quarta-feira, abril 18, 2012

Eu não estava lá, mas eu vi.

Uma das reações mais comuns decorrentes do choque é a letargia. Se, após um acidente de automóvel, um homem grita e retorce-se enquanto outro se senta calmamente olhando para o ar, costumeiramente é aquele que está quieto quem está mais ferido.

Quando as pessoas mudam de rumo é raro não se encontrar uma que não gaste a primeira meia hora de sua jornada olhando por sobre os ombros para trás.
E quando as coisas estão realmente más há pessoas que procuram outras pessoas em situação pior, a fim de se consolarem. É difícil ver-se o efeito proveniente disto, mas parece que dá resultados. Nós equilibramos a nossa dificuldade contra a dos outros, e se a nossa é menor a gente sente-se melhor.

Dentre todas nossas invenções tenebrosas, o pecado é logo o mais cômico e o mais doloroso. O mesmo foi implantado pela pressão coletiva da tribo para conservar a potencialidade perigosa e individual fora de equilíbrio? Está instalado no psicotecido, aguado e cultivado pelas glândulas sem flexibilidade? É a culpa uma invenção inconsciente pela qual um homem clama por atenção num mundo indiferente, ou será que o último prazer humano é a dor? Seja qual for a sua origem, gritamos como gatos ao copularem, uivamos para a Lua, como se fôssemos lobos, flagelamos a nós mesmos com os espinhos do desprezo, e geralmente gozamos com isto de uma maneira diabólica.

Que anelos secretos e entesourados existem em cada um de nós! Atrás de um nariz quebrado e de um olhar maligno pode haver um cortesão gentil; atrás das poses, símbolos e mitos talvez haja a ânsia de ser homem. Se pudéssemos ser, por apenas uma noite, o que mais desejássemos no mundo, o que aconteceria? Que segredo revelaria?

Se apenas as pessoas dedicassem os mesmos pensamentos, os mesmos cuidados, os mesmos julgamentos aos casos internacionais, à política, e mesmo às suas ocupações, que dissipam com o que vão usar num baile de máscaras, o mundo rolaria sobre encaixes oleados.

terça-feira, abril 17, 2012

Arte milenar.

Nem todos acreditam que sexta-feira é dia de azar, mas quase todos concordam em que este é um dia de espera. Nos estabelecimentos comerciais, a semana está finda. Nas escolas, sexta-feira é o portão entreaberto para a liberdade. Não é feriado, mas um dia em que se imagina o que nos trará o sábado. O comércio e as diversões decaem. As mulheres procuram nos guarda-roupas o que usar. 

Viajou a madrugada inteira só para vê-lo.
Passou o final de semana observando seus gestos, seus traços, seus cabelos, seus olhos, sua boca linda...
Fazia tempo que não se viam desta maneira.
Ela havia descoberto algo. 
Quando em dúvida, ande devagar. 
Moveu a cabeça em direção a ele, que se afastou. Estava encantada com sua descoberta... tudo-em-movimentos-lentos. Levantou o copo lentamente, olhou-o cuidadosamente, tomou um gole e conservou-o nas mãos por um momento antes colocá-lo sobre a mesa. Len-ti-dão... dava um significado para todas as coisas. Fazia com que tudo parecesse real. Lembrou-se das pessoas incertas e preocupadas que conhecia, que saltavam e faziam rebuliço. Fazendo tudo lentamente, forçando, ela sentiu uma nova espécie de segurança. "Não se esqueça", disse a si mesma. "Nunca esqueça disso. Deste momento! Não esqueça!"
Ela pegou um cigarro e ele ofereceu o fogo. Ela debruçou-se tão lentamente para a frente que a chama já atingia os dedos dele quando ela acabou de acender o cigarro. Um calor agradável percorreu-lhe o corpo. Ela sentia-se arrojada, não defensivamente audaz, mas segura. 
Ele estava ali... O que mais poderia querer?
Nunca tivera tão feliz e tão nostálgica...
Na segunda-feira, separaram-se calmamente no ponto de ônibus. Deveriam seguir rumos diferentes... Mas, no peito de cada um, ardia a chama da emoção. E a expectativa de um novo encontro.

quarta-feira, abril 11, 2012

Pura vodca.

Ele desconfiava que os pobres coitados jogados na calçada não passavam de um trio de bêbados, que alegremente, congelariam naquele frio de renguear cusco.
Parecia um detetive cheirando os pobre mendigos na rua: ''é vodca!" - alegou. A vodca possuía um imposto alto, o preço estava sempre subindo.
Considerava-se que três era o número da sorte numa garrafa, em termos de prudência econômica e efeito desejado.
Era um perfeito exemplo de comunismo primitivo.
- Uma linda tarde! - comentou ele, desdenhosamente.
Luciano era mais velho que os outros, um judeu de caricatura sob o disfarce de um capitão de milícia.
Ele não tinha a menor simpatia pelas pessoas.
Para ele, o importante era fazer uma grande encenação.
A aparência era seu grande objetivo.

Era repugnante, grotesco, estúpido e esnobe.
Sentia a necessidade de fazer com que as pessoas ao seu redor parecessem inferiores.

Dentro de mim, explodiam os piores sentimentos que o ser humano poderia ter.
Não me segurei na última vez em que o vi e falei: ''Eu nunca disse que os porcos não eram necessários. Eles lidam com todo tipo lixo social''.

Há ocasiões de alívio e triunfo em que as palavras não são necessárias.

sexta-feira, março 30, 2012

Is a moment of treasure.

Era sexta-feira. Ela estava exultante, como um ladrão de sepulturas.
Todas as noites deveriam ser tão escuras, todos os invernos tão quentes, todos os faróis tão ofuscantes.
Passou os dedos pelos cabelos pretos lisos.
O dia estava amanhecendo; e ela quase podia sentir a aceleração do movimento da terra em direção ao sol nascente. Acendeu outro cigarro.
Eram nove horas, já faziam três horas que ela fora arrancada da cama, ainda não comera nada.
Não estava com fome, mas a atividade de comer atraí-a. E estava com vontade de andar um pouco. Vestiu o casaco e foi encontrá-lo.

Olhos pequenos, como sementes de maçã. Olhos claros, como diamantes transparentes.
Como sempre, sua voz era tão baixa e suave que era preciso se concentrar intensamente para escutá-la.

Sentiram uma melancolia, como quando caem as folhas das árvores no outono. Melancolia esta forjada pela lembrança dos velhos tempos, dos velhos amigos desaparecidos e dos novos. E, durante todo o tempo ambos sabiam que estavam esquivando-se de um assunto; falando de histórias sem importância a fim de evitarem falar em um assunto mais sério: a saudade.
Era ela o motivo de tantas lágrimas e ao mesmo tempo, de tantos sorrisos. De tantas músicas e de tantos assovios. Era tão bom matá-la. Como uma necessidade, como a sede, como a fome, como o sexo.

terça-feira, março 27, 2012

A mudança lenta pode nos rasgar em pedaços

Embutida na capitulação suprema, havia um feixe de razões e angústias pessoais, conferindo permanência à depressão cósmica que lhe tirava o ânimo para resistir à qualquer coisa.

Naquele outono e no inverno seguinte, houve pródigos e portentos, mas a gente nunca os percebe a não ser muito tempo depois.

Ela, apesar de si mesma, de seus amigos e de seus conhecimentos, modificava-se. E por que não? As pessoas mudam e essa mudança chega como uma pequena brisa que agita as cortinas de uma janela, ao entardecer, e chega como o furtivo perfume das flores silvestres escondidas na grama. Essa mudança pode ser percebida por uma pequena dor, quando pensamos que estamos resfriados. Ou, também, pode-se sentir um ligeiro desprezo por aquilo que ainda ontem amávamos. Pode até tomar a forma de fome, que o amendoim não matará. Não é dito por todos que um dos maiores sintomas de descontentamento é o de comer demais? E não é o descontentamento uma das causas das modificações?

E onde começa o descontentamento? Pode-se estar convenientemente aquecido, mas treme-se. Pode-se estar bem alimentado, contudo a fome nos tortura. Pode-se ser amado, mas invejamos os outros. E para aguilhoar tudo isso lá está o tempo... o tempo bastardo. O fim da vida não está agora tão terrivelmente afastado... que se pode vê-lo, da mesma forma como se vê o final de uma linha traçada... e nossa mente nos diz: "Trabalhei o suficiente? Comi o bastante? Amei satisfatoriamente?" Tudo isto, naturalmente, é o legado pio da maior maldição do homem, e talvez sua maior glória. "Qual o significado de minha vida, e o que pode ela significar pelo tempo que me é ainda permitindo viver?"

Parece que os homens nascem com uma dívida que nunca poderão pagar, não importa o quanto se esforcem. Ela se amontoa em sua frente. Um homem sempre deve algo a outro homem. Se ele ignora o débito, este o envenena, e se ele tenta fazer algum pagamento o débito apenas aumenta, e a qualidade de seus donativos é a medida do homem.

Ela tinha a capacidade de olhar esse mundo cheio de excitações com olhos afáveis e desprovidos de crítica. Combinava as belezas marítimas com a mais bela das realizações humanas... a música.
Estando em paz consigo, fazia com que estivesse em paz com todo o mundo.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Questão de tempo.

Ventava um pouco, e cada vez que a porta se abria, para a entrada ou a saída de alguém os cabelos dela voavam-lhe no rosto. Ao erguer a mão pela terceira vez para afastá-los, prendeu a fivela do relógio na malha do vestido, na altura do ombro.
Todos os olhares convergiam para ela. Não tinha outra saída senão puxar a mão com força e arrebentar a malha do vestido, que continuava a prender o relógio. Abaixou o rosto e, antes de fazer o movimento desejado, sentiu dedos fortes e ágeis entre os seus, que, numa fração de segundo, soltaram-lhe a mão. Surpresa, levantou o olhar e se deparou com o de um homem cuja expressão era suave e alegre.
Como os seus, os olhos eram da cor de verde, só que de um tom diferente. Algo naquelas feições lhe era vagamente familiar. Os cabelos pareciam ter a tendência de cair um pouco na testa, e o corte os afastava das orelhas, estreitando-se um tanto da nuca. O conjunto todo era o de um rosto famoso.
Ficaram tantos dias longe que ela parecia ter esquecido suas feições. Apenas as lembranças no seu consciente. Agora ela lembrara: era o homem de sua vida.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

É o meu doce começo.

O jantar era composto por amigos, amigos de amigos e conhecidos destes amigos dos amigos.
Ela o esperava. Havia mais ou menos uns... vários dias que não se viam. E ela estava lá, sentada à mesa com pessoas que nem conhecia. Esperando.
Tentava ignorar as pretensiosas besteiras de um poeta, um cara muitos anos mais velho e que não tinha nenhum respeito pela impaciência dos outros. Ele estivera divagando sobre si mesmo por mais de uma hora e ela, a princípio, tinha escutado respeitosamente porque era do tipo de pessoa cujo comportamento adulto - em situações como essa - refletia a sua educação de criança; e quando criança, tinham lhe ensinado a ser polida.
Por outro lado, tinha um genuíno interesse por escritores mais velhos e, ficava sentada, fascinada, enquanto eles contavam suas histórias sobre arte e ambições (a fofoca, embora antiga, era deliciosa!) de quarenta anos atrás.


- Estás me esperando há muito tempo? - ele perguntou.
E subitamente lhe ocorreu que sim, ela estivera esperando havia muito tempo.
- Claro - ela respondeu distraidamente, notando o sorriso torto que a fazia se lembrar, embora de maneira nada desagradável, de um lobo rosnando, e se virou justamente quando o velho poeta ciumentamente estendia sua mão para chamar sua atenção para o hilariante, para ele, final da história. Ela riu e bateu no joelho, num gesto tão falsamente descontraído que logo a fez rir realmente pra valer. Encontrando os olhos de P.H. enquanto assim se divertia, notou neles um brilho particular que imediatamente reconheceu.
''Meu amante'', ela pensou, observando seus cabelos, seus olhos claros, tão sensíveis, protegidos pelo par de óculos, sua pele não era tão perfeitamente bronzeada quanto poderia ser, mas que definitivamente lhe agradava.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Aqueles dias de ouro.

Enlaçou seu braço no dele e convidou:
- Vamos para casa?
- Vamos.
Ela apertou seu braço com força.
Ele sorriu, com um pouco de preocupação em seu olhar:
- Tu sabes que não gosto quando apertas meu braço desta maneira. Parece me pedir socorro. Fico preocupado.
- Eu sei, meu amor. - e sorriu.

Ao chegarem em casa, ele insistiu para que ela tomasse um banho demorado. Isso aliviaria a tensão que sentira no momento.
Sentindo-se bem mais reconfortada, ela acomodou-se no sofá da sala. Vestia uma camisa de seu amado e olhava absorta pela janela, enquanto tragava um cigarro.
Ele a procurara cheio de amor:
''Estou aqui, meu amor, e vou ficar pelo tempo que tu quiseres''
- Que tal para sempre? - sugeriu ela.
Ele concordou com um sorriso e um aceno com a cabeça.
Beijou-a com toda a delicadeza e controle como se ela fosse a criatura mais frágil desse mundo e que precisasse ser tratada com o máximo de cuidado.
Ela retribuiu a carícia e ajeitou-lhe os cabelos na testa. Bem de leve, traçou uma linha, com a ponta dos dedos, que desceu pelas pálpebras, passou pelas bochechas e contornou os lábios. Desejava tocá-lo, vê-lo e respirar o aroma familiar.
Ele acariciou-a na coxa exposta logo abaixo da barra da camisa. Sorriu ao ver que a mão tremia.
Tivera tanta saudade dele. Durante os dias e noites de solidão, ela havia sonhado com aquele momento de reencontro. Queria tê-lo entre os braços, amá-lo e satisfazer-lhe os desejos. Todos os momentos de separação haviam sido preenchidos por recordações saudosas e pelo desespero de não poder tê-lo. Mesmo agora, custava-lhe acreditar que a sua entrega fosse total.
Ele abraçou-a sôfrego e enterrou o rosto na curva de seu pescoço, de onde a voz saiu abafada:
- Tente ver se consegue escapar - provocou.
Havia muito que precisavam esclarecer e dizer um ao outro. Precisava fazer-lhe promessas, ouvir as suas e, acima de tudo, planejar o futuro. Porém, seus corpos já se comunicavam na linguagem natural do amor, e as palavras que deveriam ser ditas, passaram a ser supérfluas ante a comunhão física perfeita.

O olhar dela revelava a nudez do desejo e da sensualidade. Ele beijou-a na face e afagou-lhe os cabelos. Queria adorar cada centímetro daquele corpo e que aquele prelúdio fosse eterno, mas não podia ignorar a exigência da satisfação total. Com um meio sorriso, sussurrou:
- Tu te importas que a gente faça amor primeiro e depois converse?
Ela concordou em silêncio, puxando-o pelos ombros de encontro ao próprio corpo, porém, murmurou:
- Há uma coisa que preciso dizer antes.
Fazia tanto tempo que ansiava pronunciar as palavras simples de significado tão profundo.
- Eu te amo - sussurrou meiga.
Isso era tudo que ele desejava ouvir.
Lá fora reinava a ruína, mas, nos braços um do outro, eles construíram o próprio mundo. Amaram-se através da noite, e o sonho que tinham arquitetado havia tantas semanas era, finalmente, deles para a eternidade.

quarta-feira, novembro 16, 2011

60 revoluções por minuto.

Como se o dia prometesse ser excepcionalmente bom, acordei com ótima disposição de espírito. A luz dourada do sol, através das cortinas transparentes que cobriam uma das paredes inteiras do quarto, chegava até a cama e, com o farfalhar da brisa, parecia produzir centenas de diamantes que brincavam nas cobertas.
Adorava essa janela imensa que jamais fechava durante a noite para poder acordar com a luminosidade matinal.
Cantarolando baixinho, fui até a cozinha, passando por todos os cômodos da casa enquanto admirava a decoração e tocava um ou outro objeto mais querido. 
Em todos os cômodos o sol infiltrava-se através de janelas exageradas, e em cada um havia um relógio. Ao ouvir o tique-taque deles, eu mantinha a ilusão de estar no controle do tempo, embora fora consciente de minhas limitações.
Eram oito e meia da manhã, e estava certa de que seria um dos melhores dias da minha vida. Às nove, em ponto, quando o telefone tocou, convenci-me de que seria o pior.
As notícias só podiam ser péssimas, pensei desolada. 

Olhei em volta numa tentativa de recuperar o contentamento com que despertei. 

Há cinco anos, tudo não passava de um sonho nebuloso e distante. No entanto, como se o céu se abrisse, os tesouros começaram a cair sobre a minha cabeça. ''E se desaparecessem da mesma forma?'', indaguei, aflita. 
Apanhei-me mais uma vez com uma bolacha a meio caminho da boca. Devolvi-a depressa à lata. Sabia que estava sendo infantil ao me deixar dominar pela insegurança, meu pior defeito. 
Eu precisava reconhecer quão boa eu era. O céu havia-se aberto para cobrir-me com uma chuva de benefícios? Não! Tudo o que eu possuo é fruto de esforço e trabalho próprios, qualidades essenciais para se chegar ao sucesso.
Ninguém pode me tomar o que por direito me pertence.

Logo, recebi uma mensagem: ''Ainda bem que o tem bom humor não se foi junto com tudo que perdestes''.

Passei o resto da manhã tentando seguir esse raciocínio. 

sexta-feira, novembro 11, 2011

Só diga o que você precisa.

- Tu não compreendes - ela disse-me. - Não se trata dele, absolutamente.
- Ahn...
Voltou-se para mim e viu em meu rosto tamanha curiosidade, uma tal mania de conselhos, uma tal expressão de vampirismo. Asseverei, com gravidade:
- Pensas entrar para um convento?
Eu, embalei-me em longa dissertação sobre os prazeres da vida, os passarinhos, o sol, etc.
- Queres deixar tudo isso só por causa desta loucura?
E falei também sobre os prazeres do corpo, baixando a voz, cochichando:
- É preciso não esquecer.... que ''isso'' também tem importância.
Em suma, eu acabaria ali, lançando de forma que lhe descrevia os prazeres da vida. Seria possível que a vida se reduzisse ''àquilo'' para alguém?
Ainda por cima, ela se mostrou tão opulenta em lugares comuns, tão pronta à odiosa promiscuidade das mulheres, às confidências pormenorizadas, que a larguei ali mesmo na calçada, com alegre e súbita decisão. E resolvi, alegremente: ''Suprimos também Caroline. Caroline e seus devotamentos''. E para abrandar a minha ferocidade, tive vontade de cantarolar.

Passeei durante uma hora, entrei em seis lojas, discuti a torto e a direito, com desembaraço. Sentia-me livre, alegre mesmo, pois aquela cidade, agora, me pertencia. Ela pertencia aos sem escrúpulos, aos desenvoltos; eu sempre notara isso, porém de forma cruel, por falta mesmo de desenvoltura. Mas daquela vez era a minha cidade, a minha bela cidade dourada e categórica ''que nos pagava conforme a tratávamos''.
Exaltava-me e impelia-me qualquer coisa; provavelmente, alegria. E eu caminhava depressa, sentia um peso de impaciência, de sangue, nos pulsos, julgava-me ridiculamente jovem. Em momentos assim, de felicidade louca, tinha a impressão de atingir uma verdade muito mais evidente do que as pobres verdadezinhas tão reteiradas de minhas tristezas.