Naquela noite, eu não conseguia dormir. Vira de um lado, vira de outro. Troquei de travesseiro, de pijama, de pensamento e nada. Lá pelas tantas, resolvi levantar. Beber água, quem sabe, ler ou ouvir música, tomar banho ou arrumar o armário. Vaguei sem rumo pela casa, tomando decisões e desistindo delas. Abri a porta que dava para a rua. O ar fresco da noite entrou, eu saí. Deitei na calçada e olhei para o céu. Poucas estrelas, nenhuma Lua, o pensamento ágil, nervos tesos.
- Ei!
Alguém me chamou e eu não estava sonhando. Olhei para os lados, sentei, com o coração saltando.
- Tu mesmo, aqui, aqui!
A voz parecia vir do alto. Levantei.
- Aqui, na árvore. Olha para cima.
Aproximei-me da árvore, a única que sombreava aquela pequena calçada. Fitei longamente os galhos, e lá estava, trepado em um galho, um menino. Eu não distinguia direito suas feições. Cheguei mais perto.
- Por que tu não tá dormindo?
- Quem é tu? O que tá fazendo aqui?
- Eu sou o Caio. E tu é o Mário, né?
- Sou o Mário, sim. Mas o que tá fazendo aqui?
- Tu tá sem sono?
- Tô sim. Mss porque diabo tu tá aí, trepado nessa árvore?
O menino deu um pulo e caiu a meus pés, dando uma cambalhota. Levantou os braços para o alto, como se fosse um ginasta olímpico e curvou-se em um longo e penetrante cumprimento. Ele devia ter mais ou menos oito anos de idade; os cabelos despenteados e longos que lhe chegavam aos ombros. Fiquei alguns minutos observando aquela aparição. Um macacão escuro cobria-lhe os pés descalços.
- Adivinha o que eu tenho em mãos?
Com o peito bombado e os braços cruzados nas costas, Caio olhava para mim, interrogativo.
- Nas mãos?
- Sim, aqui atrás. Primeiro na mão esquerda.
- Não sei, nada.
- Nada não vale. Seu eu lhe perguntei o que eu tinha na mão esquerda é porque há algo. O que tenho na mão esquerda?
Não sei de onde tirei a resposta, mas joguei em tom de desafio:
- Um texugo vermelho.
O menino sorriu calmamente e retirou a mão das costas, segurando pelo rabo um texugo vermelho. Nunca tinha visto um antes e sequer sabia ao certo o que era um texugo. Ele pousou o animal no chão e perguntou novamente:
- E na outra?
Desta vez, pensei com calma, intrigado e ao mesmo tempo seduzido pela brincadeira.
- Hum, uma torradeira.
- Uma torradeira? Como assim uma torradeira?
- Uma torradeira de pão, ora bolas!
- Mas como assim uma torradeira de pão?
Que menino chato!
- Uma torradeira, grande, com os dois lados de um croissant amanteigado, assando.
O menino sorriu e tirou de trás, aquilo que me parecia agora natural: uma torradeira de pão. Ao pousá-la no chão, ele ejetou duas fatias de croissant. O menino pegou uma no ar: sentou no chão e começou a comer. Sentei a seu lado, enquanto ele apontava para a outra metade, com o queixo. Peguei o croissant quentinho.
- Por que tu não tá conseguindo dormir, Mário?
- Não sei direito. Às vezes acontece.
- É verdade. Comigo acontece também. Aliás, sempre. Nunca durmo.
- Nunca?
- Nunca. Vamos brincar mais?
- Brincar?
- É, brincar.
- Tá bom, mas primeiro tu me diz o que tá acontecendo aqui?
- Brincando contigo, ora bolas.
Sorri com o ''ora bolas'' provocativo do menino. Ele caiu numa gargalhada sonora, sacudindo o corpo pra trás. Também gargalhei.
- Vem aqui. Tenta me pegar.
O garoto deu um pulo e começou a correr pela calçada. No início, tentei segui-lo com os olhos, ensaiando alguns passos, para depois começar a correr também. Ele corria devagar, olhando para trás. Quando eu estava para pegá-lo, ainda um pouco apreensivo em tocar aquela aparição, ele deu um grito, agarrou-se com as mãos no galho da árvore e ficou de pé, acima da minha cabeça.
- Vem me pegar, vem!
- Desce daí, menino, tu vai cair.
- Vem me pega, vem.
Dei um pulo e agarrei o galho. Balancei ridiculamente, até cair com a bunda no chão.
- Tu tem que querer pular, senão não consegue.
- Engraçadinho tu... Como assim, ''querer''?
- Querer quer dizer fazer de conta que tu é um macaco ou um canguru. Tenta aí.
- Não, chega. Não quero mais brincar. Chega.
- Por quê?
Caio desceu da árvore e sentou-se ao meu lado. Colocou a mão no meu ombro e olhou para mim, com o rosto quase a me beijar. Senti seu sopro. Ele estava sério.
- O que é isso no teu pescoço?
- No meu pescoço?
- Sim, aqui.
O garoto colocou a mão por dentro do meu colarinho e puxou de lá um guarda-chuva. Tomei um susto.
- E aqui? Aqui? Aqui?
A cada palavra, ele tirava dos bolsos do meu pijama uma batedeira de maionese, um amortecedor de carro etc.
Eu comecei a rir, e ele pulou em cima de mim. Rolamos na calçada. Rolamos e rimos, rimos e rolamos.
Acordei molhado pelo orvalho da manhã.
Deitado na rede, um texugo vermelho roncava, e a gargalhada de um menino brincalhão ainda ecoava pela rua adormecida.
Papo rápido no uatizape.
Há 3 semanas