- Claro, menina!
- Ai, estou cheia de dores, andei muito hoje!
- Que absurdo esta reclamação, menina! Tu és jovem, e eu... eu tenho estas rugas, aqui.
De fato, tinha rugas bem marcadas nos cantos dos olhos. Respondi com ternura, tocando-as com o indicador:
- Pois acho isso maravilhoso. Quantas noites, quantas viagens, quantas fisionomias vistas, para acabar ficando com esses vincozinhos! A senhora, de certa forma, até lucra. Na verdade, isso torna o semblante expressivo. Para ser franca, acho bonito, expressivo, perturbador. Detesto os rostos lisos.
Ela deu uma risada.
- Só para me consolar, tu provocarias a falência dos institutos de beleza. Como tu és gentil. Gentilíssima.
Senti vergonha e redargui:
- Gentil, eu? Não sou tão gentil assim...
- Gente nova detesta ser gentil. Mas tu não dissestes coisas desagradáveis nem injustas. Trata bem as pessoas. Eis porque a considero perfeita.
- Pois não sou, não.
Havia muito tempo que eu não falava de mim. E, contudo, era um esporte que praticara muito, até os dezessete anos. Mas agora sentia uma espécie de lassitude. Na verdade, só poderia sentir interesse e amor por mim se alguém me quisesse bem e se interessasse pela minha pessoa. Julguei estúpido este último pensamento.
- Estou exagerando - considerei em voz alta.
- Tu me pareces bastante distraída - disse a senhora.
- É porque estou amando.
Notando que ela me contemplava, senti invadir-me a tentação de declarar-me: ''Senhora, eu o amo, mas ele mora longe, é uma situação tão complicada...''.
Mas antes que eu pudesse terminar meu pensamento, ela disse:
- Tudo bem, mocinha, esta é a minha parada. Boa noite e boa sorte com seu amor!