segunda-feira, dezembro 21, 2009

Média para sumir.

A doçura do olhar emurchecido do rosto. O lábil tremor do gesto no encontro das mãos.
Puxei-o pela mão direita. Parece que a mão direita do homem protege a gente, mulher.
Mais manhãs de agosto passaram-se. Mais manhãs de setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, abril, março, abril, maio, junho, julho.
E daí que os mal-entendidos eram subentendidos e os subentendidos, mal-entendidos?
Foi num dia de primavera que ela se revoltou. Sim, foi. Era quase noite, cores e luz em emulsão no ar, deu-se num largo mesquinho.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Um que você ama é onde você esconde.

Fora um encontro casual.
Sorriram, piscaram, enrubesceram. Aproximaram-se, cochicaram impronunciáveis resmungos, tocaram-se.
Amaram-se, uma noite para sempre, em frente à grande estante errática da sala. Arrastando-se por entre as páginas amareladas e memórias náufragas, hipnotizou-lhes o encantamento.
Lembranças, amuletos e retratos, bibelôs quebrados, brinquedos enferrujados. Objetos tristes entre livros cerrados.
Os resmungos sibilavam malícias nos seus tímpanos e a pútrida fumaça do ócio embrulhava-lhe as tripas.
Quando acordou, no dia seguinte (se é que pode-se dizer que dormiram), ela pareceu mais feliz, porém, estranha e confusa com aquela situação. Seu coração parecia derreter ao vê-lo dormindo. Com a barba ainda tímida, ele recebeu um beijo quente dela. Sorriu.

É o outro eu que eu te contei.

Tudo estava em silêncio.
Debaixo da bancada desordenada, na estante de instrumentos, entre os vasos esparsos, ela fuçou. Nada ali.
Enfim, a madrugada arregaçou suas anáguas e ela, cansada, tentou afogar sua frustração no pub sonolento. Sua última esperança, derradeiro refúgio.
A noite tinha sido agitada e ainda ecoavam distantes risos, cantos e confissões públicas, compartilhadas, solidárias. Os bêbados de sempre. Em busca, como ela.
Entrou no depósito desordenado - sem querer -. Barris emborcados, babas salivadas... Encontrou a saída. O relento ora doce ora azedo das fermentações.
Foi até o balcão do bar novamente. Afogou-se numa caneca de cerveja escura, para esquecer a busca, a saudade sonhada e o disfarce de liberdade.
Voltando a andar, se depara com sua casa favorita. Na verdade, um sobrado de paredes amarelas, janelas e portas azuis.
Aquele sobrado permanecia cheio de gritos e roncos sinfônicos, ela nomeava assim, mas sabia que eram gemidos. De qualquer forma, era decorado com muito esmero, tapetes, troféus, bibelôs por toda parte. Os donos dele, às vezes, recitavam uns para os outros juras de amor, vingança, conquista, opressão e morte.
Mas ela, continuara sua busca. Agora, no presente.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Ele levou minutos, levou a nenhum lugar.

Gostava de se vestir bem. Usava relógio de ouro. Sapatos sob medida. Antes de sair de casa, examinava-se no espelho. Parecia precocemente envelhecido, talvez porque bebesse demais com os amigos todos os dias. De qualquer maneira, sentia-se um vencedor. Mas não era feliz.
Freqüentemente, chegava em casa bêbado, de madrugada. Consumia-se em angústias que jamais confessara a alguém. Quando ficava deprimido, passava dias inteiros sem abrir a boca, imerso, alheio, indiferente. Rico e hipocondríaco, olhava-se toda manhã em busca de novas rugas e novos cabelos brancos, antes de sair para o trabalho no escritório.
A mulher que ele amava continuava solteira, morando com os pais; estava muito magra; sempre solitária... Pelo menos essas eram as notícias que seu irmão trazia sobre a moça.
Numa madrugada de domingo, acordou sobressaltado. A mão direita doía como se estivesse sob pressão de tenazes de aço. Imaginou que acabava de sofrer um derrame. Acendeu a luz, chamou a mulher - ele fora obrigado a casar com ela, para não se sentir só - e ela resmungou, irritada: ''Isso não é nada, é cisma tua. Tu estava dormindo sobre a mão, não é nada de mais. São três horas da madrugada, me deixa dormir, pelo amor de Deus''.
Cinco dias depois, recebeu mais uma visita do irmão dela, no escritório. O homem, abatido, trazia a notícia triste; ela morrera em seus braços, na madrugada do último domingo, às três da manhã. Antes de morrer, murmurava: ''Minha última vontade era apertar novamente a mão dele''.
Ouviu a notícia em silêncio. Mas assim que o outro saiu, começou a chorar como uma criança, porque percebeu naquele instante - naquele preciso e fugaz instante - tudo o que havia perdido pra sempre.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Charlie.

Ele era um homem civilizado. Ci-vi-li-za-do.
Uma pessoa de cuca limpa, com idéias abertas ou libertas.
Se sentou em um banco e ficou ali, até raiar o dia.
A festa continuava lá dentro. Ele despertou de uma longa letargia e foi embora.
Chovia muito naquele sábado de manhã.
Charlie não gostava nada de chuva. Nem de banho. Nem de cheiro de alho e barulho de moto.
No terraço, ele sentou, olhando a chuva cair, pesada, fria, molhada. O dia era daqueles compridos, daqueles que não acaba mais.
Como gota longa que escorre no vidro. Como uma lambida de gato.
Mais tarde, um raio de sol deslizou entre as nuvens.
Ele saiu do torpor e foi caminhar, sem pressa, na grama molhada.
Numa bromélia arreganhada tinha uma mosca. Uma mosca com patas e asas, como todas as moscas.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Anos de prata.

Eles se encontravam uma ou duas vezes por semana.
Paixão, ela reverberava. Fosforescências.
Ele dizia claramente. Não queria se casar, não queria se juntar. Não gostava de iludir. Cada qual em dividido, para se somarem no mais e no tudo. Assim ele dizia. Assim ele queria. Assim ela assentia.
Na esperança de esperar, ela esperava. Um dia, quem sabe? Eles se casariam.
Os encontros semanais. Resplandescências.
Durante muitos anos ela viveu feliz, à espera do que esperava. Consonâncias, as ressonâncias.
Uma vez, como tantas vezes, quando ele voltou de viagem, não telefonou. E não atendeu quando ela ligou. Dissonâncias? Reacreditada, ela se esperou. Palidecências.
De manhã, debaixo da porta dela, um envelope com a letra dele. Um bilhete. Obscurecência. Estava tudo acabado. Ele acabava de se casar.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Forma ao esquema de coisas.

Um é placidez dos lençóis. Outro é o estremecer da nudez. Um é a resposta da carícia na pele. Um é o segredo do oculto. Outro é a revelação do exposto. Um é o suspiro. Outro é o arquejo. Um é a espera. Outro é perigo. Um é o amor. Outro é a paixão. Ela quer os dois.

terça-feira, novembro 24, 2009

Simétrico.

Acariciando o queixo, desenhava com uma mão, assuntando com as tripas e respirando com o coração.
Horas a fio pesquisava, firmava o traço e os rabiscos soluçavam sobre o papel.
Tudo começou com um ponto. Um ponto solto, vermelho, solitário, no meio da folha. Depois, uma linha a percorrer o papel em arabescos barrocos. As curvas loucas, preenchenco o vazio, desenrolando-se e curvando-se novamente para todos os lados. Finalmente, as manchas pesadas espatifando-se e dissipando os intrincados ornamentos.
Os gatinhos sapecavam em suas pernas, de fome.
Esfregando pesadamente suas pantufas felpudas pelo piso gelado da sala, vai até a cozinha. Vazia e escura. Já era quase dia. Aproveita e bebe um pouco de uísque. Ele se empolga, senta na mesa e bebe duas garrafas. Em instantes, dormia um sono etílico.
O telefone toca e ele, após acordar assustado, sobe até o quarto para atendê-lo. Era engano. Fica por lá e continua a escrever.
Quando se deu por satisfeito, no quarto silencioso, um enorme sorriso iluminou o papel. A carta estava cerrada. Mandaria no dia seguinte. No mesmo envelope, o desenho que fizera.
Todas as cartas de amor são parecidas. Dizem as mesmas coisas, repetem as mesmas palavras, as mesmas superfícies e idênticos conteúdos.
Cartas de amor não dizem nada. Cartas de amor são palavras parasitas. Tal qual um vírus inanimado quando solto no ar, manifestam-se quando penduram seus mistérios no receptor.
E, quando encontram o único e adequado terreno, meu Deus, o que é essa avalanche? Meu Deus do céu, faça-me escravo desta química!
De que me importa o Deus do céu, quando se ama?

segunda-feira, novembro 23, 2009

Ré menor, opus 21.

- Tu sabe o que é uma borboleta?
- Mas... Claro que sei!
- O que é, então?
- Ora, é uma borboleta! Uma... butterfly, uma... mariposa, uma Schmetterling, uma papillon, certo?
- Muito certo. Mas como ainda podemos definir uma borboleta?
- Um ser, um inseto que voa!
- Correto. O que mais?
- Bem, as borboletas têm uma tromba de elefante por onde se alimentam, asas muito grandes e coloridas, muitos pés também.
- Mais alguma coisa?
- Elas vivem pouco tempo. Pobres borboletas...
- É?
- É, e também existem os caçadores de borboletas, com aquelas redes... dando ''pulinhos de primavera'', tipo os do Bob Esponja.
- Sei... Eles também parecem borboletas, né?
- Não! Eles são maus. Depois de pegar as coitadas, crucificam elas com dois alfinetes.
- Tá. E... o que mais tu sabe das borboletas?
- Eu sei também que existem muitos tipos de borboletas. Dizem que suas asas têm um pó que pode nos cegar.
- Interessante! E o que mais?
- Como? Mais? Por que cargas d'água tu quer saber o que eu sei das borboletas?
- Só para puxar assunto mesmo, hê.
- Ok...
- Então, mais alguma coisa?
- Tem ainda aqueles desenhos que fazemos quando crianças, com... papel dobrado e tinta no meio, sabe? Tem também as gravatas borboletas... aquele... tipo de macarrão, tem...
- Mas essas não têm graça. Prefiro as de verdade. Fala mais das outras.
- Bom, elas... voam meio torto, eu li uma vez. Parece que nunca sabem onde estão indo.
- Como se estivessem sem pressa?
- Sem pressa, não. Como se tivessem acabado de acordar, sabe? Tipo... procurando os chinelos debaixo da cama...
- Sei... Diga mais.
- Deixa eu pensar... Humm... Lembrei! Quando as borboletas pousam numa flor, suas asas ficam fechadas, assim como se estivessem rezando.
- Tu sabe muito sobre borboletas.
- Tu acha?
- Acho. Tem mais alguma coisa?
- Bem, tem aquela fase que vem antes, quando elas não são borboletas ainda, quando são uma larva. Mas disso eu não sei muito e tu me perguntou sobre borboletas, não larvas.
- É verdade. Mas, continua.
- Sobre borboletas?
- É, sobre borboletas.
- Mas eu não sei mais nada sobre borboletas.
- Nada?
- Nada.
- Está bem. Então me fale sobre nuvens.
- Nuvens?
- É, nuvens, como aquelas ali.
- Tá. Mas por que tu quer saber sobre nuvens?
- Assim, por nada.
- Nuvens são concentrações de água em estado gasoso, no céu.
- O que mais?
- Nuvens são como borboletas: parece que nunca sabem para que lado voar.
- É verdade. Mais algo?
- Não sei muita coisa sobre nuvens, desculpe.
- Então me fale sobre bigodes.
- Bigodes?
- É, bigodes ou, então, cílios. Tu prefere falar de bigodes ou cílios?
- Tanto faz.
- Diz o que tu sabe sobre cílios e bigodes, então.
- Mas o que tu quer saber sobre cílios e bigodes?
- São mais parecidos com borboletas ou com nuvens?
- Bigodes: com borboletas; e cílios, com nuvens.
- É mesmo. Continua...
- Tá bem, mas antes...
- Sim?
- Antes eu queria dizer que te amo.
- É?
- É.
- Eu também.
- Que bom. Continua sobre os cílios e bigodes, ou tu prefere falar agora sobre pulgas?
- Pulgas? Pode ser.

quinta-feira, novembro 19, 2009

P-p-p-party.

Chega tarde à festa e só surpreende pedaços de corpos, muitos pedaços, separados, disformes, atravacando seu caminho. Pernas, braços, olhos, muitos olhos dando reflexos multicoloridos ao ambiente escuro. Um dos olhos o reconhece e se encaminha para ele, vai aos pulos e se ajeita no bico do sapato... Com medo, John olha para ele: um dos olhos de Lucy, verde, verde, grande e úmido, como se ela acabasse de chorar. Mas seu olho está vivo, não traz marcas vermelhas deixadas pelas lágrimas. O verde, o branco e o círculo negro bem definidos, marcantes. O olho não está triste, embora sem o companheiro. Onde estará o outro, as outras partes de Lucy? Precisa encontrar-se com ela, salvá-la, salvar o resto do corpo. Mas a luz está turva, leitosa. Os olhos só se refletem nas paredes, nunca no chão de corpos divididos. Eles parecem buscar no alto outros olhos, piscam, mudam de direção, não páram num só espaço. O olho de Lucy ficou preso nos de John, e os de John, no de Lucy. O ambiente vai afogando o homem, luzes de olhos na parede, luzes vermelhas no palco fundo, sons aloucados e um bolo na garganta impede seu grito. Ele grita: ''Lucy-Lucy-Lucy'', mas o som repercute apenas dentro dele. Os rapazes do conjunto pop permanecem frenéticos, incansáveis, barulhentos. Cantam desesperadamente uma canção que ele não entende, quase uivos. E a luz vermelha vai apagando e acendendo, mudando de tonalidades: forte exageradamente, quase cegante, ou indistinta. Luz e sombras nos corpos deles, nas estranhas cabeleiras longas que sobem e descem, volteiam inquietas. À medida que a música fica mais louca, sente que nuas pernas, lisas e cabeludas, se movimentam dinamicamente, não no palco, mas ao seu lado. Só pernas, só o seu corpo no meio delas. Duas estão encostando ao seu corpo, se esfregando nas suas pernas em ritmo vertical e horizontal. Ele tem medo e desejo, muito desejo, muito medo. Suas mãos descem até elas, são as longas pernas de Lucy, tem certeza de que são. Já tinha um olho, agora, duas pernas, muitas esperanças. Logo outras partes reaparecerão e, como fazia com os brinquedos de criança, montará todo o corpo de Lucy, peça por peça. E Lucy renascerá em suas mãos, de suas mãos. O corpo de Lucy é sua geografia constante e nada desconhece dele. É terreno moldado em suas mãos e só ele sabe dos vales, montanhas e planícies daquele corpo. Ouve estrondos de palmas, vivas, barulho alegre, gritos. Uma mulher, maior que todos, mas com rosto de criança, aparece nua, canta e dança, possuída pelo demônio. Enquando ela canta, todos se calam. Depois novos gritos, palmas, vivas. A voz volta a imperar. Não consegue deter uma nota ou um verso, mas é música e a voz emite palavras estranhas, sons onomatopaicos e selvagens. Crescem os corpos ao fundo, mas não sabe distinguir fisionomias e sexos. Estão nus e os corpos vão sofrendo metamorfoses: surgem lisos como de moças ou adolescentes e vão criando pêlos enormes que crescem, crescem, até surgirem os corpos novamente lisos. A voz vai ficando triste, mais triste, mais choro que canto. Parece sinos desordenados, tristes, fortes. Lucy, Lucy, por que você inventou esta festa? Por que o convidou com tanto empenho? Onde estão as outras partes do seu corpo, onde? É tão confuso. Sente-se abafado, sem luz, neste fundo de poço imenso, cheio de fantasmas aloucados, e sem definição. Está confuso e não compreende as mãos surgindo, sem os braços enormes, nítidas. As mãos correm pelo corpo dele, tiram suas roupas, Lucy... Está excitado, muito excitado. As mãos, as pernas, o olho, um olho só, as mãos revisitando seu corpo muitas vezes, como uma amante saudosa. Ele tem partes do corpo dela, necessita uní-las com as demais, até recriar ela completa e mais velha. Lucy lhe disse muitas vezes que nasceu nas mãos dele, elas descobriram seu corpo. Agora elas vão montá-la e será divino vê-la nascer delas (novamente). Mas não excite-o assim, ele precisa concentrar nessas partes de tantos corpos para descobrir as que lhe faltam. Precisa, urgentemente, de seu corpo completo, reconstituído. Não quer que seu corpo se relaxe, depois do orgasmo provocado por suas pernas nas dele, suas mãos correm o corpo de John, seu olho hipnotizando-o. Sente um calor nos lábios, primeiro o vem uma doce repugnância. Olha e alegremente descobre os lábios dela, sua boca inteira, dentes, sorriso. Seus lábios queimam os dele, saem da boca e mordem o ombro dele, beijam seus braços, o rosto. Aos poucos, outras partes surgirão e será mais fácil reconstruí-la, Lucy. Não pode se excitar tanto. Se interromper seus desejos, não montará seu corpo, peça por peça, como na infância. Quer calma e ar puro para montá-la melhor ainda do que era antes. Tudo seria mais fácil se houvesse um ambiente aberto, flores, muitas flores, cantos de pássaros ou uma música de Bach, tocada baixinho. Mas esta maldita barulheira, esta alucinação, este poço escuro e triste e o sexo em desespero impedem de concentrar-se na obra. Outras partes vão surgindo mais, elas se movimentam dinamicamente como a música tocada. Seus movimentos são lentos e querem uma construção minuciosa, como a de um poeta buscando palavras exatas para um poema maior. Ele precisa montar Lucy, seu poema. Precisa do corpo completo para completar seu ato de amor. Quer seu corpo colado no dela, sem faltar um detalhe. Não quer se satisfazer com as partes disponíveis apenas. As mãos de Lucy se juntarão às suas, agora elas estão presas nos braços e eles tocam o corpo de John. Mãos, boca, braços, pernas excitando-o e ele querendo deter cada parte para formar o todo. Agora são dois olhos nos dele. Por que esta festa maluca, por quê? Eles estavam tão felizes e calmos, isolados das pessoas, ambientes e coisas fora do mundo. Criavam a vida de uma maneira calma, sem luzes, cores, festas, palpites, fugas. Longe, tão longe das mentiras criadas no tempo de solidão, antes de um se descobrir no corpo do outro. Por que esta festa, Lucy? Será que precisava de fugas? Ele não entende, não consegue... John pede para que ela tire a mão de sua boca, ele quer falar, perguntar. Quer porque dói muito e não encontra resposta para o insólito disto tudo. Os dois olhos, a boca, agora o nariz e cabelos, as mãos, os braços, as pernas, o corpo vai se recompondo, mas sente vontade de parar com tudo e deixar que seu corpo cansado tenha paz. Os beijos de Lucy, suas mãos no corpo dele, as pernas nas dele, não, Lucy, agora não. Os seios, onde estão os seios? São fundamentais para maior harmonia e beleza. Ele suplica que não alise seu corpo agora, por Deus, ele não agüenta, não esfregue as pernas assim, por Deus, Lucy. Precisa dos seios, das nádegas, do que lhe falta... E seu corpo está queimando, resistindo, esfregando-se ao dela. Não, precisa concluir, não pode desistir. Quer e não quer, não pode. Agora, Lucy, pare um pouco, ele está completando o poema, com poucas palavras mais, não deixe que as partes se unam, John quer montá-las uma a uma, peça a peça, bem dispostas, como as palavras do maior poema de amor que alguém já fez. Impossível, não pode, não há mais forças, nem tempo, nem nada. Que as partes se encontrem nos gemidos finais. Já ouve o gemido de Lucy e o hálito dela quente ao ombro dele, voaram, voaram, voaram, viagens, sons, cores, viagens, cores, sons, voaram, voaram. Seu corpo completo completa o dela. Os corpos trêmulos se compuseram juntos, são deuses, dois corpos, um só corpo e Lucy Lucy.
A música baixinha, a claridade da lua no céu, fora do poço dois corpos estendidos. Um sono pesado, sua cabeça pendida nos ombros de John, um beijo na testa, diversos beijos em seu corpo, agora completo. Tomba cansado e sonha, sonham.