quinta-feira, setembro 24, 2009

Deuses astronautas em plena nudez.

Gosto do jeito como me apaixono por estranhos. Do modo como eles me chamam atenção, me fazem sentir borboletas no estômago e na outra semana, são apenas boas lembranças. E mais do que isso, acho merecedor escrever sobre eles aqui, por isso, aí vai mais um conto de fim de semana.

Pelos padrões do Uruguai, ainda era cedo; às onze horas da noite o horário da janta estava apenas iniciando. Eu comecei a sentir fome e ia me inclinando sobre o braço do meu primo para pedir comida, quando algo me chamou atenção no centro do salão. O olhar de um homem fez minha respiração se acelerar... de um modo que quase doeu. Foi como uma pontada seguida de dor, que começou em minha garganta e se aprofundou por meu corpo através do peito, direto ao coração.
Olhei, e continuei olhando. Algumas coisas nele me encantaram... Como os cabelos escuros; ombros largos; uma expressão corporal que me puxava; a maneira como se inclinava para a frente, atento, balançando a cabeça de certo modo para ouvir o que o homem a sua frente estava dizendo; o modo como franzia a testa e curvava a boca num discreto sorriso que dizia que mal conseguia ouvir, mas que continuava tentando. Cada gesto, cada olhar, parecia-me extremamente familiar. Ele não era um estranho.
Deviam ter passado alguns segundos antes que eu percebesse as roupas que ele estava usando, e quando o fiz a estranha sensação se abateu sobre mim outra vez. Meu coração disparava e parava, disparava e parava, como se não soubesse o que fazer, assim como minha cabeça.
Calça jeans, camisa branca e um colete de couro muito caro e folgado, com um bolso de cada lado. Ele também usava um lenço, meio cinza, meio lilás. Fazia muito frio naquela noite, todos usavam roupas quentes e casacos pesados, mas ele não parecia incomodar-se ao usar somente aquela roupa.
Fiquei dividida. Parte de mim, a parte que vive entre imagens e devaneios, queria se levantar da cadeira e ir até o outro lado da mesa e dizer: "Oi!", quase aceitando o fato que aquilo realmente acontecia diante de meus olhos. Mas a outra parte em que me dividia estava amedrontada.
Tentei racionalizar. No entanto, permanecia o fato de que o rosto dele era tão familiar para mim. Talvez eu já o tivesse visto em alguma janta em família, sei lá.
Ao mesmo tempo, ele não parecia real.
Se eu o tocasse ele se dissolveria como vapor? Seria de carne e osso? Ou seria uma aparição?
Incapaz de me mover, eu simplesmente fiquei ali sentada, boquiaberta. Ele não era uruguaio, concluí; não gesticulava como um uruguaio. Infelizmente, com todo aquele barulho, era impossível ouvir em que idioma ele falava, mesmo estando na mesma mesa.
Talvez ele tivesse percebido meu olhar, como acontece à gente às vezes. Ele devia ter sentido, porque desviou o olhar da pessoa a quem ouvia tão atentamente. E não vagou o olhar pelo salão em busca da fonte de energia que se orientava em sua direção. Ao contrário, voltou a cabeça e olhou diretamente para mim, e apenas para mim.
Fiquei deslumbrada com o azul-prateado daqueles olhos, que cintilaram com uma espécie de surpresa. Ele franziu a testa, e cada contração muscular de seu rosto, o menor tremor revelava surpresa. Meu coração se comportava como louco. Tentei conter a respiração e não consegui, nossos olhares se cruzavam de um modo que jamais esqueci.
Ele parecia me conhecer! Ainda assim não era possível... aquele estranho não podia me conhecer.
Nossos olhares continuavam fundidos, acima da fumaça e do barulho do restaurante. Não sei o que ele via, mas de uma coisa estava certa: ele me reconhecia. "Ele realmente me conhece!", pensei, num momento de loucura - onde já não ouvia o que as pessoas em volta falavam.
Então a lucidez retornou. Comecei a tremer. Tentei olhar para o lado e não consegui. Ele voltou a prestar atenção no homem com quem conversava - parecia ser seu tio. Mas novamente seu olhar pareceu atraído para mim.
"Devo parar de olhar!", implorava a mim mesma. Talvez fosse apenas meu olhar que estivesse atraindo a atenção dele; ele apenas reagia àquela sensação de estar sendo observado.
Mas, não, era mais que isso. O olhar dele me queimava como um fogo prateado. Não sei se cheguei a sorrir. Nem ele sorriu. Ele apenas me olhava como se dissesse: "Eu quase... me lembro".
Pouco tempo depois, ele começou a se despedir de todos na nossa mesa. Disse que a janta estava agradável, mas ele ainda tinha que ir para outros lugares naquela mesma noite - talvez encontrar sua namorada. Mas garantiu que voltaria no outro dia, para o churrasco na casa de Ramiro.
Ao se levantar, parecia mais alto do que a maioria. Na penumbra do salão do restaurante, seu rosto mostrava-se incrivelmente belo. Um pouco antes de chegar à porta da rua, ele tirou um óculos do bolso da camisa e colocou-o. "Que estranho", pensei, "usar óculos escuros à noite". Aquilo me fez pensar que ele tentava proteger sua identidade, escondendo-se de alguém... ou de alguma coisa.
Depois que ele saiu, fiquei ali sentada, tentando concluir se era um sonho que havia entrado e saído da minha vida...
Discretamente, virei para o lado, e perguntei para minha vó qual o nome do homem/rapaz. Ele se chamava Pablo. Pablo Vicente. Filho de um dono de vinhedo na Argentina. O guri parece que também nasceu na Argentina e veio morar aqui no sul do Brasil com a mãe.
Enfim, pela manhã, fomos andar pelas ruas de Melo. Minha mãe queria ver o comércio da cidade.
A luz da manhã produzia um efeito revigorante, especialmente naquele país luminoso onde o sol de inverno ergue-se tão brilhante acima das casas e se reflete sobre as fontes como se espalhasse chuva de diamante. Tentei me concentrar no "passeio", para esquecer Pablo.
Minha tia e minha mãe entraram numa loja, e eu recostei a um banco de pedra com o Gustavo no colo. De olhos fechados, eu fiquei sentindo o sol bater em mim. Nunca senti tanta vontade de estar com a minha câmera numa simples viagem. Tudo era lindo.
Eu ouvia as pessoas falando em espanhol, e, no momento em que aquela cena ganhava vida em minha mente, alguma força invisível me envolveu e me fez abrir os olhos. Engasguei com o Alfajor que eu dividia com Gustavo. Ali mesmo, caminhando entre as pessoas, caminhava Pablo. Hoje, porém, ele usava um casaco.
O chão brilhava refletindo o sol em ondas de luz e calor que davam a tudo uma impressão de irrealidade. O sol uruguaio derramava-se sobre minha cabeça e ombros; o reflexo na pintura e nos cromados dos carros me ofuscava a vista.
Quase cega pela intensa luminosidade, eu quase não distinguia mais a realidade. Não era possível que eu estivesse vendo aquele homem que franzia os olhos sob a luz do sol de inverno. Pablo não era real!
Me decepcionei quando Pablo não apareceu para o churrasco do domingo à tarde. Me decepcionei mais ainda quando voltei para o Brasil sem vê-lo novamente. Pablo com certeza não existia. Era uma invenção da minha cabeça. Ou apenas um conhecido da família...

quarta-feira, setembro 09, 2009

Folhas.

O rapaz de vinte e um anos deixou escapar um suspiro profundo.
Mas ao perceber o perigo de um motim, decidiu mudar de assunto.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Sem avisar...

...E agora me encontrava em uma festa de gala em um clube esnobe, cheio de mulheres e homens que transpiravam riqueza.
A música era enfadonha, incapaz de contagiar alguém. Mas ao menos eu podia me consolar com a cerveja, enquanto observava aquelas pessoas estranhas. Os casais pareciam dançar com mais dignidade do que por entusiasmo. Mas quem poderia culpá-los? Afinal de contas, a orquestra era tão viva e animada quanto um velório!
Era interessante observar todas aquelas jóias reluzindo.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Ele quer me oferecer uma Duff.

''Ninguém sabe onde está, a não ser eu e , claro, você''.
Suponho que fosse isso mesmo o que eu queria; assim, de certa forma, tinha conseguido realizar os meus intentos.
Demos, os dois, boas risadas. Afinal, as pessoas falavam de mim e me procuravam. O momento foi maravilhoso! Mas a experiência já me ensinara que, quando são maravilhosos, eles não duram muito. No fim, iam acabar me achando mesmo, então, o que seria?!

quarta-feira, agosto 12, 2009

Enferrujada.

Pouco depois estava comigo, excitada como nunca. Ela ainda possuía a mesma idade que eu. E percebi que vestia um casaco com enormes bolsos internos, parecendo estofados com o que achei que fosse a comida que me prometera.

Nas mãos, agitava um jornal.

sábado, agosto 08, 2009

Mamadi.

Sua presença significava segurança num mundo que me ameaçava; quando me sentia perturbada, era para ela que me voltava, querendo que me explicasse o porquê disso; ela não podia, mas em compensação, me dava consolo; foi ela quem me fez tomar leite e comer arroz-doce...

The Imposters.

Sentou-se em cima da mesa, segurando os joelhos com as mãos, os olhos meio perdidos - era o jeito como ficavam quando seu rosto vincava com algo que lhe dava prazer.

Não é o bastante definir os termos.

Na parede, havia um espelho e penteei os cabelos; ao me olhar, pareceu que eu estava diferente de quando me via no espelho do meu quarto em casa. Meus olhos pareciam maiores, provavelmente pelo medo; minha face estava pálida, sem dúvida pela emoção; e meus cabelos apontavam em todas as direções. Eram cabelos grossos, duros, que não admitiam serem presos e que foram motivo de desespero de muitas babás que tiveram a desventura de cuidar de mim na infância.

Minha aparência era comum, e eu não tinha o menor prazer em olhar minha imagem no espelho.

Sergio.

Se eu lhe contasse do que sentia medo, ele iria rir de mim. Já até imaginava o seu tom de voz alto e mandão, dizendo com desdém: ''Quanta imaginação, Mariana!''
Ele não tinha escrúpulos para discutir abertamente assuntos que outros fingiam não acreditar. Talvez por isso, achasse sua companhia sensacional, se bem que algumas vezes se tornava bastante desagradável.

Auréola.

Pobre moça, com seus 16 anos (pouco mais que uma criança e ainda assim, uma mulher), amedrontada e inteiramente fascinada por aquele... hmm... selvagem.
O cabelo dele era alourado, e me fazia lembrar a juba de um leão.
Logo que o vi, o colorido de seu rosto me tomou. Ele tinha o olhar mais sedutor que já havia encontrado.
Seus olhos e cabelos pareciam ter o mesmo tom, mesmo sabendo que isso era pouco provável; mas não era por isso que se faziam notados; suponho que fosse algo na expressão, algo de indiferença, segurança e sarcasmo.