sábado, janeiro 09, 2010

Selvagem é o vento.

Ela adorava orquídeas. Essas flores tinham a reconhecida propriedade de regenerar células mortas e, quando aplicadas na forma de bálsamo cutâneo à tez diáfana da garota, retiravam-lhe instantaneamente os resquícios noturnos de suas orgias etílicas e secretas.
Numa noite mesmo, o balanço tinha sido de doze caixas de acquavit devidamente entornadas até o último vapor.
Duas pesadas lágrimas deslizaram lentamente pelas bochechas da desconsolada pseudo-mulher e enfurnaram-se pela ruga da boca até o queixo. Sem orquídeas negras, sem ninguém. Afogou-se nas dobras da memória.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Sexta-feira está para o amor.

Sexta. Sol. Aranhas de salto alto, margaridas de saia rodada e a garota sentada com o bundão no sofá de couro. Lia um livro empoeirado e cantarolava uma moda de cânfora e anilina. E ela nem ligava para as coisas da casa, a bagunça dos gatos, o almoço, a briga do amigo.
E, de vez em quando, ela soltava as mãos e suspirava lá, bem longe, para trás de todos. Se via, não via. Mas olhava sim.
Tinha alma de velha e não se importava com isso. Nem sequer se importava com o gramado verde como as esperanças, ou com a trepadeira derramando seus hormônios na parede. Indiferente.
Mas era sexta e sexta não era segunda, nem terça, nem o resto todo da vida que se esfumaçava adiante. Aquele resto que não acabava mais de ficar ali, no sofá, lendo seus livros com lembranças. Hoje, era sexta-feira.
Porque era sexta-feira e não dava muito tempo para ler, escrever, ler e lanchar. Era sexta e, por isso, tinha amigos que ligavam convidando para beber uma cervejinha.
- Vamos?
Sexta-feira, tomara que o lugar preferido deles não esteja ocupado. E nem aí para as coisas de agora. Nem aí para as coisas de antes.

Ingressos esgotados.

Não gostava mais de assistir à TV. Nem o computador o atraía mais. Era solitário.
Mas havia noites mais tristes que as de todo dia. Eram as noites do medo. Aquele medão que entra pelas frestras do coração.
Naquela manhã, ele dera de frente com o amor. Um amor daqueles que dá vontade de morrer. Daqueles que dá vontade de voar. Um amor sem explicação, sem função, sem pata nem focinho. Ele não soube de saída que aquilo era amor. Só foi se dar contar, mais tarde. Foi como uma música que o despertou.
Conhecia essa música. Ouvira a mesma ladainha centenas de vezes mas nunca entendia nada. Achava aquilo bobo, mocó, tonto. Mas ali, naquele momento, uma estranha magia escorregou por suas orelhas. Uma magia que transbordou seu coração.
Foi assim que ele entendeu aquele torpor. Uma música brega, tola, encheu seu peito de amor.
À noite, na sua cama, ele não sentiu mais tristeza. Nem o medo, o medo de não saber amar.

sábado, janeiro 02, 2010

Totalmente last week.

O frio era de enregelar a seiva. Mas ela não ligava e até gostava.
Ela se debruçou para ajustar a saia plissada e puxar as meias abaixo do joelho que desapontava, discreto. Aprumou-se e, orgulhosa, estufou o peito numa oferenda tesa. Terminou de se arrumar chacoalhando para o lados os cachos densos.
- Oi.
- Oi.
- Onde pensa que vai assim?
- Assim como?
- Assim, ridícula?
- Não vou a lugar nenhum.
- Então por que tanta cafonice?
- Eu gosto de me arrumar, só isso. Não posso?
- Sei lá. É ridículo.
- Por que ridículo?
- Porque parece que tu vai ao baile de formatura de uma prima pobre.
- É, mas... e daí?
- Daí que ninguém vai reparar, porque é muita cafonice reunida.
- Ué, mas tu reparou que eu estou arrumada, não?
- Reparei sim, mas acho ridículo.
- Ridículo é tu ficar o dia inteiro com essa cara amassada. Tu tá com inveja!
- Inveja? Tu deve tá brincando. Olha só pra ti, esse peitão inchado. Coisa mais feia, tenha vergonha!
- Inveja, isso se chama inveja. Tu é que parece um bicho. Um espantalho, isso sim, com esse chapéu de aba.
- O que tem o meu chapéu?
- Out of fashion, my dear. Totalmente last week.
- Pronto, agora a gostosona resolveu arrotar o chá das cinco.
- E essa tua cabeleira amarela, isso também é uma coisa ''complètement démodé, ma chère''.
- Agora sim, ela tá ''se achando''. Pelo menos sou natural. Olha só o roxo do seu cabelo. Parece que levou um beliscão no coco.
- Lilás, e não roxo. É a última moda em Beverly Hills.
- Coitadinha, perdoai sua vaidade, nunca viu o mundo e só porque desbotou os tufos acha que vai abafar no ''nouveau chou''.
- ''Nouveau chou''?
- Como, tu não conhece o ''nouveau chou''?
- Não.
- O ''nouveau chou'' é o que há. É lá que as coisas acontecem, que as estrelas nascem e colhem inspiração.
- É?
- Claro! Tu precisa conhecer, cher.
- Mas o que é o ''nouveau chou''?
- É tudo. Olha só pra ti, pobre infeliz com esse peitão! Se o ''nouveau chou'' te visse, ia ter um ataque. A moda está para a magreza, a longitude e não a latitude.
- É mesmo?
- É. Veja eu, por exemplo. Eu não dou um passo sem ouvir o ''nouveau chou''. E esse cabelo de cachinhos? O ''nouveau chou'' não suporta mais isso. É caipira. A moda está para o ''menos é mais''. Sem falar da cor. Tem que ser naturalmente menos e nunca artificialmente mais, entende?
- Entendi.
- Como você se chama?
- Hortência.
- Hortência com ''c'' ou Hortênsia com ''s''?
- Com ''s''.
- Muito prazer, Hortênsia com ''s''. Eu sou a Daisy.
- Me fala do ''nouveau chou''.
- Ah, o ''nouveau chou''! Vou te contar tudo. Como é gostoso o ''nouveau chou'', ma chère, gostoso pra chuchu.
Asssim tagarelavam, numa fria manhã de inverno, duas flores gélidas.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Média para sumir.

A doçura do olhar emurchecido do rosto. O lábil tremor do gesto no encontro das mãos.
Puxei-o pela mão direita. Parece que a mão direita do homem protege a gente, mulher.
Mais manhãs de agosto passaram-se. Mais manhãs de setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, abril, março, abril, maio, junho, julho.
E daí que os mal-entendidos eram subentendidos e os subentendidos, mal-entendidos?
Foi num dia de primavera que ela se revoltou. Sim, foi. Era quase noite, cores e luz em emulsão no ar, deu-se num largo mesquinho.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Um que você ama é onde você esconde.

Fora um encontro casual.
Sorriram, piscaram, enrubesceram. Aproximaram-se, cochicaram impronunciáveis resmungos, tocaram-se.
Amaram-se, uma noite para sempre, em frente à grande estante errática da sala. Arrastando-se por entre as páginas amareladas e memórias náufragas, hipnotizou-lhes o encantamento.
Lembranças, amuletos e retratos, bibelôs quebrados, brinquedos enferrujados. Objetos tristes entre livros cerrados.
Os resmungos sibilavam malícias nos seus tímpanos e a pútrida fumaça do ócio embrulhava-lhe as tripas.
Quando acordou, no dia seguinte (se é que pode-se dizer que dormiram), ela pareceu mais feliz, porém, estranha e confusa com aquela situação. Seu coração parecia derreter ao vê-lo dormindo. Com a barba ainda tímida, ele recebeu um beijo quente dela. Sorriu.

É o outro eu que eu te contei.

Tudo estava em silêncio.
Debaixo da bancada desordenada, na estante de instrumentos, entre os vasos esparsos, ela fuçou. Nada ali.
Enfim, a madrugada arregaçou suas anáguas e ela, cansada, tentou afogar sua frustração no pub sonolento. Sua última esperança, derradeiro refúgio.
A noite tinha sido agitada e ainda ecoavam distantes risos, cantos e confissões públicas, compartilhadas, solidárias. Os bêbados de sempre. Em busca, como ela.
Entrou no depósito desordenado - sem querer -. Barris emborcados, babas salivadas... Encontrou a saída. O relento ora doce ora azedo das fermentações.
Foi até o balcão do bar novamente. Afogou-se numa caneca de cerveja escura, para esquecer a busca, a saudade sonhada e o disfarce de liberdade.
Voltando a andar, se depara com sua casa favorita. Na verdade, um sobrado de paredes amarelas, janelas e portas azuis.
Aquele sobrado permanecia cheio de gritos e roncos sinfônicos, ela nomeava assim, mas sabia que eram gemidos. De qualquer forma, era decorado com muito esmero, tapetes, troféus, bibelôs por toda parte. Os donos dele, às vezes, recitavam uns para os outros juras de amor, vingança, conquista, opressão e morte.
Mas ela, continuara sua busca. Agora, no presente.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Ele levou minutos, levou a nenhum lugar.

Gostava de se vestir bem. Usava relógio de ouro. Sapatos sob medida. Antes de sair de casa, examinava-se no espelho. Parecia precocemente envelhecido, talvez porque bebesse demais com os amigos todos os dias. De qualquer maneira, sentia-se um vencedor. Mas não era feliz.
Freqüentemente, chegava em casa bêbado, de madrugada. Consumia-se em angústias que jamais confessara a alguém. Quando ficava deprimido, passava dias inteiros sem abrir a boca, imerso, alheio, indiferente. Rico e hipocondríaco, olhava-se toda manhã em busca de novas rugas e novos cabelos brancos, antes de sair para o trabalho no escritório.
A mulher que ele amava continuava solteira, morando com os pais; estava muito magra; sempre solitária... Pelo menos essas eram as notícias que seu irmão trazia sobre a moça.
Numa madrugada de domingo, acordou sobressaltado. A mão direita doía como se estivesse sob pressão de tenazes de aço. Imaginou que acabava de sofrer um derrame. Acendeu a luz, chamou a mulher - ele fora obrigado a casar com ela, para não se sentir só - e ela resmungou, irritada: ''Isso não é nada, é cisma tua. Tu estava dormindo sobre a mão, não é nada de mais. São três horas da madrugada, me deixa dormir, pelo amor de Deus''.
Cinco dias depois, recebeu mais uma visita do irmão dela, no escritório. O homem, abatido, trazia a notícia triste; ela morrera em seus braços, na madrugada do último domingo, às três da manhã. Antes de morrer, murmurava: ''Minha última vontade era apertar novamente a mão dele''.
Ouviu a notícia em silêncio. Mas assim que o outro saiu, começou a chorar como uma criança, porque percebeu naquele instante - naquele preciso e fugaz instante - tudo o que havia perdido pra sempre.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Charlie.

Ele era um homem civilizado. Ci-vi-li-za-do.
Uma pessoa de cuca limpa, com idéias abertas ou libertas.
Se sentou em um banco e ficou ali, até raiar o dia.
A festa continuava lá dentro. Ele despertou de uma longa letargia e foi embora.
Chovia muito naquele sábado de manhã.
Charlie não gostava nada de chuva. Nem de banho. Nem de cheiro de alho e barulho de moto.
No terraço, ele sentou, olhando a chuva cair, pesada, fria, molhada. O dia era daqueles compridos, daqueles que não acaba mais.
Como gota longa que escorre no vidro. Como uma lambida de gato.
Mais tarde, um raio de sol deslizou entre as nuvens.
Ele saiu do torpor e foi caminhar, sem pressa, na grama molhada.
Numa bromélia arreganhada tinha uma mosca. Uma mosca com patas e asas, como todas as moscas.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Anos de prata.

Eles se encontravam uma ou duas vezes por semana.
Paixão, ela reverberava. Fosforescências.
Ele dizia claramente. Não queria se casar, não queria se juntar. Não gostava de iludir. Cada qual em dividido, para se somarem no mais e no tudo. Assim ele dizia. Assim ele queria. Assim ela assentia.
Na esperança de esperar, ela esperava. Um dia, quem sabe? Eles se casariam.
Os encontros semanais. Resplandescências.
Durante muitos anos ela viveu feliz, à espera do que esperava. Consonâncias, as ressonâncias.
Uma vez, como tantas vezes, quando ele voltou de viagem, não telefonou. E não atendeu quando ela ligou. Dissonâncias? Reacreditada, ela se esperou. Palidecências.
De manhã, debaixo da porta dela, um envelope com a letra dele. Um bilhete. Obscurecência. Estava tudo acabado. Ele acabava de se casar.