Durante todo aquele tempo, repetia seu nome dentro de mim mesma, e para o futuro.
Vesti-me e saí para encontrá-lo.
Passamos a tarde em um café - uma tarde de inverno como as outras. Lembro-me que em determinado momento fiquei olhando para a janela. E isso, com muita ternura, como se estivesse olhando para um rosto. E, por algum motivo, fui invadida por violenta sensação de felicidade; pela intuição física transbordante de que ia morrer um dia, de que não haveria mais aquele sol em meus olhos, nem aquela companhia.
Ele olhava-me, e ao ver meu sorriso, ficou curioso. Não admitia que eu fosse feliz, sem que compartilhasse com ele.
Depois, levou-me para conhecer seu lugar favorito. Uma casa de praia, antiga, abandonada...
Dentro do carro, numa estradinha de chão, eu caía contra ele, por conta dos solavancos. E ele, envolvia-me num abraço protetor. Eu apoiava-me em seu casaco, contra a curva de seu ombro, aquele ombro que muito me protegera.
Respirava seu perfume natural, reconhecia-o bem, emocionava-me. Meu primeiro amante. Fora nele que eu conhecera o perfume do meu próprio corpo. É sempre no corpo dos outros que conhecemos o nosso, de alto a baixo, com seu aroma; no começo, com desconfiança, depois, com reconhecimento grato.
Caminhamos pelo jardim, nossos papos agora harmonizavam, como os nossos corpos à noite.
Ele segurava minha mão, e íamos assim, delgados, agradáveis, como imagens.
Parou, cingiu-me nos braços. E aquelas mãos, soerguendo o meu rosto! E aquela boca tão cálida, tão doce, tão bem feita para a minha! Ele abandonara os dedos em redor de meu rosto e agora os apertava com força, enquanto nos beijávamos. Passei meus braços em redor de seu pescoço. Tinha medo de mim, dele, de tudo que não fosse aquele momento.
Então eu fechava os olhos, sob o calor que me invadia as têmporas, as pálpebras, a garganta. Surgia em mim alguma coisa que eu não conhecia, que não tinha a pressa nem a impaciência do desejo, mas que era agradável, lenta e perturbadora.
Estirado junto a mim, beijava-me com uma espécie de respeito, de tremor, que me emocionava e me incutia medo. Eu teria gostado mais da alegria desenvolta do começo, do aspecto jovem, animal, de nossos enlances. Mas quando ele se alongou sobre mim, quando me procurou com impaciência, lembrei que era saudade.
Era ele. E esta angústia, e esse prazer.
Ainda hoje, principalmente hoje, aquela felicidade, aquele esquecimento de corpos parece-me uma incrível dádiva e uma estranha derrisão, se penso em meus raciocínios, em meus sentimentos e naquilo que não posso - não obstante o que me resta - deixar de chamar o essencial.
Teve um sorriso cúmplice, do qual compartilhei. Eu gostava de casas desconhecidas, dos banheiros com ladrilhos brancos e pretos, das grandes janelas. Puxou-me e beijou-me na boca, suavemente. Eu conhecia sua respiração, sua maneira de beijar. Era ele de novo.