Um dia, Rafael acordou mal-humorado. Não sabia ao certo por quê. Talvez fosse o tempo, escuro, pesado lá fora. Têm dias assim, em que uma perturbação se esparrama nas tripas, no coração, na alma. Um vácuo incipiente. Um vazio sem nome, sem diagnóstico. Tudo num pretume só.
Rafael, caminhou na casa. Banho ou café da manhã? Sair ou não sair? Até que um pequeno objeto jogado no chão despertou sua atenção. Ele se abaixou e olhou para aquela pequena cápsula cromada. Do tamanho de um botão, o objeto tinha uma face arredondada e outra plana. Rafael foi até a cozinha, enfiou uma fatia de pão na torradeira e descansou o objeto sobre a mesa.
A torrada saltou. Rafael, de susto, estremeceu. O objeto agitou-se também. Tudo ao mesmo tempo.
Rafael foi até a geladeira e serviu-se de leite. Voltou para a mesa, bebendo devagar. Ao sentar-se, puxou a cadeira que rangeu no chão. A cápsula virou-se sozinha sobre a mesa. Rafael aproximou-se para olhar o objeto. Tossiu. A cápsula saltou. Tossiu de novo, e ela se pôs a girar. Bateu palmas, o objeto saltou novamente, mas permaneceu na frente do olhar embasbacado de Rafael. E assim ficou.
Mais palmas, e a cápsula cresceu, cresceu, cresceu. Pousou girando sobre o fogão. Rafael batia palmas, tossia, assoviava, até que uma pequena fenda se abriu no objeto que já tinha o tamanho de uma panela. De seu interior, uma luz azul atingiu o rosto do guri.
E, lá de dentro, saiu um pequeno ser alado, azul, que voou a alguns centímetros do rosto de Rafael.
- Oi.
- Oi.
- Como tu te chama?
- Rafael.
- Quer dar uma volta, Rafael?
Foi assim que Rafael entrou na nave cromada de vorticianos, habitantes de um planeta muito distante, para além da Via Láctea. A nave era toda forrada de um espesso carpete azul. No centro da cabine principal, enormes almofadas de espuma azul esparramavam-se. Do teto, pendiam gotas de cristal azul que cintilavam em mil fogos azuis. Em toda parte, vorticianos voavam em seus afazeres.
Os vorticianos eram um povo muito guloso e, assim que Rafael entrou na nave, foi imediatamente convidado a sentar-se à mesa. Um enorme pudim azul coberto de confeitos azuis tronava no centro.
- Coma, Rafael.
- Eu não tô com muita fome.
- Então vem cá, vou te mostrar uma coisa.
Rafael e Lup, o comandante da nave, foram até uma enorme janela que se debruçava em um dos lados da nave. Lup abriu as cortinas de renda azul.
- Veja, Rafael.
E Rafael viu. Primeiro o piso laranja da cozinha, depois a porta vermelha da geladeira, a frente escura do abacateiro do quintal e um enorme céu azul. E mais céu, azul também.
- Rafael, tu conhece a nossa história?
- Não.
- Então, escuta.
Rafael conheceu a história do planeta azul, onde tudo era azul, até a gema do ovo, até as laranjas, até o céu-da-boca e o arco-íris.
- Viemos para a Terra, seu planeta, para aprender.
- Aprender o quê?
- Aprender o laranja, o vermelho e a cor de abacate.
Rafael exclamou:
- Eu gosto de amarelo.
- Amarelo? Como é amarelo?
- Amarelo é a cor da minha mochila, do meu caderno, do tapete do meu quarto. Amarelo é a cor que vejo quando fecho os olhos e aperto assim bem forte. Entendeu?
- Não.
- Então, vou te mostrar.
Rafael tirou do bolso da calça uma pequena caixa e começou a pintar de amarelo, o enorme carpete azul da nave, as almofadas azuis, o pudim azul, a cortina azul.
Além da Via Láctea, tem um planeta, que aprendeu, na Terra, o amarelo.
E, aqui embaixo, Rafael também aprendeu. Aprendeu que, quando a gente acorda triste, com o preto a corroer-nos o espírito, é só lembrar-se das cores e pintar o mundo como ele é: azul, amarelo, laranja, vermelho e verde abacate.
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Há 3 semanas