terça-feira, agosto 23, 2011

É maior do que meus olhos.

O telefone tocou . Seus olhos encheram d'água. Por muito tempo esperava este momento.
Respirou fundo, dirigiu-se até a cozinha, serviu um pouco de uísque.
A campainha tocou. Era o carteiro, com um pacote. Com pressa, arrancou as fitas com uma faca. Dentro do pacote? Seu coração. Doente. Sujo. Feio, exalando um terrível odor, como se estivesse em decomposição.
Estirou-se no sofá. Começava a anoitecer e uma chuva ameaçava cair. Seus olhos não se desfixavam do pacote.
Por que? Era só o que ela se perguntava.
Era a pessoa que mais lhe entendia, que sempre a apoiava, a pessoa por quem ela chorava de saudade. Não era seu namorado, mas era seu melhor amigo.  Sem medo de qualquer tipo de má interpretação, ela o ama com todas as suas forças. Força... É isso que ela procura nesse momento.
Tão frágil. Às vezes filho, às vezes pai.

Pense no amor dentro da força do coração.
''Novamente hoje, nós colocamos em nossos corações e mentes aqueles que pereceram neste lugar há um ano e também esses que vieram trabalhar no entulho e trazer a ordem para fora do caos, e nos ajudar a fazer sentido de nosso desespero''.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Eu lembro cada beijo que eu te dei.

Eu tenho duas casas. Duas camas. E um amor. 
Quando durmo na cama de solteiro, tenho a certeza e a lembrança de estar longe de ti (quase 300km, pra ser mais exata).
Na outra casa, na cama de casal, durmo acompanhada, durmo mais feliz, sossegada e protegida.
Trezentos quilômetros de distância: ''como vocês aguentam?'' - é o que todos me perguntam.

Tenho saudade de ser acordada com beijos nas costas. Saudade do calor debaixo das cobertas. Saudade de acordar mais cedo só pra te ver dormindo ao meu lado, deitar em teu peito e te beijar com ternura, enquanto meus olhos enchem d'água. 

Ter alguém pra amar, ter alguém que me ame incondicionalmente. Alguém que eu posso confiar, mais que um amigo, mais que um companheiro, mais que um cúmplice.
É a pessoa que me faz rir, me sentir criança e mulher ao mesmo tempo, a pessoa que me fez crescer, que me ensinou a ver a vida de outro jeito, que me mudou, que me completou.
Cadê você agora, meu amor? 


quarta-feira, agosto 03, 2011

Minha alma canta blues.

Em três semanas ela mudara muito. Não era a mesma pessoa.
Olhou pela janela. Com a certeza da rotina e do dinamismo da vida, o inverno continuava, gritando em silêncio sua grandiosa estadia, compondo nos jardins sua magnífica mensagem natural.
Saiu sem rumo, entrou no primeiro bar que encontrara, uma taberna na qual canecas de cerveja desapareciam com assombrosa facilidade.
Quarta-feira. Não gostava de quarta-feira.
Recordações e sensações incontroláveis despertavam nela. Eram os piores dias do ano. O rádio derramava enormes quantidades de canções estúpidas e só se falava em futilidade. 

Ela continuara sozinha, lembrando das coisas que lhe foram ditas por sua mãe.
Às vezes lembrava-se dela... Ou será que era apenas a sua imaginação, como tantas outras coisas?

Quem podia ouvir música com o volume baixo? Suspirou, indignada. E aumentou o volume do toca-discos.

sábado, julho 23, 2011

Contracomplacente.

Teve uma de suas intuições. Mexeu o corpo, inquieta.
Uma muda e amarga solidariedade, inútil porém calorosa, isolava-a do resto.
Poderia amá-los apesar de tudo, ou era uma ilusão, uma necessidade produzida pela curiosidade?

Que tipo de sentimentos são aqueles?
Amá-los representava uma obrigação, um pagamento, seu próprio compromisso. E a possibilidade de ter paz interior.

O que acontece é que eu sou uma perfeccionista, uma intelectual barata e uma masoquista moral, nunca satisfeita, uma contrariadora da autocomplacência.

sexta-feira, julho 01, 2011

Gritos de guerra e champagne.

Aquela cidade repleta de presente e de passado e revelando um pouco do seu futuro.
Levantou-se a contragosto.

...não queria falar com ninguém. Procurava na solidão um refúgio para seus pensamentos, só isso. Odiava os elogios gratuitos, as palavras fáceis e as palmas corteses. Odiava o cinismo adulto e a hipocrisia barata.

''Não deixe ninguém mandar em ti e assim será respeitada''.

A dor atingiu todas as suas terminações nervosas.
Começou a golpear diversas vezes a parede com os punhos fechados, com toda a força, machucando-se, até que, ao apoiar a cabeça nela, conseguiu soltar, gemendo, os últimos demônios do seu corpo:
- Não veem que não sou como eles? Não veem que sou diferente?
E começou a chorar.

A decisão de toda uma vida nas mãos de uma resposta pronunciada a uma idade absurda.
Seria feliz vivendo uma existência aventureira, em contraste com a monotonia que imperava agora.

Era a primeira vez que suplicava, que utilizava termos como ''por favor'' ou deixava o seu medo transparecer.

''Nós vamos ser diferentes; já aprendemos a lição''. 

Como faltavam dezessete dias para o seu aniversário, era melhor não forçar a situação, aparentar cooperação e bom ânimo. Pois, na verdade, a quem interessava isso?

Só a música valia a pena, tanto na vida como na morte.

segunda-feira, junho 20, 2011

Come pick me up.

...seus olhos eternamente tristes, defendido pelos óculos que protegiam sua miopia.
Toda paciência tinha seu limite.

Ela estava muito doce. Quanto maior a doçura, maior podia ser a sua expulsão de violência, a cólera e a ira do seu orgulho.
E eles sentiram sua cólera aumentar.

O que podia fazer? Por que a obrigavam a entender os outros e ninguém, ninguém a entendia?
Nem mesmo se esforçavam.
Uma lenta e incontrolável onda de fúria invadiu-a. Estava no limite de uma resistência que considerava forte, mas que desmoronava, vítima dos elementos, todos aliados contra ela. Sentiu-se perdida e isso a obrigou a entrar no banheiro, vazio naquele momento. O espelho disse-lhe a verdade que mais odiava e lamentava.
Abriu a porta de um dos banheiros e fechou-a violentamente.

Fixou a vista num ponto imediato e procurou uma serenidade que não encontrou para levantar-se e aparentar o pleno domínio de seus atos. Infelizmente, os reflexos falharam.

Perceberam que estava desmoronando. Era a solidão total. Qualquer um poderia enlouquecer com menos motivos.
Havia algumas coisas superiores às suas forças.

A vida continuava. Tentava recuperar o pulso e a ilusão.

O destino afogava o perdedor. Um acidente. Uma desgraça. Uma fatalidade.

Dobrou a esquina de casa. Dois dias para o feriado.

quinta-feira, junho 02, 2011

Está ficando frio. Fique para sempre, por favor.


Era de noite e fazia frio.
Seus olhos eram um mar de inquietações, uma tormenta sufocada e dominada pelo cansaço. Sentia-se asfixiada pelo vazio da espera.
A chuva batia contra o telhado, produzindo em seu interior um ruído monótono e surdo, como se um milhão de pássaros estivessem bicando por todas as partes.
A sensação de tristeza e solidão estava presente nela.
A vulnerabilidade a assustava.
Por esse motivo, sempre escondia seus sentimentos, suas emoções, tudo o que fazia sentir-se fraca. Fraca num mundo que, pelo que sabia, não admitia fraqueza.
Um mundo que glorificava apenas os vencedores.
Um fato duro e negativo demais para ser assumido por qualquer um dos dois.
Ela intuía algo parecido com um quarto pequeno, um frio glacial e um amor incontrolável. Mas isto podia ser mais um desejo do que uma realidade.

"Pode ser que tu estejas aqui, em alguma parte de mim, há muito tempo".

O rapaz não se mexeu.
Levantou a cabeça e olhou-a amorosamente. Foi algo instintivo, incontrolável, que sufocou nele toda pena e inquietação, eliminando seus medos, compaixão e paternalismo. Foi apenas um instante. Renasceram nele a ternura e a bondade, doces e tirânicas ao mesmo tempo.

Inclinou-se para abraçá-la e quando uniram-se, os dois souberam que faziam parte de um mesmo calor íntimo, precioso, separado pela distância e pela rapidez dos encontros, que se transformavam em oásis de delicioso descanso. E isso era suficiente para eles. O silêncio e as defesas de cada um rompiam-se nas emoções dos reencontros.

Ela não podia controlar-se. Seu corpo vibrava com uma energia incontrolável, que fazia cócegas em seus nervos e chegava em todas as partículas de seu ser.
Uma magia brilhava em seu sorriso, e seus olhinhos, diminuídos pelos óculos, brilhavam com uma fé absoluta.
E cada encontro reavivava a fogueira do amor e aplacava o gelo do distanciamento. Os muros protetores do isolamento rachavam, até reduzir-se à poeira do nada. Desse nada os dois foram feitos e eram obrigados a comunicar-se através dele.
Os dois formavam o núcleo de uma curiosa e estranha relação sentimental, uma relação viva e autêntica.



terça-feira, maio 24, 2011

Turn and face the strange.

A vida tinha seu lado injusto. E ele aparecera agora.

Sentiu-se deprimida. A vida não lhe oferecia um perfil maravilhoso para o futuro, mas continuava esperançosa. Não tinha dinheiro para comprar seus discos, seus mimos e seu cigarro; seu pai era uma lembrança perdida e sua mãe acabara de telefonar dizendo que sente saudades.
Odiava conformar-se, mas não tinha outra alternativa. Bater a cabeça na parede seria muita rebeldia. Não servia para nada mesmo. Que tudo fosse para o inferno! Ficaria trancada em seu cubículo que chama de apartamento, colocaria seus fones de ouvido e ouviria música num volume muito alto. Tão alto que a sua voz não conseguiria alcançar. Tão alto que corria o risco de ficar surda. Tão...

Estava sozinha, indecisa, num cruzamento solitário e varrido pelo vento e pelas primeiras gotas de chuva de uma noite que prometia ser gelada.
Tinha toda a semana pela frente.

quinta-feira, maio 19, 2011

Somos inatingíveis.

''Somos inatingíveis''. Era o que ele me dizia.
Por que tanto medo?

Um trovão que a acordara fez retumbar os vidros da janela.  A luz de um relâmpago desenhou um milhão de silhuetas no quarto. Cada forma imóvel transformou-se num fundo escuro e mutante, de tamanho impreciso.
(Muitas coisas horríveis aconteciam na sua cabeça segundos antes). Acendeu a luz.
O relógio marcava duas horas da madrugada daquela quinta-feira, dezenove.
Dezenove.
Dia dezenove.
Sempre o seu número da sorte, ou seu símbolo maldito. Nada de estranho.

Conhecia os motivos e fingia ignorá-los, embora em sua solidão, sua eterna, constante e densa solidão, repleta de sensações, não pudesse enganar-se.
O quarto estava cheio de objetos queridos que a encheram de paz, superando a agitação que sentira ao acordar. Seu cigarro, seus livros, as lembranças e fotografias, a cadeira, a mesinha, os desenhos.
Jogou-se para trás, fechou os olhos, porém não apagou a luz. Se pudesse escolher os sonhos, as histórias para preencher o tempo inútil do descanso... Gostava de sonhar, porque a liberdade de sua imaginação tinha um feitiço embriagador. Cada sonho era a anarquia da mente, a revolucionária revolta do seu inconformismo. Suas ideias escapavam de qualquer limite.
Saudade...
A saudade. O sonho. A noite.

Sufocou sua angústia e apagou a luz.




segunda-feira, abril 11, 2011

Like a waterbed.

Noite fria de outono. Para ser exata, um sábado do mês de abril. As estrelas não brilham para mim hoje.
Estou na janela. Nostálgica. 
A lembrança dói. Como lidar com as dores que não passam com um beijo?
Mal suspirava. Não estava disposta a quebrar meu voto de silêncio. Que mais eu podia fazer? Desviei o olhar.
Então me afundei no meu assento, pois pelo menos ali, tudo era seguro. Olhei pelo retrovisor e me imaginei participando de um drama policial, diante de um oficial lendo a minha descrição: ''Solteira, branca, 1,70 m de altura, cabelos castanhos com mechas loiras, olhos verdes, nariz vermelho e úmido e lábios pequenos. Recusa-se a falar. É uma garota má".
Me tranquei no quarto. Escrevi poemas. Eles eram tão ruins que davam dor de cabeça. Não passavam de um palavreado bombástico e interminável, cheio de tolices sobre corpos nus, odores humanos e sobre o poder da luxúria. 
Era frio. Era seco. Era sem cor, sem forma ou gosto.
Era assim, agora.