terça-feira, abril 06, 2010

Está com os pensamentos misturados como um milkshake.

Viviam dizendo que ela era calma, preguiçosa até. É preciso reconhecer que havia um pingo de verdade nestas más línguas, mas o resto era pura invenção, potoca de quem não tinha o que fazer. Era calma sim, e daí?
Uma vez lhe disseram que os homens vendiam calma também.
A esquina custava a chegar. As pessoas passavam apressadas, desviando-se umas das outras, com embrulhos debaixo dos braços e uma preocupação na testa franzida.
O vento soprou mais frio ainda, levantando no ar jornais rasgados. E ela continua calma.

sexta-feira, março 26, 2010

Hiperligação.

Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizível do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.

segunda-feira, março 22, 2010

Homecoming - The Teenagers.

(Ele)
Semana passada, eu fui a San Diego para ver minha tia. No primeiro dia, eu conheci sua enteada gostosa. Ela é uma garota-de-torcida, é virgem e ela é muito bronzeada.
Logo que ela desceu do carro, pude notar que ela era mais do que pegável. Eu acho que ela estava voltando do jogo ou algo do tipo, pois ela estava segurando aqueles pom-poms toscos. No segundo dia, eu transei com ela, e foi animal. Ela é tipo uma puta.

(Ele)

Eu fudi minha vadia americana.
(Ela)
Eu amo meu namorado inglês.
(Ele)
Foi demais, o sonho se tornou realidade, assim como eu gosto, ela tem boas tetas.
(Ela)
Foi perfeito, o sonho se tornou realidade, que nem na música do Blink 182.

(Ela)
Ok, ouçam meninas: eu conheci o cara mais gostoso que existe. Basicamente, assim que eu desci do meu carro, fiquei cara-a-cara com meu primo-enteado ou seja o que for, quem se importa? De qualquer modo, ele usava jeans skinny, tinha um cabelo estranho e o sotaque britânico mais fofo.
De longe, eu pude notar que ele era roqueiro por sua atitude sexy e o jeito que ele olhava pra mim. Mmmmmm, ele é totalmente demais.
Ai meu Deus, eu acho que estou apaixonada.

(Ele)
Foi um prazer te conhecer

(Ela)
O prazer foi todo meu, eu gostei mesmo de você. Venha pra Cancún no feriado da primavera.

(Ele)
Eu vou pensar nisso. Seria ótimo.

(Ela)
E não esqueça de me adicionar.

(Ele)
Até parece.

sexta-feira, março 19, 2010

Worldwide.

Agora é manhã em Bagdá. Hora de tomar chá à sombra da mangueira, balançar os pés no muro de arrimo e assoviar para as meninas que germinavam de vergonha suas risadinhas.

É de tarde no Arizona, calor danado na fedentina do curral. A garganta seca e arfa de poeira. Hora de água gelada da bica, à sombra do chapéu. Hora de balançar-se na porteira e cantar para as colegiais que intumescem de suor o tergal das camisas.

Noite, breu na Patagônia imóvel. O frio arrebenta os veios da mata, infiltra-se na pele da terra. É tempo de vinho quente agasalhado no poncho. Hora de soltar as cantigas, inflar as bochechas, chacoalhar os ombros. E aquecer o coração das cabrochas.

Na praia deserta, lá no cafundó, o sal queima a língua. O bafo é quente nas ventas. Está quase na hora de correr para casa, tomar banho e sair na brisa da varanda.
No mundo todo, em qualquer naco que se escolha, para qualquer teco que se aponte, toda hora, todo tempo, é assim que a gente faz: a natureza dita e o coração manda.

segunda-feira, março 15, 2010

Ele possuía um nome. E agora, uma personalidade.

Descreveu-o como um rapaz quieto, sério, muito talentoso, que gostava de se manter afastado dos outros, suportava com paciência o constrangimento da vida de internato.
Escrevi, para acompanhar meus versos, uma carta na qual expunha sem reservas, com abertura que escapava ao meu controle, de maneira que nunca fizera antes e nunca voltaria a fazer para qualquer outra pessoa.

quarta-feira, março 10, 2010

Good to go.

É mais ou menos como se fôssemos jogados nus numa piscina cheia de gelatina de uva. Uma coisa estranha.
O diálogo silencioso dos dois era muito expressivo.
Mas muito indica que foi daquelas paixões estranhas que vão contaminando, contaminando. Mais ou menos na ladeira de uma montanha russa. Vai dando aquele aperto danado até largar as amarras ladeira abaixo e soltar a goela loucamente. Ou para ser mais simples, é mais ou menos quando se entra no mar depois de assar no sol. No começo é meio complicado, parece que não vai acabar mais de tanto sofrimento. Mas quando - TCHIBUM! - vem a primeira onda, que delícia!

Foi assim o encontro deles.
Lindo, lindo, lindo.
E durou. Durou para ela e também para ele. Vinte e quatro segundos.
E foram felizes para sempre (cada um no seu canto).

domingo, março 07, 2010

The Caretaker.

Isso não pegava bem para sua reputação.
Afinal de contas, suas exibições públicas eram sempre envoltas em mistério e tensão.
Mas, de verdade, nunca ninguém se preocupou em entender direito o mundo dela.
Ninguém nunca chegou perto, no pé do ouvido, ali, cara a cara, mão na mão, ombro contra ombro.

quarta-feira, março 03, 2010

Noite quente.

Era perto das sete da manhã e o sol escorregava sem convicção pelos eucaliptos.
E pelas ruas que serpenteiam ladeira acima, a animação continua.
Ele não chora mais as feridas da lembrança e nem das noites em que sonhava. Era um dia após o outro.
Sozinho em casa, com um bafo etílico, o incenso lhe causava uma tontura gostosa.
Realmente sentia remorso e raiva pelas coisas que tinha (ou não) feito na noite passada. Agora ele só pensava.

terça-feira, março 02, 2010

Life-fe.

A gente não está na Terra para entender as coisas. As coisas não são para serem entendidas.
A gente sofre quando quer entender. Mas a natureza fez as coisas assim, para que a gente passe a vida toda tentando entender o que quer dizer a vida. E, quando a vida vai dar um ponto final, a gente percebe que não entendeu nada, porque não tinha nada para entender.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Sobrecarga de audiência.

No fundo do quarto, a TV mostrava cenas de um filme.
Estar com ela era como se tudo deixasse de existir.
Como se tudo à sua volta não passasse de um cenário de teatro. Imóvel e disponível.
Todo dia uma descoberta, um maravilhamento, uma aguda excitação.
Delícias a restaurar e preservar.
Apenas o tempo passava. E o prazer de estar com ela a minguar.
Ela deitou a cabeça no peito dele.
Ele, passou a mão espalmada pelo ventre dela.
Gostava daquele corpo há poucos dias desconhecido para ele. Pensava que se tratava de mais uma ligação temporária, mais um encontro fortuito e sem maiores consequências entre macho e fêmea.
Ela mexeu-se na cama, beijou o peito dele e passou uma perna sobre as suas.