Gabriela nem conhecia seu pai. Sua mãe trabalhava em casas particulares. Era assim que ela descrevia o seu trabalho, pra fazer com que parecesse melhor. ''Eu trabalho em casas particulares'', ela dizia. E isso soava melhor do que dizer ''eu sou uma empregada doméstica'', ela achava.
Ganhava o suficiente para pagar o aluguel e comprar pão e leite para casa.
Às vezes, era obrigada a deixar Gabriela sozinha em casa, porque não tinha condições de pagar alguém para cuidar da menina.
Uma vez, ela levou a filha para o trabalho. Era como estar no país das maravilhas. Tudo era limpíssimo e novo, mesmo antes dela começar a limpar.
A menina já tinha quatorze anos, mas parecia mulher feita.
No dia seguinte, o dono da casa onde sua mãe estava trabalhando foi buscá-la na escola. Ela entrou no carro... ele a levou até o escritório dele, e começou a fazer perguntas do tipo ''como vocês vivem?'' e ''em que série você está?''. E aí começou a tocá-la, ela estava amedrontada... e ele a estuprou. Mas depois ele falou que não tinha a forçado, que ela sentia alguma coisa por ele, e lhe deu algum dinheiro. Ela estava chorando quando descia as escadas. Queria matá-lo.
Ela nunca contou para sua mãe. Nunca contou para ninguém. Mas uns dois dias depois, o ocorrido se repetiu, e ela foi se acostumando, recebendo dinheiro e presentes. Disse para sua mãe que estava trabalhando como babá depois da aula.
Isso continuou por dois anos. Ela só se deitava lá, na cama da esposa dele, e ficava pensando em como resolver alguns problemas de álgebra ou pensava no que iria comprar.
Mas, um dia, sua mãe chegou antes que ela saísse de casa, e descobriu tudo. Fez mil perguntas sem cabimento e a menina, disse, por fim, que ele a amava.
A essas alturas, sua mãe chorava e rezava desesperadamente. Os vizinhos escutaram os gritos e os choros de Gabriela, que estava apanhando. Sua mãe lhe bateu com um cordão de ferro elétrico, até que não pudesse mais erguer o braço. E depois teve um de seus ataques, contorcendo-se e suando e tentando arranhar o chão. Isso aterrorizou a menina mais do que a surra.
Ela começou a detestar sua mãe. Discutiam todos os dias, durantes meses. E a menina, com dezesseis anos, ainda continuava com aquele homem e, com a ajuda dele, colocou sua mãe num asilo.
Seu corpo continuava fazendo o que era pago para fazer. Ela se arrependeu, meses depois, de ter colocado sua mãe no asilo e quando foi procurá-la, era tarde demais: ela havia morrido. E ela matou o homem que destruiu a vida dela.
Ele tinha um revólver na gaveta de seu escritório, ela pediu que ele colocasse um casaco grosso - pois assim não teria de ver o sangue - e o matou. Antes de sair, roubou todo o dinheiro dele e foi para casa. Ninguém suspeitou dela.
E no dia seguinte, a esposa dele foi até a casa de Gabriela para pedir que ela cuidasse das crianças para que ela pudesse ir ao enterro do marido.
E ela aceitou, claro, não podia deixar que desconfiassem dela.
E lá estava Gabriela, sentada na cama da esposa, com os filhos, comendo a galinha frita que a mulher tinha preparado.
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Há 3 semanas