Ontem pela manhã (passava das 8 horas), fui à padaria tomar um capuccino. Decidi ir sozinha. Sem que ninguém soubesse. Precisava de um tempo para mim.
Sentado na mesa perto da janela, um rapaz me chamou a atenção. Resolvi sentar na mesa ao lado. Ele era encantador.
A polêmica por causa da verdadeira cor dos olhos dele determinou o surgimento de três correntes que divergiam furiosamente a minha mesa. Considerava-os "obviamente verdes", ao mesmo tempo, aferrava-me à tese de que, na verdade, eram azuis (talvez um "azul-água", o que não passava de uma forma de aceitar que eram verdes); contradizendo meus pensamentos anteriores acreditei: os olhos dele eram de cor violeta, como os de Elizabeth Taylor.
Eu e meus "neurônios" ficamos minutos nessa discussão.
Hoje, no mesmo horário, eu quis aparecer lá. Com a quase certeza de que iria encontrá-lo. E adivinha quem estava sentado no mesmo lugar de ontem?! Ele mesmo. O até então misterioso rapaz. Que usava hoje um chapéu engraçado que deixou-o mais intelectual. Ele parecia ainda mais doce dessa vez. Impossível não se apaixonar! Percebi, no seu olhar que notava a minha presença e lembrava do meu rosto, já que também sentei no mesmo lugar. Porém, hoje, percebi uma coisa que ontem eu não havia reparado: ele usava uma aliança. Isso não me desanimou, aliás, eu sabia que não era o bastante para ele e não criei expectativas quanto a isso. Só queria conhecê-lo e bater um papo. O que acontecesse apartir daí, era pura e mera conseqüência.
Parecia tudo tão cinematográfico. Até agora não acredito.
Enfim... Ele fazia várias anotações com expressão absorta e preocupada, numa caderneta de couro marrom. Ao mesmo tempo, abria um livro e lia com tal atenção e interesse, que até a garçonete, quando lhe trouxe o café, cuidou para não perturbá-lo.
Qualquer idéia de uma eventual aproximação era desencorajada por uma espécie de constrangimento absoluto imposto pela concentração que ele lia ou escrevia. Quem cometeria a monstruosidade de interromper aquela concentração?
Houve a ameaça, apenas ameaça de duas ou três vezes - cheguei a elaborar planos de verdadeiras abordagens piratas a serem feitas na mesa dele -, mas, no último minuto, sempre me arrependia: surgia uma voz sensata lembrando, com muita lógica, que criaria uma situação embaraçosa. Era evidente: a aproximação seria certamente repelida pelo rapaz com encantadora cordialidade, porém combinada a uma firmeza intransponível - sempre restariam seqüelas: ele poderia até não se sentir mais à vontade para voltar ao local. Já pensou se ele me abandona totalmente? (Como se eu fosse alguém na vida dele, droga!). E aquele temor de que pudesse magoá-lo, na ânsia de tentar uma aproximação, ia me contendo.
Seu nome permaneceu ignorado. E quando eu já estava cansada de não saber, fiquei sabendo que era conhecido como "Antônio", em razão de um episódio fortuito. Uma vez, ele precisou usar o telefone e, na conversa rápida que teve, embora os meus ouvidos atentos, não foi possível captar nada ou quase nada. Consegui ouvir a primeira frase, a resposta dele, quando atenderem o telefone do outro lado da linha: "Alô, bom dia, aqui é o Antônio. Hã? Iiisso, Tavares.". Parecia seu sobrenome também, não sei ao certo.
Mas foi o suficiente para torná-lo próximo de mim. Saber como chamá-lo, já era um tesouro para alimentar a minha fantasia.
Ele lia um livro encadernado, de impenetrável capa escura, sem nenhuma palavra ou indicação na frente. O que será que ele está lendo? - me preocupava.
Seguramente era algo profundo e inquietante, pela expressão do leitor.
E o que ele escrevia naquela caderneta? Decerto um diário, anotações para algum ensaio que estava fazendo (ele tinha cara de ator), talvez um trabalho...
Ele se levantou. Certamente estava indo pagar a conta. Meu coração disparou e me senti pequena, minúscula, inútil. Foi quando ele parou e se virou. Voltou lentamente em direção à minha mesa.
Fique estática.
- Oi, tudo bem? - disse ele, revelando uma voz franca, quente e melodiosa que nunca ouvi antes, assim pronunciada diretamente.
Não conseguia falar. Estava assombrada. De perto ele aparentava ter uns 23 anos. E isso não era ruim. Ele era lindo!
- Estou me despedindo. Vou embora hoje. Não sou daqui, sou carioca, vim à trabalho. Gostei da cidade. Só achei o pessoal meio fechado. Posso fazer uma pergunta? Por que é que nesses dois dias que nos vimos, você não falou comigo? Pois eu percebi o jeito como me olhava - falou ele, incansavelmente.
Fiquei estarrecida, muda, invadida por um sofrimento indescritível. O que eu podia fazer?
- Te achei interessante. Diferente. E sabia que tu não era daqui. Não falei contigo porque tu estava concentrado na tua leitura, achei tão injusto te atrapalhar - tentei remediar, envergonhada, procurando palavras bonitas para não desapontá-lo.
- Também te achei interessante e com um brilho que nunca havia visto uma garota da sua idade - disse ele, com um sorriso.
Nessa hora, meus olhos brilharam mais ainda.
Ele olhou o relógio e fez uma expressão desolada:
- É, pena, não posso mais ficar. Meu ônibus sai às dez...
- Eu te levo até a rodoviária, pode ser? - falei com uma certa histeria, queria conversar mais com ele. Estávamos ali não havia 5 minutos.
- Melhor não - ele falou querendo me consolar.
- Tá bom. Mas... só mais uma pergunta: o que tu estava lendo? - falei com uma voz e expressão engraçada (bem conhecida por meus amigos).
- Ah, O Pequeno Príncipe e Novelas Escolhidas de Saint-Exupéry.
- E o que tu tanto anotava?
- Poemas. Eu escrevo poemas. Desculpa, mas tenho que ir. Adorei o café. Adorei o lugar. Adorei você, menina, apesar de não ter falado comigo no começo - disse como se eu já fosse uma amiga.
Ali na frente da padaria mesmo, nos despedimos. Ele me deu um beijo no rosto e disse que voltaria e que nos encontraríamos novamente. Ele me procuraria.
A sensação de que aquele momento era uma cena de filme me veio à cabeça mais uma vez.
Logo ele deu um aceno, virou-se e foi embora. Seus olhos brilhavam. Não tive dúvidas de que eram de cor violeta.
Papo rápido no uatizape.
Há 3 semanas