segunda-feira, outubro 05, 2009

Uma única...

Ela estava inquieta. Agitada demais para dormir, tentou ler por algum tempo, mas logo abandonou seu livro e começou a andar pelo quarto. Estava começando a chover, e Claire* viu as gotas geladas caindo nas vidraças com força espantosa.
Respirando fundo, forçou-se a interromper a agitada caminhada pelo aposento e sentou-se.
Naquele instante a porta se abriu.
Claire emitiu uma exclamação de espanto ao vê-lo entrar no aposento, chutando a porta para fechá-la. Ele abriu as presilhas do colete e deixou-o cair no chão. A camisa de linho estava suja e molhada, como seus cabelos e seu rosto. Sua aparência era ameaçadora, perigosa e Claire recuou um passo enquanto ele se aproximava.
Seus olhos ardiam ainda mais escuros, e ele, a encarava enquanto atravessava o quarto com passos lentos, determinados. Ao parar diante dela, praticamente encurralando-a contra a parede, John ergueu uma das mãos e tocou seu queixo.
- Não tenho pensado em nada que não seja você - disse, o tom soando zangado aos ouvidos de Claire.
Então ele a beijou.
John roçou sua boca com os lábios, quase incapaz de conter-se, temendo esmagá-la com a intensidade de sua ânsia.
Não devia se importar com ela.
Entrara no quarto de Claire com o firme propósito de deitá-la diante da lareira e saciar seu desejo. Mas, quando vira o medo em seus olhos, sentira que o instinto se tornava mais brando, menos urgente. Queria tê-la como antes, desejando-o, excitada e relaxada. Por isso conteve-se, tocando apenas seu rosto com a ponta dos dedos, beijando seus lábios com ternura.
Claire conteve o fôlego e abriu os olhos. De repente, ela o enlaçou com os braços e beijou-o com ferocidade espantosa, pressionando o corpo contra suas roupas sujas e ensopadas, sem dar nenhuma importância ao prejuízo que causava às próprias roupas.
John não pensou duas vezes. Puxou-a contra o peito, segurando sua cabeça, inserindo a língua entre seus lábios. Ela correspondeu de pronto, e o calor de sua boca o fez pensar no calor que encontraria quando a despisse e mergulhasse em sua... feminilidade.
Claire abaixou as mãos. Empurrando a camisa dele para cima, ela tocou a pele de seu abdome, do peito e dos mamilos. Sem interromper o beijo, usou o polegar e o indicador para massageá-los.
John ouviu o próprio gemido aflito. Tinha de penetrá-la. Agora!
Rápido, tomou-a nos braços e levou-a para a frente da lareira, onde a guitarra ocupava todo o espaço de um assento duplo. Colocando-a no chão, mudou o instrumento de lugar, despiu a camisa, removeu o restante das roupas e aproximou-se novamente dela.
Claire tremia, mas isso não o impediu de levantar seu vestido, desnudando suas pernas. Por um momento o homem hesitou, mas ela tocou sua nuca e puxou-o em sua direção, tomando sua boca num beijo devastador.
Um gemido rouco brotou de seu peito quando a língua encontrou a dele, como se ela estivesse esperando por aquele momento há dias. Emoções profundas, variadas, imensas e intensas preenchiam por completo, e ele moveu a cabeça de forma a poder olhá-la com sedução.
Nenhum dos dois disse nada. Quando os olhos se encontraram, John penetrou-a com um movimento firme e seguro, fechando os olhos para melhor desfrutar do prazer da união.
Quando ele começou a se mover, Claire acompanhou seu ritmo. Por maior que houvesse sido o frio que sentira há pouco, de repente queimava com um frenesi que nunca havia experimentado antes. Os músculos sofriam com a tensão e ele se deliciava com as sensações que o corpo feminino proporcionava. Tomou seus lábios novamente para mais um (longo) beijo, engolindo seus gritos de prazer, derramando gota a gota em seu interior todo o prazer que o dominava no momento do êxtase.
Tremendo, apertou-a entre os braços, aninhando-a até sentir que seu coração retomava o ritmo normal e a respiração ganhava profundidade. Jamais conhecera tal emoção, nem se sentira tão íntimo de outra pessoa. Nem mesmo com a própria esposa.
Era perigoso demais pensar nisso.
De qualquer maneira, sua falta de controle o assutava. Fora procurá-la movido pelo desejo de possuí-la, mas nunca se imaginaria fazendo amor com uma mulher daquela maneira, no chão do quarto, diante da lareira, correndo o risco de ser surpreendido por um de seus irmãos... Mas, diante da recepção calorosa e das evidências de desejo de Claire por ele, não fora capaz de controlar-se.
Apoiado nos cotovelos, encarou-a e viu o torpor em seus olhos. Ela estava confusa, perplexa, e saber que sua reação ao ato era tão intensa quando a dele só tornava a sua situação ainda pior. Não queria sentir-se ligado a ela. Não queria laços além daqueles que os uniam na cama.

Milonga.

Algo estava errado ali. Eu conhecera seu rosto e interpretara suas expressões tão bem quanto as minhas, mas aquela... jamais a vira antes. E não gostava do que via.
Ele estivera chorando, e não queria que ninguém soubesse disso. A constatação me aborrecia mais do que gostaria de admitir. Não que acreditasse estar sendo vítima de uma mentira. Também não suspeitava de que ele guardava algum segredo obscuro e perigoso. Sabia que não era nada disso.
Mas algo o pertubava. E o instinto dentro de mim despertava um estranho sentimento de proteção. Queria destruir o que quer que houvesse causado aquelas lágrimas.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Deuses astronautas em plena nudez.

Gosto do jeito como me apaixono por estranhos. Do modo como eles me chamam atenção, me fazem sentir borboletas no estômago e na outra semana, são apenas boas lembranças. E mais do que isso, acho merecedor escrever sobre eles aqui, por isso, aí vai mais um conto de fim de semana.

Pelos padrões do Uruguai, ainda era cedo; às onze horas da noite o horário da janta estava apenas iniciando. Eu comecei a sentir fome e ia me inclinando sobre o braço do meu primo para pedir comida, quando algo me chamou atenção no centro do salão. O olhar de um homem fez minha respiração se acelerar... de um modo que quase doeu. Foi como uma pontada seguida de dor, que começou em minha garganta e se aprofundou por meu corpo através do peito, direto ao coração.
Olhei, e continuei olhando. Algumas coisas nele me encantaram... Como os cabelos escuros; ombros largos; uma expressão corporal que me puxava; a maneira como se inclinava para a frente, atento, balançando a cabeça de certo modo para ouvir o que o homem a sua frente estava dizendo; o modo como franzia a testa e curvava a boca num discreto sorriso que dizia que mal conseguia ouvir, mas que continuava tentando. Cada gesto, cada olhar, parecia-me extremamente familiar. Ele não era um estranho.
Deviam ter passado alguns segundos antes que eu percebesse as roupas que ele estava usando, e quando o fiz a estranha sensação se abateu sobre mim outra vez. Meu coração disparava e parava, disparava e parava, como se não soubesse o que fazer, assim como minha cabeça.
Calça jeans, camisa branca e um colete de couro muito caro e folgado, com um bolso de cada lado. Ele também usava um lenço, meio cinza, meio lilás. Fazia muito frio naquela noite, todos usavam roupas quentes e casacos pesados, mas ele não parecia incomodar-se ao usar somente aquela roupa.
Fiquei dividida. Parte de mim, a parte que vive entre imagens e devaneios, queria se levantar da cadeira e ir até o outro lado da mesa e dizer: "Oi!", quase aceitando o fato que aquilo realmente acontecia diante de meus olhos. Mas a outra parte em que me dividia estava amedrontada.
Tentei racionalizar. No entanto, permanecia o fato de que o rosto dele era tão familiar para mim. Talvez eu já o tivesse visto em alguma janta em família, sei lá.
Ao mesmo tempo, ele não parecia real.
Se eu o tocasse ele se dissolveria como vapor? Seria de carne e osso? Ou seria uma aparição?
Incapaz de me mover, eu simplesmente fiquei ali sentada, boquiaberta. Ele não era uruguaio, concluí; não gesticulava como um uruguaio. Infelizmente, com todo aquele barulho, era impossível ouvir em que idioma ele falava, mesmo estando na mesma mesa.
Talvez ele tivesse percebido meu olhar, como acontece à gente às vezes. Ele devia ter sentido, porque desviou o olhar da pessoa a quem ouvia tão atentamente. E não vagou o olhar pelo salão em busca da fonte de energia que se orientava em sua direção. Ao contrário, voltou a cabeça e olhou diretamente para mim, e apenas para mim.
Fiquei deslumbrada com o azul-prateado daqueles olhos, que cintilaram com uma espécie de surpresa. Ele franziu a testa, e cada contração muscular de seu rosto, o menor tremor revelava surpresa. Meu coração se comportava como louco. Tentei conter a respiração e não consegui, nossos olhares se cruzavam de um modo que jamais esqueci.
Ele parecia me conhecer! Ainda assim não era possível... aquele estranho não podia me conhecer.
Nossos olhares continuavam fundidos, acima da fumaça e do barulho do restaurante. Não sei o que ele via, mas de uma coisa estava certa: ele me reconhecia. "Ele realmente me conhece!", pensei, num momento de loucura - onde já não ouvia o que as pessoas em volta falavam.
Então a lucidez retornou. Comecei a tremer. Tentei olhar para o lado e não consegui. Ele voltou a prestar atenção no homem com quem conversava - parecia ser seu tio. Mas novamente seu olhar pareceu atraído para mim.
"Devo parar de olhar!", implorava a mim mesma. Talvez fosse apenas meu olhar que estivesse atraindo a atenção dele; ele apenas reagia àquela sensação de estar sendo observado.
Mas, não, era mais que isso. O olhar dele me queimava como um fogo prateado. Não sei se cheguei a sorrir. Nem ele sorriu. Ele apenas me olhava como se dissesse: "Eu quase... me lembro".
Pouco tempo depois, ele começou a se despedir de todos na nossa mesa. Disse que a janta estava agradável, mas ele ainda tinha que ir para outros lugares naquela mesma noite - talvez encontrar sua namorada. Mas garantiu que voltaria no outro dia, para o churrasco na casa de Ramiro.
Ao se levantar, parecia mais alto do que a maioria. Na penumbra do salão do restaurante, seu rosto mostrava-se incrivelmente belo. Um pouco antes de chegar à porta da rua, ele tirou um óculos do bolso da camisa e colocou-o. "Que estranho", pensei, "usar óculos escuros à noite". Aquilo me fez pensar que ele tentava proteger sua identidade, escondendo-se de alguém... ou de alguma coisa.
Depois que ele saiu, fiquei ali sentada, tentando concluir se era um sonho que havia entrado e saído da minha vida...
Discretamente, virei para o lado, e perguntei para minha vó qual o nome do homem/rapaz. Ele se chamava Pablo. Pablo Vicente. Filho de um dono de vinhedo na Argentina. O guri parece que também nasceu na Argentina e veio morar aqui no sul do Brasil com a mãe.
Enfim, pela manhã, fomos andar pelas ruas de Melo. Minha mãe queria ver o comércio da cidade.
A luz da manhã produzia um efeito revigorante, especialmente naquele país luminoso onde o sol de inverno ergue-se tão brilhante acima das casas e se reflete sobre as fontes como se espalhasse chuva de diamante. Tentei me concentrar no "passeio", para esquecer Pablo.
Minha tia e minha mãe entraram numa loja, e eu recostei a um banco de pedra com o Gustavo no colo. De olhos fechados, eu fiquei sentindo o sol bater em mim. Nunca senti tanta vontade de estar com a minha câmera numa simples viagem. Tudo era lindo.
Eu ouvia as pessoas falando em espanhol, e, no momento em que aquela cena ganhava vida em minha mente, alguma força invisível me envolveu e me fez abrir os olhos. Engasguei com o Alfajor que eu dividia com Gustavo. Ali mesmo, caminhando entre as pessoas, caminhava Pablo. Hoje, porém, ele usava um casaco.
O chão brilhava refletindo o sol em ondas de luz e calor que davam a tudo uma impressão de irrealidade. O sol uruguaio derramava-se sobre minha cabeça e ombros; o reflexo na pintura e nos cromados dos carros me ofuscava a vista.
Quase cega pela intensa luminosidade, eu quase não distinguia mais a realidade. Não era possível que eu estivesse vendo aquele homem que franzia os olhos sob a luz do sol de inverno. Pablo não era real!
Me decepcionei quando Pablo não apareceu para o churrasco do domingo à tarde. Me decepcionei mais ainda quando voltei para o Brasil sem vê-lo novamente. Pablo com certeza não existia. Era uma invenção da minha cabeça. Ou apenas um conhecido da família...

quarta-feira, setembro 09, 2009

Folhas.

O rapaz de vinte e um anos deixou escapar um suspiro profundo.
Mas ao perceber o perigo de um motim, decidiu mudar de assunto.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Sem avisar...

...E agora me encontrava em uma festa de gala em um clube esnobe, cheio de mulheres e homens que transpiravam riqueza.
A música era enfadonha, incapaz de contagiar alguém. Mas ao menos eu podia me consolar com a cerveja, enquanto observava aquelas pessoas estranhas. Os casais pareciam dançar com mais dignidade do que por entusiasmo. Mas quem poderia culpá-los? Afinal de contas, a orquestra era tão viva e animada quanto um velório!
Era interessante observar todas aquelas jóias reluzindo.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Ele quer me oferecer uma Duff.

''Ninguém sabe onde está, a não ser eu e , claro, você''.
Suponho que fosse isso mesmo o que eu queria; assim, de certa forma, tinha conseguido realizar os meus intentos.
Demos, os dois, boas risadas. Afinal, as pessoas falavam de mim e me procuravam. O momento foi maravilhoso! Mas a experiência já me ensinara que, quando são maravilhosos, eles não duram muito. No fim, iam acabar me achando mesmo, então, o que seria?!

quarta-feira, agosto 12, 2009

Enferrujada.

Pouco depois estava comigo, excitada como nunca. Ela ainda possuía a mesma idade que eu. E percebi que vestia um casaco com enormes bolsos internos, parecendo estofados com o que achei que fosse a comida que me prometera.

Nas mãos, agitava um jornal.

sábado, agosto 08, 2009

Mamadi.

Sua presença significava segurança num mundo que me ameaçava; quando me sentia perturbada, era para ela que me voltava, querendo que me explicasse o porquê disso; ela não podia, mas em compensação, me dava consolo; foi ela quem me fez tomar leite e comer arroz-doce...

The Imposters.

Sentou-se em cima da mesa, segurando os joelhos com as mãos, os olhos meio perdidos - era o jeito como ficavam quando seu rosto vincava com algo que lhe dava prazer.

Não é o bastante definir os termos.

Na parede, havia um espelho e penteei os cabelos; ao me olhar, pareceu que eu estava diferente de quando me via no espelho do meu quarto em casa. Meus olhos pareciam maiores, provavelmente pelo medo; minha face estava pálida, sem dúvida pela emoção; e meus cabelos apontavam em todas as direções. Eram cabelos grossos, duros, que não admitiam serem presos e que foram motivo de desespero de muitas babás que tiveram a desventura de cuidar de mim na infância.

Minha aparência era comum, e eu não tinha o menor prazer em olhar minha imagem no espelho.