sábado, setembro 04, 2010

Os dias que estão nos jornais (antigos).

- Aí, mano! Eu bebo todo dia, tá ligado?
- Fumo pra cacete, mano, durmo sempre aqui em frente à vendinha.
- Já vi de tudo aqui, coisa que até o diabo duvida, mano, tá ligado?
- Sobrevivo comendo coisas que ganho, mano, e até reviro os lixo, é mó treta com os cachorro, tá ligado?
- Já fui esfaqueado duas vezes, mano; uma pelo Negão e a última foi pelo Boca, uns moleques folgado da porra.
- E agora tu pensa: tudo isso e eu ainda tô vivo, mano. Agora uma pá de maluco que comia bem pra caralho já foi embora, é só pensar, o Senna, o PC Farias, o Leandro, aquele da dupla sertaneja, tá ligado? Então num é embaçado, mano?
- Aí, eu vou sair fora agora, vai ter um sapeco lá no Saldanha, e hoje eu vou comer que nem um cachorro, falou, depois a gente se cruza.
...
- Falou, cara. Depois a gente se tromba.

terça-feira, agosto 31, 2010

Atividade Experimental.

01:26, hora da nostalgia.
We could steal time, just for one day. We can be heroes, for ever and ever. What d'you say?
Tudo que ela consegue é chorar. De saudade.

O amigo que ela sempre quis ter: gostos e pensamentos parecidos, que saía no meio da tarde sem rumo e acabava bebendo uma cervejinha antes da aula com ela...
Ele era assim. O melhor amigo que ela já pode ter. Que a ouvia como ninguém.
Ele era assim. Como ela imaginava. Até mesmo com as briguinhas idiotas.
Space Oddity e os passeios nas tardes nubladas da cidade pacata.

Férias. Cerveja quente. Praia. Amigos. Música. Tédio. Bobiças. Diversão. E nada mais importava.

This is ground control to Major Tom, you've really made the grade.
Mordidas. Choro. Abraços.
E sempre a sensação de estar segura.

Can you hear me, Major Tom?

Agora ela se sente tão sozinha; olha para seu mural e vê as fotos, as cartas e os recortes e chora. Na verdade, ela não sabe se é um choro de felicidade, por lembrar tudo que passaram ou se é de tristeza, por saber que esses momentos nunca voltarão.

Came on so loaded man, well hung and snow white tan.

Ai, Caínho...

Became the special man.

terça-feira, agosto 24, 2010

Vinheta.

Como não haveria de lembrar-se da própria infância decorrida naquela mesma cidade, mas numa atmosfera completamente diversa? Do entusiasmo fácil, da espontaneidade autêntica, do idealismo ingênuo de seus companheiros de então.

terça-feira, agosto 03, 2010

Posso atingir seus pensamentos?

Ela ainda coleciona canecas. E gosta de tons pastéis. Ela ainda é tímida e tão linda!
Nas quintas-feiras ela gosta de beber uma cerveja especial, na sua caneca também especial.

Ele ainda coleciona carrinhos. Seu quarto ainda é temático. Ele é muito tímido e charmoso. E sua boca... ah... sua boca... é fascinante!
Nas sextas-feiras ele gosta de beber cerveja.

Eles não se conheciam. Até agora.

Ela tinha um bar favorito. Na sua bolsa havia uma cartela de paracetamol. Ela gosta de beber com uísque ou licor. Se sente flutuando. E a faz esquecer os problemas - mulheres também têm problemas.
Há quem diga que ela é uma viciada. Mas ela sabe que não é.

Ele estuda sobre vampiros. E sobre fatos históricos.

Ela procura um emprego e tenta decidir seu futuro.

Numa noite fria dessas de renguear cusco, eles se encontraram. Foi épico. Ele já a conhecia de vista e em segredo, a desenhava em seu velho caderno.
Ela sempre foi mimada e fútil.
Ele sabia disso, mas perto dele, ela parecia ser muito mais interessante. Inclusive ela sabia ser divertida.

Um beijo acabou acontecendo em meio às histórias. Quem tomou a iniciativa? Ela, é claro!
Depois desse beijo, não se desgrudaram mais. E é no colo dele que ela se alivia. É com ele que ela se sente REALMENTE bem.
Brigas? Pra quê? Cicatrizes? Choro! Amor. Amor. Amor.

Agora faz frio. E ela não sabe mais como é dormir sozinha.

quinta-feira, julho 29, 2010

Com uma pulga entre dois dedos.

A porta de aço descida quase embaixo e a cara amarfanhada de todos os desânimos, João contava a magra féria no boteco. A situação começava a ficar difícil desde a cirurgia da mulher, quando ficaria alguns dias sem os salgados. Sua recuperação se complicou, e ele teve de cortar os fiados e tentar receber dos fregueses que lhe deviam. Precisava muito do dinheiro. Não compreenderam. Poucos pagaram. A maioria tratou de sumir. Tinha gente, antes tão amiga, que deslizava do outro lado da rua e nem olhava na sua direção.
Parara de vender maço de cigarro; cigarro só picado. As prateleiras, desfalcadas. Acabou comprando cerveja de segunda mão. A mulher custou a se restabelecer, mas, com as vendas curtas e a fuga da freguesia, deixara de fazer os salgadinhos de todos os dias. O boteco, antes tão bem sortido de tira-gosto, bebidas e algumas latarias, agora era a imagem da decadência. Sobrevivia praticamente na base da cachaça ruim.
Desesperançado, João guardou as notas no bolso e deixou alguns trocados na gaveta. Ia apagar a luz e passar por baixo da porta de aço quando ouviu um carro parando. Pelo barulho podia ser uma caminhonete. Passos se aproximaram, e uma voz lá de fora perguntou se dava para pegar um maço de cigarro.
- Meu cigarro acabou.
- E cerveja?
Sim, tinha umas cinco garrafas na geladeira. Fizera bem em não ter ido dormir. João suspendeu a porta e sorriu para três homens: um branco, um preto corpulento e um jovem mulato.
- Boa noite - disse o branco educadamente. Era a mesma voz que ouvira do lado de fora. - Nós queríamos tomar uma cerveja - continuou o branco. - Mas parece que o senhor estava fechando.
- Podem entrar - apressou-se João. Achei que não vinha mais ninguém.
- Quem sabe.
- Oh, não. - João afastou-se para que os três entrassem. - Vou passar um pano na mesinha.
- Não precisa - tornou o branco. Encaminharam-se para o balcão. - Que tal uma cachacinha? - O mulato e o preto concordaram. - Então uma cerveja e três cachaças.
João trouxe, solícito, as bebidas e os copos, procurando não olhar para a cara séria do preto, onde havia uma cicatriz vermelha, longa e saliente. Postou-se à meia distância, de forma a deixá-los à vontade mas pronto para atendê-los. Tentou adivinhar a profissão deles. Pareciam sem vestígio de graxa. Pelo jeito já haviam bebido alguma coisa. Bobagem, pensou João. E notou que o branco, de cabelo farto e cor de fogo, embora fosse baixo e magro, devia mandar no mulato - um rapaz alto, de cara lisa - e no preto, atarracado, os braços musculosos. Só o branco sorria. Viraram primeiro a cachaça.
- O que há para comer? - perguntou o mulato, olhando para a vitrine, onde havia apenas um prato com meia dúzia de bolinhos de queijo.
- Traz os bolinhios - decidiu o branco. - E traz a garrafa de cachaça.
João pegou a cachaça para serví-los e ia dizer que esquecera de recolher os bolinhos, pois eles estavam começando a endurecer, quando o branco ordenou.
- Deixe a garrafa.
- E os bolinhos? - lembrou o mulato.
- Vocês viram o salame? - propôs João.
- Salame ou bolinhos? - o branco dirigiu-se aos dois.
- Prefiro os bolinhos - disse o mulato, mostrando os dentes perfeitos, como se estivesse rindo de outra coisa.
Observavam João apanhar o prato na vitrine e o paliteiro. O preto ficou olhando o mulato espetar o bolinho de queijo. Deu uma mastigada e cuspiu tudo no chão.
- É de ontem - justificou-se João. -, mas não estão estragados.
O mulato virou o cálice de cachaça de uma vez.
- Tudo bem, meu irmão - disse o branco. - Pode levar o prato com os bolinhos.
- Se os senhores quiserem...
- Leve os bolinhos - cortou o mulato. - Vai o salame?
João ficou esperando a aprovação dos outros dois, principalmente do branco, pois o preto, até o momento, não dissera nada, e além da cicatriz do rosto dava a impressão de que estava noutro lugar.
- É uma boa ideia - concordou o branco.
João levou os bolos de queijo e pegou a bexiga de salame dependurada na prateleira. Trouxe também a faca e uma velha tábua.
- Mais grosso - recomendou o branco.
João cortou mais três pedaços e aguardou que cada um tirasse o seu. O mulato mostrou os dentes.
- E a pele?
- Com pele é melhor - o branco riu mais e pegou um dos três pedaços. Os outros dois fizeram o mesmo. João prestou atenção nos três comerem, como se esperasse que eles dissessem alguma coisa.
- Corta mais - falou o branco -, mas antes traz outra cerveja.
João trouxe uma nova garrafa e cortou mais três fatias.
- Pode cortar tudo - tornou o branco. - E traz uns palitinhos.
O jovem mulato entornou a cachaça nos cálices vazios, e os três observaram João com a faca afiada acabar com a bexiga.
João ficou um momento indeciso. Sabia que o pão também era de véspera e devia estar murcho no saco de pano.
- O pão - cobrou o branco.
Cada um fez seu sanduíche com um naco de salame. João dirigiu-se à pia e lavou os copos sujos. De vez em quando, olhava para eles discretamente, desviava logo a vista para não ver a cicatriz no rosto do preto. Entre uma bocada e outra, davam uma bicada na pinga, que já estava bem abaixo da metade. João fechou a torneira, enxugou as mãos na calça. Pensou em recolher uma garrafa de cerveja vazia, desistiu. Os três comiam e bebiam em silêncio. Devia ser quase uma da manhã. À medida que os observava, João não conseguia atinar com a profissão deles. Os três eram bastante diferentes, sem nada em comum, a não ser o hábito de beber. A garrafa de cachaça estava quase no fim. Não tinham pressa.
- Algum problema?
João sorriu constrangido para o mulato e, antes que abrisse a boca, o branco pediu mais uma cerveja.
- Escuta aqui - tornou o mulato de dentes fácies, depois que João serviu a bebida. - Como é que chama este lugar?
- O bar?
- Não, o bairro.
- Primeiro de Maio.
- Interessante: Primeiro de Maio.
- É o nome do bairro.
- Pelo jeito - observou o branco, olhando as prateleiras vazias -, o negócio não está indo bem.
O rosto de João ficou mais amarfanhado.
- Quem sabe eu estou enganado? - acrescentou o branco.
- Dá para ir vivendo - disse João, modestamente.
- Quanto você costuma fazer?
- Varia muito.
- Um dia pelo outro?
- Uns nove mil. Às vezes um pouco mais, conforme o mês.
- E hoje?
- Hoje foi um dia ruim. Uns seis mil, sem contar essa despesa.
João notou que a bebida tinha chegado ao fim, o prato limpo. O branco fez um sinal para o preto, e este se afastou do grupo. Sentiu um calafrio na espinha quando a porta de aço foi abaixada.
- Não perca a esportiva - aconselhou o branco.
João empalideceu de uma vez e pegou a faca de cortar salame. O mulato tirou calmamente o revólver do bolso de trás.
- Por favor, fique calmo. Nada de bobagem - recomendou o branco. - Largue a faca e está tudo bem. Isso mesmo, largue a faca. Ninguém vai dar tiro à toa.
Assustado e trêmulo, João achou mais prudente deixar a faca em cima da tábua. Não parava de olhar para o revólver na mão do jovem mulato.
- Isso mesmo - disse o branco, com um sorriso calmo. - O dinheiro está na gaveta ou no seu bolso?
João tentou correr para o fundo do bar, onde havia o banheiro. O preto cercou-o do outro lado do balcão. Um soco no meio da cara deixou João esparramado no chão.
- Eu falei para o senhor ficar bonzinho - observou o branco, aproximando-se. - Aí no chão está bom. Fica aí, enquanto nós fazemos o nosso trabalho.
Sangrando no nariz e na boca, João quis levantar-se. O preto colocou o pé em cima do seu pescoço, pressionando-o não mais do que o suficiente para que ele compreendesse que convinha ficar quieto.
O branco abaixou-se para tirar o dinheiro do seu bolso. Não viu o mulato abrir a gaveta e pegar algumas garrafas na prateleira.
- Acho que não tem mais nada - disse.
O branco olhou em torno, com sua cara boa. É, realmente não havia mais nada - um boteco da pior categoria.
- Gostei da faca - disse o preto pela primeira vez, sem tirar o pé do pescoço de João. Sua voz era rouca, difícil.
- Acho que é tudo, - disse o branco.
- E o que é que fizemos com ele? - perguntou o mulato.
Com o pé apertando o pescoço e os olhos esbugalhados na cara ensanguentada, João ficou esperando a decisão do homem branco.

quinta-feira, julho 22, 2010

Ele voltará.

O rio serpenteava por entre salgueiros, que se inclinavam graciosamente, como que querendo beijar as águas que corriam suaves e tranquilas.
Brotavam florinhas agrestes e erguiam-se árvores copadas, em cujos galhos os pássaros orquestravam festivamente.
Na margem esquerda do rio, situava-se o bairro mais calmo. Casas branquinhas com telhados vermelhos, escondendo-se entre o verde das árvores.
Na margem direita, via-se o bairro dos pescadores, onde as moradias apresentavam o aspecto de um mosaico de várias cores: alaranjado, verde, azul, amarelo.
Havia um hotel para turistas e um bazar onde se vendiam souvenirs.
As pescarias eram cheias de vida e de encanto. Todos os pescadores sentiam-se felizes na sua profissão. Eram filhos de pescadores, cujos pais, avós, bisavós também haviam sido pescadores. No rio havia muito peixe e, no coração, muito entusiamo.
Uma vila pitoresca. Uma vila romântica.
Tarde dourada. Reflexos do sol poente espelhavam-se nas águas do rio. Os pescadores, cantando, recolhiam as redes que haviam posto a secar. Os barcos balançavam-se ao vento.
Dona Elvira, tendo acabado de preparar o jantar, colocou, após o banho, um vestido estampado leve e singelo. Uma criaturinha frágil. Seus olhos pareciam um pedacinho de um céu bem azul. Cabelos pretos contrastavam com sua pele pálida e aveludada.
Os meninos, muito bem lavados, cabelos ainda molhados pela água do chuveiro, esperavam o pai chegar do trabalho.
Aquele momento da chegada do marido era sempre agradável para Elvira. Abriu a janela e ficou a olhar para a rua.
Entre as pessoas, apareceu a figura esperada. Caminhava apressadamente, ansioso para chegar em casa. Como sempre, carregava um embrulho, uma surpresa para os filhos e uma rosa para a esposa. Chegando, beijou-a ternamente e beijou as crianças com a mesma ternura.
O Sr. Henrique era uma pessoa simpática e bonita: alto, moreno, olhos grandes e expressivos, sobrancelhas cerradas. Caráter firme e inabalável, ao lado de uma serenidade fora do comum. Tinha uma maneira discreta de sorrir; nunca dava uma gargalhada.
Dona Elvira arrumava a mesa para o jantar, enfeitando-a com a flor que lhe trouxera o marido e enquanto as crianças abriam o pacote de doces cristalizados trazido pelo pai.

Era domingo. Dia de folga pra o sr. Henrique. Enquando saboreavam a gostosa torta de frango, seu filho mais velho, encantando, exclamou:
- O que a mãe faz é tão bom!
- Amor, não somente os seus filhos apreciam o que você faz. Seu marido também adora sua comida, seus doces e suas quitandas.
- Obrigada a vocês por tantos elogios.
Era sempre assim. Dona Elvira preparava pequenas delicadezas para eles. Tudo aquilo era uma festa. Tudo aquilo era carinho. Tudo aquilo contava pontos para a felicidade do lar.

terça-feira, julho 20, 2010

O último porre de Horácio.

Tropeçando nas pernas e babando, Horácio encontrou ao lado do fogão apenas o filho de sete meses dentro de um caixote. Gritou o nome da mulher, deu uma olhada no quarto, no quintal, vomitou, lavou a cara no tanque, voltou para a cozinha. Sentou-se e, com a boca mole de bêbado, ficou olhando o menino dentro do caixote.
- Que o diabo a carregue.
Não compreendia por que deixara o menino sozinho e estranhou que ele estivesse quieto, dormindo. Inclinou-se com dificuldade na direção do caixote e viu a carinha toda inchada. Devia ter chorado horas a fio.
Horácio levantou-se, passando a mão na barba. As panelas em cima do fogão estavam sujas e vazias. A garrafa de cachaça sumira na prateleira. Sentou-se novamente e ficou coçando o pixaim cheio de serragem. A mulher devia estar na casa da sogra.
- Que apodreça lá.
Horácio foi para a cama e adormeceu logo. Mesmo com o choro do menino, custou a acordar. Depois esperou um bocado para ver se ele parava. Levantou-se amarrotado e enfiou o bico na boca do menino. Mas o danadinho cuspia o bico e continuava chorando. Fome, com certeza. Horácio não encontrou leite, nada de comer.
Deixou o menino chorando no caixote e foi comprar alguma coisa no Seu Pedro. Pediu uma birita no balcão e um pedaço de queijo para o menino. O vizinho Zé Gamela, um tanto chumbado, ofereceu-lhe um copo de cerveja. Horácio falou que o menino estava sozinho, mas aceitou e retribuiu a gentileza com duas doses de Tonturinha e uma de 51.
No meio do papo, disse para Zé Gamela que a mulher tinha saído de casa. O outro comentou que era melhor. Mais duas cachaças. Depois perguntou pelo menino e ficou surpreso ao saber que ela o deixara para trás.
- Num levou ele mesmo, não?
- Deixou ele pra mim.
Os dois riam. Aos poucos, Horácio foi fazendo uma cara de idiota. Tinha ido ao boteco comprar alguma coisa para o menino. Ele estava sozinho no caixote, chorando. Engoliram mais duas pingas rápidas.
- Até logo. - Horácio saiu trôpego pela rua descalça.
Achou o menino chorando do mesmo jeito. Pegou-o dentro do caixote, desajeitadamente, e tentou fazer com que ele chupasse um pedaço de queijo. Horácio permaneceu adernado de um lado para outro, no meio do cômodo, com o menino engoelando no seu colo.
Sem saber o que fazer, deitou com o menino na cama, e, apesar do choro no ouvido, dormiu imediatamente. Um sono agitado. Revirara inquieto na cama, enquanto o menino chorava cada vez com mais empenho.
Teve uma hora em que Horácio pegou o travesseiro da mulher e pôs em cima da cara do menino e o manteve ali até que o choro terminasse, e apenas o seu ronco bêbado ocupasse todo o cômodo.

Assim ficou melhor para todo mundo.

Um mulato enxuto fazia a linha de ônibus do bairro. Tinha o cabelo de brilhantina, bigodinho, um dente de ouro e lábios rasgados. Simpatizava com ele. Sentava sempre na frente. Volta e meia virava e sorria pra mim com seu bigodinho e ria com seu dente de ouro. Às vezes eu ia até o ponto final. Comprava pra mim um pacote de bala, me contou que era casado, tinha três filhos. A menina mais velha combinava com minha idade.
Um dia ele largou o serviço mais cedo, tava quase escurecendo, e foi andando na frente e eu atrás. Só falou a hora que ia sair da garagem. E eu tava lá esperando. Olhou pra mim com aquela boca rasgada e o bigodinho fino e foi andando. Vi o jornal dobrado no bolso dele e sabia para o que era. Sabia, sim. Quando chegamos no campo de futebol, ficou parado. Acho que ele tava com um pouco de receio por causa dos meus catorze anos, ou talvez por causa do meu pai, que era conhecido dele. Aí eu entrei na frente, segui a trilha e deitei na grama e falei ''vem logo''. Ele se chamava Davidson, um nome engraçado, me fazia rir.
Fomos no campo algumas vezes. O azar é que eu peguei barriga. Mas só fiquei sabendo isso muito tempo depois, quando começou a crescer. Davidson viu minha barriga e sumiu, nunca mais voltou no serviço, e ninguém dava notícia dele. Falei com minha mãe, ela chorou. Meu pai acabou descobrindo. Aprontou o maior barulho, queria matar, esfolar, encheu mais a cara de cachaça, me deu uns tapas. Não falei de quem era o filho, podia bater à vontade. Minha barriga continuou crescendo.
Aí veio o negócio do hospital, minha mãe deu força, ajudou, ficou comigo, tive hemorragia e quase morri. Ela cuidou do menino até eu levantar da cama. Meu pai continuou bebendo sem parar, e duas vezes peguei ele maltratando o meu neném, dando cachaça pra ele. Um dia tava na casa da minha avó, pra pegar uma roupa que ela tinha feito pra mim. Eu fui a pé, tava muito quente e deixei o menino com minha mãe.
Tava lá experimentando o vestido, quando meu irmão chegou e disse que o pai tava batendo com a correia da bicicleta no meu neném. Ele tinha enchido a cara e falou que ia matar o menino. E a minha mãe? Meu irmão falou que ela gritava no quintal, pedindo ajuda dos vizinhos. Fui na cozinha da vó e catei uma faca pontuda e saí correndo lá pra casa.
Meu neném tava chorando no chão e minha mãe tava tentava segurar meu pai. Eu entrei e enfiei a faca no meu pai. Não sei quantas vezes. Enfiei a faca e ele foi caindo e eu fui enfiando a faca sem parar. Foi isso.
Arrependimento? Não, não tenho nenhum. Eu tinha de defender o meu neném. E foi bom pra minha mãe. Meu pai não prestava pra ela, não prestava pra ninguém. E já tava todo inchado de cachaça. Acho que foi melhor pra ele também.

sexta-feira, julho 16, 2010

O que acontece se...

''As hipóteses são como retas: tu as lança e alguma coisa, em algum momento, as encontra.''
A técnica das ''hipóteses fantásticas'' é muito simples. Sua forma precisa é a da pergunta: O que aconteceria se...
Para se formular a pergunta escolhe-se ao acaso um sujeito e um predicado. A sua união fornecerá a hipótese sobre a qual se deve trabalhar.
Vejamos: sujeito - ''Milão''; predicado - ''cercada pelo mar'': O que aconteceria se de repente Milão fosse cercada pelo mar?
Ou então: sujeito - ''Paris''; predicado - ''voar''; O que aconteceria se Paris voasse?
Eis duas situações dentro das quais os acontecimentos narrativos multiplicam-se espontaneamente ao infinito.

segunda-feira, julho 05, 2010

Pequena flor da maçã.

Ela sente saudades dele, mesmo quando ele está ao seu lado.
Ela não lembra o significado de infelicidade. Nem ao menos tenta.
Seu corpo não consegue ficar longe do dele. Sente-se doente.
Doente de amor.

Os livros não fazem mais companhia.
Os filmes são repetitivos.
O cigarro a acompanha todos os dias.
E a bebida, na sua caneca favorita.

Difícil mesmo é ter que guardar as palavras bobas para o final de semana.
E se sentir chorona e serena ao seu lado.
Sorrisos são tão constantes.
Ela espera seu doce alento.