Muitas coisas não pode dizer. Morrem os ecos de sua voz.
Há tristeza. Angústia. Lembranças.
Os movimentos são lerdos, quase medidos.
Ela é alta, esguia, hierática, tem a pele alva, os dedos finos e compridos, o
rosto um tanto reto, a testa larga, os lábios cor-de-rosa; fundos são os
seus olhos. Fundos e negros. As mãos dobradas sobre os seios, os ombros
altos. Na porta do quarto, pára. Observa.
Fica olhando-se no pequeno espelho com medonha reprovação. Tenta
apenas esboçar um sorriso. Abre os lábios num sorriso branco. Depois o
sorriso vai crescendo, crescendo. Dá uma gargalhada estridente.
Primeiro é o relâmpago que
alumia toda a sala. Não há tempo para que os rostos sejam distinguidos.
Depois o trovão parece arrastar pedras.
Noite completa. Havia chegado a hora do jantar. Um ou outro toque de talheres; arrastados de chinelos...
Saiu do banheiro com os cabelos negros soltos, pingando água, seu perfume embriagava o local.
A água bate no telhado da casa, fazendo um ruído medonho, intensificando o receio e o frio. A ventania uiva seus gritos danados.
Quando o silêncio completo enche toda a casa, a chuva aumenta de intensidade, prenunciando mistérios.
''Lembro-me que a cigana, segurando minhas mãos alvas, disse olhando
nos meus olhos: 'seu amor voltará numa noite de tempestades, de
agoniação. Virá num cavalo branco ajaezado, coberto de alegrias e
pastoreando felicidade. Chegará quando a noite for completamente noite,
para que os dedos finos possam apalpar no segredo a alvura de suas
coxas"'
Com a violência do vento e
a agitação da chuva, a janela bate diversas vezes como numa casa
abandonada. Fica batendo sem que ninguém se levante para fechá-la.
Ela
se aproxima da janela. Fica na ponta dos pés. Não pode ver muito
distante, porque a noite é de uma escuridão completa. Chove muito.
Papo rápido no uatizape.
Há 3 semanas