terrivelmente afastado... que se pode vê-lo, da mesma forma como se vê o final de uma linha traçada... e nossa mente nos diz: "Trabalhei o suficiente? Comi o bastante? Amei satisfatoriamente?" Tudo isto, naturalmente, é o legado pio da maior maldição do homem, e talvez sua maior glória. "Qual o significado de minha vida, e o que pode ela significar pelo tempo que me é ainda permitindo viver?"

Parece que os homens nascem com uma dívida que nunca poderão pagar, não importa o quanto se esforcem. Ela se amontoa em sua frente. Um homem sempre deve algo a outro homem. Se ele ignora o débito, este o envenena, e se ele tenta fazer algum pagamento o débito apenas aumenta, e a qualidade de seus donativos é a medida do homem.

Ela tinha a capacidade de olhar esse mundo cheio de excitações com olhos afáveis e desprovidos de crítica. Combinava as belezas marítimas com a mais bela das realizações humanas... a música.
Estando em paz consigo, fazia com que estivesse em paz com todo o mundo.