quarta-feira, setembro 28, 2011

Ela nunca os ouviu...

Gabriela nem conhecia seu pai. Sua mãe trabalhava em casas particulares. Era assim que ela descrevia o seu trabalho, pra fazer com que parecesse melhor. ''Eu trabalho em casas particulares'', ela dizia. E isso soava melhor do que dizer ''eu sou uma empregada doméstica'', ela achava.
Ganhava o suficiente para pagar o aluguel e comprar pão e leite para casa.
Às vezes, era obrigada a deixar Gabriela sozinha em casa, porque não tinha condições de pagar alguém para cuidar da menina.
Uma vez, ela levou a filha para o trabalho. Era como estar no país das maravilhas. Tudo era limpíssimo e novo, mesmo antes dela começar a limpar.
A menina já tinha quatorze anos, mas parecia mulher feita.
No dia seguinte, o dono da casa onde sua mãe estava trabalhando foi buscá-la na escola. Ela entrou no carro... ele a levou até o escritório dele, e começou a fazer perguntas do tipo ''como vocês vivem?'' e ''em que série você está?''. E aí começou a tocá-la, ela estava amedrontada... e ele a estuprou. Mas depois ele falou que não tinha a forçado, que ela sentia alguma coisa por ele, e lhe deu algum dinheiro. Ela estava chorando quando descia as escadas. Queria matá-lo.
Ela nunca contou para sua mãe. Nunca contou para ninguém. Mas uns dois dias depois, o ocorrido se repetiu, e ela foi se acostumando, recebendo dinheiro e presentes. Disse para sua mãe que estava trabalhando como babá depois da aula.
Isso continuou por dois anos. Ela só se deitava lá, na cama da esposa dele, e ficava pensando em como resolver alguns problemas de álgebra ou pensava no que iria comprar.
Mas, um dia, sua mãe chegou antes que ela saísse de casa, e descobriu tudo. Fez mil perguntas sem cabimento e a menina, disse, por fim, que ele a amava.
A essas alturas, sua mãe chorava e rezava desesperadamente. Os vizinhos escutaram os gritos e os choros de Gabriela, que estava apanhando. Sua mãe lhe bateu com um cordão de ferro elétrico, até que não pudesse mais erguer o braço. E depois teve um de seus ataques, contorcendo-se e suando e tentando arranhar o chão. Isso aterrorizou a menina mais do que a surra.
Ela começou a detestar sua mãe. Discutiam todos os dias, durantes meses. E a menina, com dezesseis anos, ainda continuava com aquele homem e, com a ajuda dele, colocou sua mãe num asilo.
Seu corpo continuava fazendo o que era pago para fazer. Ela se arrependeu, meses depois, de ter colocado sua mãe no asilo e quando foi procurá-la, era tarde demais: ela havia morrido. E ela matou o homem que destruiu a vida dela.
Ele tinha um revólver na gaveta de seu escritório, ela pediu que ele colocasse um casaco grosso - pois assim não teria de ver o sangue - e o matou. Antes de sair, roubou todo o dinheiro dele e foi para casa. Ninguém suspeitou dela.
E no dia seguinte, a esposa dele foi até a casa de Gabriela para pedir que ela cuidasse das crianças para que ela pudesse ir ao enterro do marido.
E ela aceitou, claro, não podia deixar que desconfiassem dela.
E lá estava Gabriela, sentada na cama da esposa, com os filhos, comendo a galinha frita que a mulher tinha preparado.

terça-feira, setembro 27, 2011

Aonde nós vamos a partir daqui?

Sofia me telefonou, depois de anos sem dar notícias. Marcamos um encontro, um jantar. Antes desse jantar, passei dois dias bastante monótonos. Afinal, o que eu tinha para fazer?
Naquela noite, antes de dirigir-me à casa de Sofia, fui fazer uma curta visita a Ana. Demorei-me apenas meia hora. Ana era vivaz, autoritária e vivia perpetuamente apaixonada.
Naquele dia ela estava apaixonada por um atendente de uma farmácia; e fez-me longa descrição do idílio. Minha indiferença tornava-se poética a seus olhos.
Mas, já estamos bem compenetradas de nossos respectivos papeis. Ela contava e eu ouvia. Ela me aconselhava e eu não prestava atenção.
Aquela visita deprimiu-me. Dirigimo-nos para a casa de Sofia sem grande entusiasmo. Sentia mesmo certo receio: seria preciso falar, mostrar-me afável, causar boa impressão. Preferia jantar sozinha, girar entre os dedos um pote de mostarda, permanecer distraída, muito vaga, indeterminadamente ausente...

Pensei na conveniência de simular algum interesse pela profissão dela, coisa que nunca me ocorria. Vontade me vinha vez ou outra de perguntar a alguém: ''Tem algum caso amoroso? O que é que está lendo?'', mas nunca sentia curiosidade pela profissão de uma pessoa... coisa que decerto muita gente julga primordial.

- Parece um pouco tensa.
- Quer um pouco de uísque?
- Sim, por favor.
- Ela já tem fama de beber muito - comentou Ana. - Sabe por que motivo? Tem o lábio superior um pouco curto; e quando bebe, fechando um pouco os olhos, isso lhe dá o ar de fervor que nada tem a ver com o uísque.
- Todos riram.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Será que eu nasci para lhe dizer?

Nos amamos, estirados na cama. Depois, conversamos uma porção de tempo, no escuro. Sentia-me bem. E em mim, como num animal quente e vivo, havia sempre aquele gosto de alegria, de excitação e, às vezes, de exaltação. Julgava-me vagamente hipocondríaca.
A manhã passou lentamente. Meu despertar foi muito agradável, muito suave, como certas manhãs indeterminadas de minha infância. Mas não era um desses longos dias amarelos e solitários, entrecortados, que me esperava. Eram ''os outros''. Os outros, para com os quais eu tinha um papel a desempenhar, um papel pelo qual eu era responsável. E essa responsabilidade, essa atividade, me agarraram logo pela garganta.
Enterrei a cabeça no travesseiro com uma impressão de mal-estar físico. Depois me lembrei dos beijos dele, e qualquer coisa se rasgou suavemente em mim.
O banheiro era maravilhoso. Uma vez na água, pus-me a cantarolar alegremente.
Alguém bateu com força no tabique e bradou:
- Será que é possível deixar dormir os pobres mortais?
Era uma voz alegre. A voz dele.

Não olhe para trás.

Tanto tempo sem ver aquele saudoso amigo...
Fui convidada para um jantar na casa de sua mãe. Aliás, a mãe dele era mais minha amiga do que ele mesmo. Uma mulher bem vivida, sábia, que dava bons conselhos e compartilhava ideias comigo, volta e meia me convidava para tomar um café ou bater um papo.

O jantar foi mortal. Havia, efetivamente, convidados: um casal tagarela e bem informado. Durante a sobremesa, o marido, que nem lembro o nome (só lembro que ele era presidente de não sei que conselho administrativo), não se conteve e encetou o clássico refrão:
- E você, menina, é também uma dessas infelizes existencialistas? - E, voltando-se para as outras pessoas na mesa: - Na verdade, essa mocinha desabusada me assombra. No nosso tempo de mocidade, amávamos a vida! Divertíamos-nos, farreávamos um pouco, mas com alegria, com desenvoltura, palavra de honra!
Duas mulheres riram com ar entendido. Um rapaz bocejou, outros, tentavam entender porquê aquelas pessoas eram tão insuportáveis. Quanto a mim, era a décima vez que senhores nédios e grisalhos se serviam de minha pessoa para alvo de seu sadio bom humor, mastigando com delícia ainda maior, porque lhe ignorava o sentido, a palavra ''existencialismo''. Respirei fundo.
- Meu prezado senhor - ponderei - desconfio que é apenas na sua idade que se faz farra. Os jovens de hoje fazem o amor, e é preferível, decerto. É preciso uma secretária e um bom cargo, para se fazer farra.
O bon vivant não replicou. O resto do jantar decorreu sem brilho, todos conversando mais ou menos, exceto eu.
Eu pouco exigia de um ambiente; bastava que não me aborrecesse.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Someone like you.

''Lembra-te, afinal, desses dias de verão, desses dias de inverno, de teu quarto...''

Durante todo aquele tempo, repetia seu nome dentro de mim mesma, e para o futuro.

Vesti-me e saí para encontrá-lo.

Passamos a tarde em um café - uma tarde de inverno como as outras. Lembro-me que em determinado momento fiquei olhando para a janela. E isso, com muita ternura, como se estivesse olhando para um rosto. E, por algum motivo, fui invadida por violenta sensação de felicidade; pela intuição física transbordante de que ia morrer um dia, de que não haveria mais aquele sol em meus olhos, nem aquela companhia.
Ele olhava-me, e ao ver meu sorriso, ficou curioso. Não admitia que eu fosse feliz, sem que compartilhasse com ele.

Depois, levou-me para conhecer seu lugar favorito. Uma casa de praia, antiga, abandonada...

Dentro do carro, numa estradinha de chão, eu caía contra ele, por conta dos solavancos. E ele, envolvia-me  num abraço protetor. Eu apoiava-me em seu casaco, contra a curva de seu ombro, aquele ombro que muito me protegera.
Respirava seu perfume natural, reconhecia-o bem, emocionava-me. Meu primeiro amante. Fora nele que eu conhecera o perfume do meu próprio corpo. É sempre no corpo dos outros que conhecemos o nosso, de alto a baixo, com seu aroma; no começo, com desconfiança, depois, com reconhecimento grato.

Caminhamos pelo jardim, nossos papos agora harmonizavam, como os nossos corpos à noite.
Ele segurava minha mão, e íamos assim, delgados, agradáveis, como imagens.

Parou, cingiu-me nos braços. E aquelas mãos, soerguendo o meu rosto! E aquela boca tão cálida, tão doce, tão bem feita para a minha! Ele abandonara os dedos em redor de meu rosto e agora os apertava com força, enquanto nos beijávamos. Passei meus braços em redor de seu pescoço. Tinha medo de mim, dele, de tudo que não fosse aquele momento.
Então eu fechava os olhos, sob o calor que me invadia as têmporas, as pálpebras, a garganta. Surgia em mim alguma coisa que eu não conhecia, que não tinha a pressa nem a impaciência do desejo, mas que era agradável, lenta e perturbadora.

Estirado junto a mim, beijava-me com uma espécie de respeito, de tremor, que me emocionava e me incutia medo. Eu teria gostado mais da alegria desenvolta do começo, do aspecto jovem, animal, de nossos enlances. Mas quando ele se alongou sobre mim, quando me procurou com impaciência, lembrei que era saudade.
Era ele. E esta angústia, e esse prazer.
Ainda hoje, principalmente hoje, aquela felicidade, aquele esquecimento de corpos parece-me uma incrível dádiva e uma estranha derrisão, se penso em meus raciocínios, em meus sentimentos e naquilo que não posso - não obstante o que me resta - deixar de chamar o essencial.

Teve um sorriso cúmplice, do qual compartilhei. Eu gostava de casas desconhecidas, dos banheiros com ladrilhos brancos e pretos, das grandes janelas. Puxou-me e beijou-me na boca, suavemente. Eu conhecia sua respiração, sua maneira de beijar. Era ele de novo.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Tempos difíceis.

- Com licença, senhora, posso sentar aqui?
- Claro, menina!
- Ai, estou cheia de dores, andei muito hoje!
- Que absurdo esta reclamação, menina! Tu és jovem, e eu... eu tenho estas rugas, aqui.
De fato, tinha rugas bem marcadas nos cantos dos olhos. Respondi com ternura, tocando-as com o indicador:
- Pois acho isso maravilhoso. Quantas noites, quantas viagens, quantas fisionomias vistas, para acabar ficando com esses vincozinhos! A senhora, de certa forma, até lucra. Na verdade, isso torna o semblante expressivo. Para ser franca, acho bonito, expressivo, perturbador. Detesto os rostos lisos.
Ela deu uma risada.
- Só para me consolar, tu provocarias a falência dos institutos de beleza. Como tu és gentil. Gentilíssima.
Senti vergonha e redargui:
- Gentil, eu? Não sou tão gentil assim...
- Gente nova detesta ser gentil. Mas tu não dissestes coisas desagradáveis nem injustas. Trata bem as pessoas. Eis porque a considero perfeita.
- Pois não sou, não.
Havia muito tempo que eu não falava de mim. E, contudo, era um esporte que praticara muito, até os dezessete anos. Mas agora sentia uma espécie de lassitude. Na verdade, só poderia sentir interesse e amor por mim se alguém me quisesse bem e se interessasse pela minha pessoa. Julguei estúpido este último pensamento.
- Estou exagerando - considerei em voz alta.
- Tu me pareces bastante distraída - disse a senhora.
- É porque estou amando.
Notando que ela me contemplava, senti invadir-me a tentação de declarar-me: ''Senhora, eu o amo, mas ele mora longe, é uma situação tão complicada...''.
Mas antes que eu pudesse terminar meu pensamento, ela disse:
- Tudo bem, mocinha, esta é a minha parada. Boa noite e boa sorte com seu amor!

Estado de febre.

Assim, de repente, fui convidada por um amigo para ir até a casa de um conhecido: uma reunião, uma festa, uma confraternização.

Logo, me convenci, ao observar as mulheres que achei no lugar, da minha falta de elegância e brilho. Em resumo: da jovem fatal que certa vez supus ser, só restava - por volta da meia noite - um frangalho desenxabido, uma pobre criatura envergonhada de seus trajes e que invocava intimamente seu amor - que a considerava bela.
As pessoas falavam de bebidas caras e de suas virtudes para as ''ressacas''. Havia, portanto, diversos indivíduos que tomavam essas bebidas caras, cada manhã, compenetrando-se de que seus corpos maravilhosos que podiam ser usados nas farras, contanto que fossem cuidadosamente tratados logo a seguir. Deveria eu abandonar os livros, as conversas, as caminhadas e aproar para o litoral dos prazeres, do dinheiro, da futilidade e de outras distrações absorventes? Prover-me dos meios e transformar-me num belo objeto?!

terça-feira, agosto 23, 2011

É maior do que meus olhos.

O telefone tocou . Seus olhos encheram d'água. Por muito tempo esperava este momento.
Respirou fundo, dirigiu-se até a cozinha, serviu um pouco de uísque.
A campainha tocou. Era o carteiro, com um pacote. Com pressa, arrancou as fitas com uma faca. Dentro do pacote? Seu coração. Doente. Sujo. Feio, exalando um terrível odor, como se estivesse em decomposição.
Estirou-se no sofá. Começava a anoitecer e uma chuva ameaçava cair. Seus olhos não se desfixavam do pacote.
Por que? Era só o que ela se perguntava.
Era a pessoa que mais lhe entendia, que sempre a apoiava, a pessoa por quem ela chorava de saudade. Não era seu namorado, mas era seu melhor amigo.  Sem medo de qualquer tipo de má interpretação, ela o ama com todas as suas forças. Força... É isso que ela procura nesse momento.
Tão frágil. Às vezes filho, às vezes pai.

Pense no amor dentro da força do coração.
''Novamente hoje, nós colocamos em nossos corações e mentes aqueles que pereceram neste lugar há um ano e também esses que vieram trabalhar no entulho e trazer a ordem para fora do caos, e nos ajudar a fazer sentido de nosso desespero''.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Eu lembro cada beijo que eu te dei.

Eu tenho duas casas. Duas camas. E um amor. 
Quando durmo na cama de solteiro, tenho a certeza e a lembrança de estar longe de ti (quase 300km, pra ser mais exata).
Na outra casa, na cama de casal, durmo acompanhada, durmo mais feliz, sossegada e protegida.
Trezentos quilômetros de distância: ''como vocês aguentam?'' - é o que todos me perguntam.

Tenho saudade de ser acordada com beijos nas costas. Saudade do calor debaixo das cobertas. Saudade de acordar mais cedo só pra te ver dormindo ao meu lado, deitar em teu peito e te beijar com ternura, enquanto meus olhos enchem d'água. 

Ter alguém pra amar, ter alguém que me ame incondicionalmente. Alguém que eu posso confiar, mais que um amigo, mais que um companheiro, mais que um cúmplice.
É a pessoa que me faz rir, me sentir criança e mulher ao mesmo tempo, a pessoa que me fez crescer, que me ensinou a ver a vida de outro jeito, que me mudou, que me completou.
Cadê você agora, meu amor? 


quarta-feira, agosto 03, 2011

Minha alma canta blues.

Em três semanas ela mudara muito. Não era a mesma pessoa.
Olhou pela janela. Com a certeza da rotina e do dinamismo da vida, o inverno continuava, gritando em silêncio sua grandiosa estadia, compondo nos jardins sua magnífica mensagem natural.
Saiu sem rumo, entrou no primeiro bar que encontrara, uma taberna na qual canecas de cerveja desapareciam com assombrosa facilidade.
Quarta-feira. Não gostava de quarta-feira.
Recordações e sensações incontroláveis despertavam nela. Eram os piores dias do ano. O rádio derramava enormes quantidades de canções estúpidas e só se falava em futilidade. 

Ela continuara sozinha, lembrando das coisas que lhe foram ditas por sua mãe.
Às vezes lembrava-se dela... Ou será que era apenas a sua imaginação, como tantas outras coisas?

Quem podia ouvir música com o volume baixo? Suspirou, indignada. E aumentou o volume do toca-discos.