A porta de aço descida quase embaixo e a cara amarfanhada de todos os desânimos, João contava a magra féria no boteco. A situação começava a ficar difícil desde a cirurgia da mulher, quando ficaria alguns dias sem os salgados. Sua recuperação se complicou, e ele teve de cortar os fiados e tentar receber dos fregueses que lhe deviam. Precisava muito do dinheiro. Não compreenderam. Poucos pagaram. A maioria tratou de sumir. Tinha gente, antes tão amiga, que deslizava do outro lado da rua e nem olhava na sua direção.
Parara de vender maço de cigarro; cigarro só picado. As prateleiras, desfalcadas. Acabou comprando cerveja de segunda mão. A mulher custou a se restabelecer, mas, com as vendas curtas e a fuga da freguesia, deixara de fazer os salgadinhos de todos os dias. O boteco, antes tão bem sortido de tira-gosto, bebidas e algumas latarias, agora era a imagem da decadência. Sobrevivia praticamente na base da cachaça ruim.
Desesperançado, João guardou as notas no bolso e deixou alguns trocados na gaveta. Ia apagar a luz e passar por baixo da porta de aço quando ouviu um carro parando. Pelo barulho podia ser uma caminhonete. Passos se aproximaram, e uma voz lá de fora perguntou se dava para pegar um maço de cigarro.
- Meu cigarro acabou.
- E cerveja?
Sim, tinha umas cinco garrafas na geladeira. Fizera bem em não ter ido dormir. João suspendeu a porta e sorriu para três homens: um branco, um preto corpulento e um jovem mulato.
- Boa noite - disse o branco educadamente. Era a mesma voz que ouvira do lado de fora. - Nós queríamos tomar uma cerveja - continuou o branco. - Mas parece que o senhor estava fechando.
- Podem entrar - apressou-se João. Achei que não vinha mais ninguém.
- Quem sabe.
- Oh, não. - João afastou-se para que os três entrassem. - Vou passar um pano na mesinha.
- Não precisa - tornou o branco. Encaminharam-se para o balcão. - Que tal uma cachacinha? - O mulato e o preto concordaram. - Então uma cerveja e três cachaças.
João trouxe, solícito, as bebidas e os copos, procurando não olhar para a cara séria do preto, onde havia uma cicatriz vermelha, longa e saliente. Postou-se à meia distância, de forma a deixá-los à vontade mas pronto para atendê-los. Tentou adivinhar a profissão deles. Pareciam sem vestígio de graxa. Pelo jeito já haviam bebido alguma coisa. Bobagem, pensou João. E notou que o branco, de cabelo farto e cor de fogo, embora fosse baixo e magro, devia mandar no mulato - um rapaz alto, de cara lisa - e no preto, atarracado, os braços musculosos. Só o branco sorria. Viraram primeiro a cachaça.
- O que há para comer? - perguntou o mulato, olhando para a vitrine, onde havia apenas um prato com meia dúzia de bolinhos de queijo.
- Traz os bolinhios - decidiu o branco. - E traz a garrafa de cachaça.
João pegou a cachaça para serví-los e ia dizer que esquecera de recolher os bolinhos, pois eles estavam começando a endurecer, quando o branco ordenou.
- Deixe a garrafa.
- E os bolinhos? - lembrou o mulato.
- Vocês viram o salame? - propôs João.
- Salame ou bolinhos? - o branco dirigiu-se aos dois.
- Prefiro os bolinhos - disse o mulato, mostrando os dentes perfeitos, como se estivesse rindo de outra coisa.
Observavam João apanhar o prato na vitrine e o paliteiro. O preto ficou olhando o mulato espetar o bolinho de queijo. Deu uma mastigada e cuspiu tudo no chão.
- É de ontem - justificou-se João. -, mas não estão estragados.
O mulato virou o cálice de cachaça de uma vez.
- Tudo bem, meu irmão - disse o branco. - Pode levar o prato com os bolinhos.
- Se os senhores quiserem...
- Leve os bolinhos - cortou o mulato. - Vai o salame?
João ficou esperando a aprovação dos outros dois, principalmente do branco, pois o preto, até o momento, não dissera nada, e além da cicatriz do rosto dava a impressão de que estava noutro lugar.
- É uma boa ideia - concordou o branco.
João levou os bolos de queijo e pegou a bexiga de salame dependurada na prateleira. Trouxe também a faca e uma velha tábua.
- Mais grosso - recomendou o branco.
João cortou mais três pedaços e aguardou que cada um tirasse o seu. O mulato mostrou os dentes.
- E a pele?
- Com pele é melhor - o branco riu mais e pegou um dos três pedaços. Os outros dois fizeram o mesmo. João prestou atenção nos três comerem, como se esperasse que eles dissessem alguma coisa.
- Corta mais - falou o branco -, mas antes traz outra cerveja.
João trouxe uma nova garrafa e cortou mais três fatias.
- Pode cortar tudo - tornou o branco. - E traz uns palitinhos.
O jovem mulato entornou a cachaça nos cálices vazios, e os três observaram João com a faca afiada acabar com a bexiga.
João ficou um momento indeciso. Sabia que o pão também era de véspera e devia estar murcho no saco de pano.
- O pão - cobrou o branco.
Cada um fez seu sanduíche com um naco de salame. João dirigiu-se à pia e lavou os copos sujos. De vez em quando, olhava para eles discretamente, desviava logo a vista para não ver a cicatriz no rosto do preto. Entre uma bocada e outra, davam uma bicada na pinga, que já estava bem abaixo da metade. João fechou a torneira, enxugou as mãos na calça. Pensou em recolher uma garrafa de cerveja vazia, desistiu. Os três comiam e bebiam em silêncio. Devia ser quase uma da manhã. À medida que os observava, João não conseguia atinar com a profissão deles. Os três eram bastante diferentes, sem nada em comum, a não ser o hábito de beber. A garrafa de cachaça estava quase no fim. Não tinham pressa.
- Algum problema?
João sorriu constrangido para o mulato e, antes que abrisse a boca, o branco pediu mais uma cerveja.
- Escuta aqui - tornou o mulato de dentes fácies, depois que João serviu a bebida. - Como é que chama este lugar?
- O bar?
- Não, o bairro.
- Primeiro de Maio.
- Interessante: Primeiro de Maio.
- É o nome do bairro.
- Pelo jeito - observou o branco, olhando as prateleiras vazias -, o negócio não está indo bem.
O rosto de João ficou mais amarfanhado.
- Quem sabe eu estou enganado? - acrescentou o branco.
- Dá para ir vivendo - disse João, modestamente.
- Quanto você costuma fazer?
- Varia muito.
- Um dia pelo outro?
- Uns nove mil. Às vezes um pouco mais, conforme o mês.
- E hoje?
- Hoje foi um dia ruim. Uns seis mil, sem contar essa despesa.
João notou que a bebida tinha chegado ao fim, o prato limpo. O branco fez um sinal para o preto, e este se afastou do grupo. Sentiu um calafrio na espinha quando a porta de aço foi abaixada.
- Não perca a esportiva - aconselhou o branco.
João empalideceu de uma vez e pegou a faca de cortar salame. O mulato tirou calmamente o revólver do bolso de trás.
- Por favor, fique calmo. Nada de bobagem - recomendou o branco. - Largue a faca e está tudo bem. Isso mesmo, largue a faca. Ninguém vai dar tiro à toa.
Assustado e trêmulo, João achou mais prudente deixar a faca em cima da tábua. Não parava de olhar para o revólver na mão do jovem mulato.
- Isso mesmo - disse o branco, com um sorriso calmo. - O dinheiro está na gaveta ou no seu bolso?
João tentou correr para o fundo do bar, onde havia o banheiro. O preto cercou-o do outro lado do balcão. Um soco no meio da cara deixou João esparramado no chão.
- Eu falei para o senhor ficar bonzinho - observou o branco, aproximando-se. - Aí no chão está bom. Fica aí, enquanto nós fazemos o nosso trabalho.
Sangrando no nariz e na boca, João quis levantar-se. O preto colocou o pé em cima do seu pescoço, pressionando-o não mais do que o suficiente para que ele compreendesse que convinha ficar quieto.
O branco abaixou-se para tirar o dinheiro do seu bolso. Não viu o mulato abrir a gaveta e pegar algumas garrafas na prateleira.
- Acho que não tem mais nada - disse.
O branco olhou em torno, com sua cara boa. É, realmente não havia mais nada - um boteco da pior categoria.
- Gostei da faca - disse o preto pela primeira vez, sem tirar o pé do pescoço de João. Sua voz era rouca, difícil.
- Acho que é tudo, - disse o branco.
- E o que é que fizemos com ele? - perguntou o mulato.
Com o pé apertando o pescoço e os olhos esbugalhados na cara ensanguentada, João ficou esperando a decisão do homem branco.